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Era uma vez em Tóquio: O filme que treina o nosso bom-senso

08/05/2017 - 16:19, + Mercado, Life & Arts

Ninguém que tenha visto este filme negará a arte e a capacidade de nos tornar um pouco melhores do que somos.

Por Bruno Domingos 

Um casal de idosos deixa sua filha no campo para visitar os outros filhos em Tóquio, cidade a que eles nunca tinham ido.

Porém, os filhos recebem-no com indiferença, estão sempre muito atarefados para terem tempo para os pais. Apenas a nora deles, que perdeu o marido na guerra, parece dar atenção aos dois. Quando a mãe fica doente, os filhos vão visitá-la junto com a nora, e complexos sentimentos são revelados.

Relações humanas em perspectiva contemporânea. Uma análise em duas grandes partes: o valor da família e a vida acelerada de Tóquio frente à vida antiquada do interior. Acredita-se que a cultura da época influenciou muito no tratamento da sociedade, que difere da nossa em muitos aspectos.

A película retrata a relação, por vezes, ácida entres pais e filhos, assim como o ponto de vista dos pais em relação às suas expectativas com os filhos.Nos leva a reflectir sobre a valorização dos progenitores, o sacrifício que fizeram para que tivéssemos um berço condigno; por outro lado, nos ajuda a repensar muitas das atitudes que tomamos e as suas consequências.

Face aos valores perdidos, à depravação e à inversão de valores, bem como à falta de amor ao próximo, recomendo o filme Era Uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu (1903-1963).

O filme foi considerado o terceiro melhor da história do cinema na pela revista Sight & Sound, em 2012, ficando atrás apenas das obras-primas “Um Corpo que Cai” e “Cidadão Kane”, respectivamente. Yazujirô Ozu fez um filme onde procura despertar os sentimentos humanos: amor, dor, perda e família. Um casal de idosos (Chishu Ryu e Chieko Higashiyama) sai de Onomichi, cidadezinha à beira-mar onde e apanha o comboio para visitar os filhos em Tóquio.Os primeiros diálogos são a respeito de um travesseiro inflável que será usado na viagem e está perdido. Ou parece estar, até que o senhor Shukishi (Ryu) o encontra na sua bagagem. No velho casal, a ternura da convivência de tantos anos se mistura a certa birra recíproca, uma acomodação de relação provocada justamente por essa convivência longa.

Depois há o encontro com os filhos e os netos em Tóquio. Encontro falhado. Há o filho médico, assoberbado com sua clientela de bairro.

Há a filha, dona de um salão de beleza e ela também absorvida pelo trabalho. Há os netos desinteressados da presença dos avós. E há a nora, Noriko (Setsuko Hara), viúva de outro filho do casal, morto na guerra. Como as outras mulheres jovens da história, Noriko também trabalha fora para viver. Bem, estamos no Japão dos anos posteriores à derrota na guerra.

Há em curso um processo acelerado de ocidentalização. Antigos costumes convivem com novos e de forma assimétrica. A devoção pelos pais continua presente, sem dúvida. Mas deve atender às conveniências de uma sociedade em rápida transformação, na qual tempo é dinheiro.

Ninguém que tenha visto este filme negará a arte e a capacidade de nos tornar um pouco melhores do que somos.

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