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Nuno Oliveira Matos: “O sector segurador terá de se consolidar para ganhar escala”

07/07/2016 - 16:25, + Mercado, Entrevistas

O chefe de serviços actuariais da PwC fala dos desafios e das oportunidades do mercado segurador nacional num contexto de crise e sublinha que nenhuma economia moderna funciona sem um sistema financeiro e segurador forte.

Por Aylton Melo | Fotografia DR

Sobre a actividade seguradora em Angola, face ao impacto da crise. Em que medida está o sector a ressentir-se desta situação?
Não existem sectores de actividade imunes a uma recessão económica. A contracção da economia resulta em menor massa segurável e numa diminuição da produção (prémios). Isto é verdade quer nos ramos reais quer no ramo vida. De facto, já se tem vindo a notar uma deterioração nas taxas de incobralidade dos recibos e no prazo médio de cobranças face ao ano anterior.

De que forma fóruns como este podem ajudar a desenvolver a actividade seguradora em Angola?
O consumo de produtos de seguros, normalmente medido por prémios per capita, está relacionado com o desenvolvimento e maturidade da economia e com o nível de vida/bem-estar da população (normalmente medido através do índice de desenvolvimento humano). Uma economia mais diversificada será uma economia mais robusta, potenciadora de mais agentes económicos e de uma classe média mais alargada. O desenvolvimento da actividade seguradora em Angola passará sempre pelo alargamento da sua base de consumidores (empresas e indivíduos) com capacidade e literacia financeiras suficientes para comprar os seus produtos. Fóruns como este são importantes para partilha de experiências e eventual calibração de estratégias, mas per si não serão potenciadores de negócio.

Que avaliação é possível fazer sobre o crescimento do sector segurador no País no âmbito da relação banco-seguradoras?
Nesta matéria, existe ainda um longo caminho a percorrer. Existem, actualmente, muitos players no mercado, em diferentes estados de maturidade e profissionalização. Será provavelmente necessário que o sector se consolide, para que assistamos a um estreitamento da relação entre o sector segurador e a banca.

É possível olhar da mesma forma para o contributo das seguradoras e dos fundos de pensões?

A actividade seguradora de vida e o sector de fundos de pensões são complementares. A primeira é um alicerce do sector financeiro, fundamental na concessão do crédito hipotecário e de consumo. O segundo é normalmente visto como o terceiro pilar do Estado social. Os fundos de pensões em Angola alinhar-se-ão com as práticas dos países mais desenvolvidos, onde é usual os fundos de pensões comprarem rendas vitalícias a seguradoras de vida, transferindo assim para estas as suas responsabilidades perante os pensionistas.

De que forma o mercado segurador pode ajudar na diversificação da economia angolana?

Nenhuma economia moderna funciona sem um sistema financeiro e segurador forte. No actual contexto macroeconómico, os seguros dos ramos reais devem ser utilizados como catalisadores na diversificação da economia. Os seguros de crédito e caução, os seguros de trade finance (mercadorias) e os seguros de colheitas terão um papel particularmente importante a desempenhar neste sentido. Os seguros de vida têm, igualmente, um papel a desempenhar como garante do bom cumprimento do crédito, em caso de morte ou invalidez do devedor.

A criação de novos produtos de seguro, sobretudo o lançamento do seguro agrícola no País, é uma porta para a diversificação?
Naturalmente, tal como já referido. A economia angolana está demasiadamente dependente do petróleo. Tem condições geográficas e um clima ímpares para ser um grande produtor agrícola. O seguro agrícola ou de colheitas diminuirá o risco dos empresários agrícolas, contribuindo para a implementação sustentável deste sector.

Este último é exequível no actual contexto?
O papel das seguradoras em qualquer economia é o de assunção de riscos resultantes de fenómenos aleatórios, a que os agentes económicos, sejam empresas ou indivíduos, potencialmente se encontram expostos. A sua exequibilidade resulta da própria essência da actividade seguradora.

Quais são os principais desafios e oportunidades que existem neste sector, apesar do actual contexto da nossa economia?

Correndo o risco de me repetir, penso que o sector invariavelmente irá caminhar para uma consolidação, onde somente as companhias mais robustas em termos de solvência e as mais profissionais terão lugar no médio e longos prazos. Os departamentos comerciais deverão ter underwri-ters qualificados. Os departamentos técnicos terão de dotar-se de actuários. Os departamentos financeiros terão de investir em contabilistas e fiscalistas. Os departamentos informáticos terão de implementar e zelar pela infra-estrutura tecnológica. As companhias terão de se dotar de bons gestores de topo, que implementem um governance alinhado com as melhores práticas internacionais. A ARSEG deverá reforçar os seus quadros técnicos, para que exerça uma efectiva regulação e supervisão do sector. Não se pede que inventemos a roda, apenas se pede que a usemos bem!

Ainda no âmbito dos desafios e oportunidades do mercado segurador, destas, quais podem promover ou dificultar o desenvolvimento da bancassurance no País?

Como já tive oportunidade de referir, existem actualmente muitos players no mercado, em diferentes estados de maturidade e profissionalização. Será provavelmente necessário que o sector se consolide, para que assistamos a um estreitamento da relação entre o sector segurador e a banca. Alguns indicadores mostram que o mercado segurador angolano acompanhou a dinâmica de crescimento do País até 2014, mas contribui com 1% para o PIB.

O que pode ser feito para aumentar esta taxa de penetração?

A taxa de penetração não aumenta miraculosamente. Como já tive oportunidade de referir, o consumo de produtos de seguros é função do desenvolvimento da economia e do nível de bem-estar da população. Uma economia mais diversificada alargará a massa segurável. Uma população com níveis mais elevados de bem-estar será mais propensa ao consumo de produtos de seguro. Adicionalmente, as companhias devem investir em redes de comercialização diversificadas que cubram todo o território nacional. Penso ser esta a fórmula!

Há quem diga que em Angola ainda não existe bancassurance, apenas seguradoras que usam bancos para vender seguros. Concorda com tal afirmação?

Tendo a concordar que a maioria das seguradoras em Angola vê os bancos como uma extensão dos seus canais de comercialização tradicionais. Se bem que esta seja a base da bancassurance, o conceito – em si – não é tão redutor. Entendo bancassurance como um partnership integrado entre um banco e uma seguradora, resultado natural da complementaridade e sinergias dos seus negócios, onde se partilham os riscos e benefícios do negócio conjunto. De facto, este conceito mais lato ainda não é comum em Angola. Adicionalmente, é necessário colocar os banqueiros a pensar em seguros, alinhando as estratégias comerciais dos bancos com a venda de seguros. Existe um conjunto de medidas basilares que devem ser adoptadas para que uma estratégia de bancassurance seja bem-sucedida, nomeadamente a formação de quadros e um marketing eficaz. A actividade de mediação de seguros está a dinamizar-se no País, mas questionam-se os mecanismos e os recursos com que é feita.

Será já na sua opinião uma actividade feita com profissionalismo?

Não tenho dados que me permitam aferir se é, ou não, exercida com profissionalismo. Os mediadores devem ser qualificados para tal. Devem ser formados, regulados e supervisionados pela ARSEG. Os padrões éticos e deontológicos devem ser observados. Os consumidores de produtos de seguro deverão ser protegidos, o que passa necessariamente por somente subscreverem os produtos de que necessitam. O nobre papel do mediador passa por informar ao comum consumidor se o produto que subscreve é adequado, face ao risco que quer cobrir. Deve-se diligenciar para que eventuais reclamações tenham um tratamento célere junto das companhias e da ARSEG e sejam consequentes. Os mediadores devem responder administrativamente e judicialmente por condutas menos rectas e ser obrigados a subscrever seguros de responsabilidade civil profissional.

De acordo com alguns especialistas, a actividade seguradora e a actividade mediadora de seguros devem ser praticadas por entidades diferentes, uma a trabalhar para a outra. Concorda?

A mediação é mais um canal de comercialização de que as companhias dispõem. Cada companhia deve avaliar se a mediação é compaginável com a estratégia de negócio que delineou. As alternativas seriam uma força de vendas própria e exclusiva, a comercialização via Internet, a bancassurance ou um mix de todas estas. Que perspectiva se abre ao serviço de corretagem no País, com o crescimento das fontes de captação de capital no sector financeiro angolano? Penso que o sector segurador primeiro terá de se consolidar para ganhar escala. Após tal suceder, e num contexto macroeconómico mais favorável, admito que o negócio de corretagem tenha condições para se desenvolver em Angola.

O co-seguro e o resseguro para o sector petrolífero têm suscitado alguma polémica devido ao monopólio que se tem verificado desde a sua criação, que mecanismos podem ser usados para partilha destas operações entre os principais players?

Não me compete comentar sobre a bondade das opções do legislador relativamente ao ramo petrolífero. De uma forma conceptual e falando no abstracto, no actual contexto macroeconómico, entendo que o co-seguro tem vantagens face ao resseguro cedido, desde logo pelas divisas que poderiam ficar no País. Para que tal aconteça, as empresas de seguro, com a alta mediação da ARSEG, deveriam ser capazes de implementar os mecanismos propiciadores ao desenvolvimento do co-seguro em Angola.

O País está a criar as condições para que o seguro de mercadoria seja realizado internamente ainda este ano. Que condições deverão as seguradoras preparar para estarem à altura?

O seguro de mercadorias é um ramo complexo, com uma linguagem muito própria e com muitos pormenores. Mesmo que o País logre um enquadramento legal e regulamentar adequado, a falta de experiência prática na exploração deste ramo provavelmente será o maior obstáculo. Tal limitação só se ultrapassará com a formação dos quadros das companhias. Os sistemas informáticos deverão ser também objecto de atenção, no sentido de se adequarem às necessidades de um ramo com tantas especificidades.

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