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Another Woman: Quando julgamos quem somos…

06/04/2017 - 14:58, + Mercado

O cuidar mais de cada palavra, de cada gesto, de cada acção; pensar nas consequências dos actos negativos…

Por Paula Cristina Machado 

Várias têm sido as críticas feitas ao argumentista/realizador Woody Allen. O certo é que o mesmo tem o maior número de indicações (16) ao Óscar de Melhor Argumento, tendo vencido por três vezes, o que o torna o realizador com mais Óscares nesta categoria. Acrescente-se, ainda, que, com 76 anos, conseguiu ser o argumentista mais velho a receber o prémio, com o filme Meia-Noite em Paris(2011).

Quando pensei em ver este filme, e sendo aficionada pelo cinema, tive sentimentos controversos entre analisar o filme e o seu conteúdo e pensar no seu “autor”. Será que podemos separar o profissional do pessoal? O realizador/argumentista do cidadão Woody Allen? É uma questão que permanece em aberto na mente de qualquer um de nós e se propaga, estou certa, para a nossa área profissional/pessoal: pessoas com quem muitas vezes nos vemos a trabalhar, relacionar ou simplesmente cumprimentar na rua. Talvez estas interrogações sejam mais constantes na mente de uma mulher do que na de um homem.

Este filme – Uma Outra Mulher– levou-me a um mundo muito feminino, dos anos 90, e simultaneamente muito contemporâneo. Fez-me esquecer a perspectiva anterior e reflectir sobre a influência e a responsabilidade que cada um de nós tem sobre a vida que o rodeia. O título original – Another Woman– foi reproduzido em português (A Outra Mulher). Pensei que iria ver mais uma história de amor e desamor, traições e resoluções, com a qualidade de um filme dos anos 90 (que nos afasta das maravilhas actuais do HD desta última década). No entanto, 15 minutos depois de começar a minha viagem, esqueci todos os detalhes e caminhei junto com a personagem principal pelos dramas (como a sinopse bem indica) de modo “seco e adulto” de uma mulher de 50 anos. Não precisamos de andar tanto no tempo e caminhar tanto na vida para parar e pensar nos nossos próprios limites.

Como em muitos filmes de Woody Allen, o enredo tem como cenário o círculo intelectual de meia-idade em Nova Iorque. O papel principal esteve a cargo de Gena
Rowlands, que neste drama psicológico encarna a história de Marion Post, professora de Filosofia e escritora de renome que tira um ano de licença sabática para escrever um livro.

Recém-casada, a docente muda-se para uma casa nova e, necessitando de silêncio e espaço interior, aluga um escritório em busca de tranquilidade. Por diversas vezes, adormece no acto de escrita, e é aí que, através do sistema de ventilação, consegue ouvir as sessões de um consultório de um psicólogo vizinho. Inicialmente, Marion foge à tentação de escutar tais sessões e procura formas de tapar o ventilador, mas no dia em que escuta Hope ( jovem grávida) tudo se transforma, e a curiosidade supera-a. Marion começa a questionar todas as certezas que os seus 50 anos de vida lhe permitem ter: uma carreira reconhecida será assim tão importante? Valeu a pena a suposta realização profissional e o que abdicou por ela?

Terei aprendido uma lição? Penso que sim. Uma lição e uma reflexão, e aconselho os leitores depois dos 30 anos a ver este filme. O cuidar mais de cada palavra, de cada gesto, de cada acção; não esquecer de declarar a quem ama, todos os dias, o seu amor; pensar nas consequências dos actos negativos, e ponderar até onde ir. Todos temos um pouco de escritores e, como tal, todos devemos parar em algum momento para olhar a vida de longe, sair de nós próprios e ver quem somos.

Aprender com as críticas, sentir/ser verdadeiramente humanos, assumir a responsabilidade dos nossos erros e falhas, enfrentar as consequências, pois, na realidade, o que levamos da vida são recordações, e o que deixamos depende de cada acto singelo do nosso dia-a-dia.

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