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Brunch With…Florêncio Gaspar Martins

04/11/2016 - 10:56, + Mercado, Life & Arts

Aprecia a quietude de um bom livro. Tanto quanto o ritmo de um bom semba. A história fascina-o, e o direito é a sua paixão.

Por Nilza Rodrigues | Fotografia Gerardo Santos 

“Se não puderes ser uma estrada, sê apenas uma senda. Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela. Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso. Mas sê o melhor no que quer que sejas.” Palavras de Pablo Neruda, o poeta chileno cujo nome seria o de Florêncio Gamaliel Gaspar Martins. Vontade do pai que não foi bem acolhida pelos avós, mas o destino tem destas travessuras, e todos, entre familiares e amigos, hoje o tratam por Pablo ou Pai Pequeno, por ser xará do avô. A descoberta deu-se já tarde, no verso de uma fotografia, tinha o pequeno Florêncio 3 anos, e no qual o pai carinhosamente se denunciou ao escrever “Pablo Neruda Gaspar”. Foi até hoje.

Florêncio, nome do avô, ou Pablo, nome de guerra como nos confidencia, chegou atrasado, mas aprimorado para um brunch refrescante. A gravata orange, o fato bem engomado, o sorriso discreto e a postura de quem estuda Direito e segue o bom caminho… o caminho dos bons princípios.

Recém-chegado de Paris, o jurista ainda imbuído do élanda Cidade-Luz, revela-se um bom conversador. Ninguém diria que o silêncio é uma das suas companhias predilectas: “Não me incomoda estar só. Estou habituado. Uma vela acesa no escuro, um bom livro e o rádio ligado… Dizem que são hábitos de velho”, comenta a sorrir, e entre sorrisos e memórias, boas e más, vai recordado, com alguma emoção, a história da sua vida.

“Vim para Portugal pela mão da minha mãe, que me deixou num colégio interno em Abrantes sob orientação de um português amigo, o senhor Manuel. Os fins-de-semana eram passados no colégio, muito raramente saía, e nas férias grandes, no Natal e na Páscoa é que regressava a Luanda.” Ali, aprendeu tudo. “Para além dos estudos, aprendi a cozinhar, a cultivar – estava na área da agronomia e plantávamos legumes que íamos vender no mercado –, aprendi a fazer a cama, ainda hoje a faço do mesmo modo, a passar a ferro, ou seja, prego, coso e cozinho. Domino toda a área doméstica.”

Uma facilidade nos dias que correm para quem vive sozinho e para quem a perfeição se tornou uma meta, sempre possível: “Tínhamos de estar sempre impecavelmente vestidos, a nossa roupa bem engomada, os nossos lençóis bem puxados, e o vinco tinha de estar sempre no meio”, afirma convicto, reforçando as palavras com um traço que reproduz na toalha branca, revelador de que há coisas de que não nos esquecemos nunca.

Como os tempos passados sozinho, ainda menino e moço. Confessa que muitas vezes telefonou para a mãe e disse que queria voltar, fugir até, mas ela sempre argumentou com a educação. Hoje, quando olha para trás, sabe que o caminho foi o mais acertado: “Fiquei com uma visão completamente diferente do mundo. Percebo que cada pai quer sempre o melhor para o seu filho, as boas escolas, as boas universidades, os bons professores. E, modéstia à parte, sempre fui um aluno dedicado. Certa vez, como estava sozinho num fim-de-semana, decorei um livro inteiro de História, disciplina a que tive 19, e a professora não me deu 20 só para eu não ficar muito vaidoso [risos].”

Porque história, a universal,é uma das suas paixões. Anos da Grande Depressão, da II Guerra Mundial, suscitam-lhe curiosidade, porque tudo, como diz, “é história!”. E é com visível orgulho que fala da sua.

“Pertenço a uma família de políticos nacionalistas angolanos. O meu bisavô, o meu avô, os meus tios, quase todos passaram pelos campos de concentração do Tarrafal. Pai e filho juntos presos a verem a família crescer cá fora, durante 15 anos. Não foi fácil, mas esse espírito nacionalista de lutador anticolonial que vem desde o meu bisavô tem vindo a contagiar gerações.” Florêncio recorda que já esteve na Torre do Tombo, em Portugal, a consultar os ficheiros do seu bisavô, que ainda chegou a conhecer, e do seu xará, o avô, que diz ser um “ senhor com uma personalidade muito forte”.

Regresso ao presente

Depois do colégio em Abrantes, Florêncio decide-se por Lisboa, onde completa o secundário, já instalado em casa de familiares.

Para trás ficava a disciplina, o medo do escuro, a ortodoxia do lar e alguma saudade que Florêncio matou quando regressou, há tempos, já para rever a sua velha escola. Ali encontrou as contínuas já muito velhinhas e os novos alunos, contou-lhes histórias do seu tempo, ouviu outras e deixou escapar a emoção por todos os momentos ali vividos. Se poria o seu filho num colégio interno? “Não, são outros tempos, sinto-me preparado para educar e sei as regras da boa convivência e da boa educação. Aprendi-as na perfeição”, revela.

Na capital portuguesa, abre o convívio e estende o seu leque de amigos. “O meu futuro passa por Angola, aonde irei para dar o meu contributo, mas sempre terei uma ligação forte com Portugal, onde fiz muitas amizades.” É em terras lusas, também, que se afirma politicamente: “Fui um dos implementadores do comité do MPLA em Portugal, onde fui coordenador adjunto da célula de Lisboa de 2005 a 2007.

Fui também um dos fundadores da JMPLA em Lisboa e membro da Associação de Estudantes Angolanos, onde assumi a presidência do conselho fiscal. A política acaba por me interessar no sentido de ajudar o meu País e o meu povo”, confessa. Estudante da Clássica, de Direito, claro!, nem sempre foi essa a vocação de Florêncio: “No 12.º ano estava em Humanidades e primeiro decidi-me por Filosofia, mas senti que não tinha muita saída, muito blá-blá-blá [risos]… e o Direito entrou na minha cabeça para ficar. Hoje não me vejo a fazer outra coisa. Há um lado humanista muito forte e uma percepção do mundo muito alargada na minha área.” Florêncio foi fazendo o curso com algumas interrupções, pois foi abraçando pelo caminho projectos na sua terra natal.

É nestes períodos que vai conhecendo o país real, porque as férias, em criança, eram passadas praticamente na capital. “A experiência profissional que tive no Ministério da Juventude permitiu-me ver um país em franco desenvolvimento, com melhorias das condições de vida, nas estradas, nas infra-estruturas. Viajei bastante e gostei daquilo que vi. Por exemplo, o Bié, quem o viu martirizado e flagelado pela guerra não reconhece a cidade linda, lindíssima, que agora está.”

Por isso, o regresso a Angola está já marcado a partir de Julho de 2017. Depois de terminados os Estudos Avançados em Direito Económico. E leva na mala toda a sua vivência agora à beira dos 40 anos.
O livro Construção de Estados, de Francis Fukuyama, um CD de Mile Davis, porque adora “uma boa corneta” como diz, um bom drama policial ou uma comédia, conforme a disposição, e a vontade de dançar semba, sempre, como bom angolano que é. Porque, como diria Pablo Neruda, “um homem deve viver na sua pátria”.

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