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Brunch With…Irene Domingos

24/04/2017 - 10:31, + Mercado, Brunch with

A experiência em Lisboa e França e a difícil readaptação ao País, além dos seus sonhos, são algumas das notas da nutricionista em discurso directo na centésima edição do Mercado.

Por Líria Jerusa | Fotografia Njoi Fontes 

A convidada do Brunch With… da edição 100 do Mercado é uma mulher sem medo, que não vive sem a nutrição, e sem os seus filhos. Irene Domingos, gestora e nutricionista, revela a sua trajectória profissional e a paixão que tem pelo seu ofício, apesar de ser formada em Gestão Empresarial, pela Universidade Lusófona de Lisboa.

Nasceu em Angola mas foi criada em Portugal até à idade adulta e lá fez todo o seu percurso académico, passando pela escola de Paio Pires e das Cavaquinhas, onde estudou até ao 12.º ano.

“Saí de Angola aos 3 anos e fui viver para Portugal com a minha avó.” Antes de ingressar na universidade, decidiu fazer uma viagem a França, por onde ficou um ano a estudar contabilidade.

De regresso à sua pátria, há sensivelmente seis anos, abriu o seu próprio negócio, revendendo produtos da Coca-Cola. “Somos quatro irmãos e trabalhámos todos juntos na Rayanna, empresa que leva o nome da minha filha”, explica.

Apesar da vasta experiência na área de gestão, Irene Domingos não se sentia completa. E, muito por culpa de um trauma pessoal, ganhou afeição pelos cuidados com a saúde e o corpo, começando a olhar para nutrição como uma nova paixão. “Apaixonei-me por este mundo, fui a Portugal e estive num instituto de saúde, onde aprendi a arte. Depois estive nos Estados Unidos, onde fiz estágios, aquele país tem um índice de obesidade muito grande.”

Dois dias após regressar de Lisboa, a nutricionista começou a a trabalhar na sua nova área. Estabeleceu parcerias com o Celeiro de Luanda, um espaço que oferece uma variedade de suplementos alimentares 100% naturais, e com a Clínica do Corpo, com os quais trabalha actualmente.

A mudança de ramo foi um grande desafio para si, pois na altura em que entrou para o mercado não havia muita gente a trabalhar nesta área. Realça ainda que o seu maior objectivo é que as pessoas deixem de tomar medicação e passem mais de si através da alimentação. Outro grande desafio da nutricionista é fazer com que os pacientes deixem de beber bebidas gaseificadas e com excesso de açúcar, para além do consumo constante do funge.

“Tenho uma parceria com uma jovem que possui uma fazenda e vende de frutas da terra e legumes. Ambiciono, neste momento, fazer com que os angolanos consumam o que é da terra.”

Adolescência

Falando um pouco da sua infância e adolescência, Irene descreve–nos como uma fase complicada, tendo em conta ter saído da sua terra muito cedo (com apenas 3 anos) e partido para Portugal, tendo começado a trabalhar também muito cedo.

“Os irmãos da minha mãe eram pessoas um pouco revoltadas, então desde pequenina tinha de ajudar a minha avó. Às vezes ficava com sono e era difícil”, lembra.

Uma das suas maiores aventuras, diz, foi ter ido a França sozinha e por iniciativa própria.

“Sempre fui uma menina muito mimada e muito protegida e achava que tinha de crescer, e a minha zona de conforto não era o lugar certo. Então decidi estudar em França. Não conhecia nada, não sabia nada, tinha apenas um casal de amigos, com 23 anos ”, explica.

Sobre o seu maior desafio, a nossa convidada nota não querer ser mais uma nutricionista, pretendendo ser a nutricionista.

No que toca aos sonhos, Irene assevera que montar o seu próprio consultório faz parte das suas aspirações.

“Sempre tive parcerias, sempre estive com medo de como haveria de ser caso andasse sozinha. Mas agora já é hora, já tenho uma boa carteira de clientes e já posso arriscar”, declara.

Dificuldades e ganhos

Em relação ao seu regresso à pátria, Irene descreve como a fase mais difícil que passou, pois na altura havia perdido o pai e, no ano seguinte, a mãe. “Regressámos de forma obrigatória. Não tínhamos saída. Era voltar ou perder tudo o que tínhamos em termos de empreendimentos. Na altura, estava grávida de quatro meses, e foi um choque ter perdido a mãe e logo a seguir receber chamada para vir para Angola”, recorda.

Já em território nacional, a nutricionista trabalhou para a Total durante seis meses como tradutora da língua francesa, e ainda na Multipessoal como recepcionista, e prestando ainda apoio à área financeira.

Irene Domingos explica igualmente que outro grande desafio que marcou o seu regresso ao País foi, estando grávida, enfrentar todas as dificuldades a nível de saneamento básico que caracterizavam a cidade de Luanda na época.

“Quando cheguei, o meu filho ficou logo internado, pois tinham recebido uma medicação errada. Esteve internado num lugar com mais seis petizes, e a falta de água e de luz era sina da cidade.”

Considera-se uma mulher vaidosa e feminista. No que concerne à sua filosofia, Irene Domingos diz lutar pela vida e nunca desistir dos seus objectivos: “Os obstáculos hão-de existir sempre, mas não posso desistir. Para mim, o céu é o limite.”

Apesar de todos os embates, de ter perdido a mãe e o pai, e ainda ter sofrido abusos sexuais, a nutricionista afirma que nada a fará desistir.
“Os meus filhos são a minha motivação, tenho a minha filha a estudar nos Estados Unidos, e ela diz que sonha ser doutora. Por ela, não vou desistir e serei a sua referência. Não posso baixar os braços”, garante.

“No ramo da nutrição, não tenho encontrado grandes problemas, os pacientes têm apresentado alguma resistência no princípio, mas depois deixam-se levar”, disse.

“Confessou ainda que tem mais facilidade em trabalhar com homens do que com mulheres, porque ainda se verificam muitas disputas, há pouca união e cooperação”, remata.

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