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Brunch With…Cátea Ferraz

07/02/2018 - 13:51, Brunch with, featured

Uma marketeer inata. Uma mãe exímia. Uma mulher que se inspira e inspira quem a conhece. E quem a conhece sabe que o Rei Leão a marcou. “A jornada dos mil quilómetros começa com o primeiro passo. Hakuna Matata.” O reconfortante e estimulante bem-haja de Cátea Ferraz.

Por Nilza Rodrigues

Conta a história da sua vida como se de um conto se tratasse. Com gestos. Com sorrisos. Com um olhar perdido no tempo e até, imagine-se, com os diálogos bem estruturados . Tem graça e nota-se. Nota-se que é uma mulher de bem com a vida. Chegou decidida.

“Não sei se a minha história interessa. Já li tantas e tão boas…” Interessa, pois. A história de uma mulher que, em determinado momento da sua vida, abdicou da carreira pelos seus três filhos. Kiara, Isis e Jorge. E aqui revela-se. Fraqueja, pára e emociona-se. Esta é Cátea Ferraz, a mulher que convidámos para tomar um brunch, e descobrimos que, afinal, do que nunca abdicou foi de ser uma mãe exímia. E que, para isso, também há que ter coragem.

Como coragem é precisa para se iniciar uma conversa com “neste ano fiz o tal ‘quatro ponto zero’”. A ternura dos 40 que para muitos é tão difícil de assumir foi o ponto de partida para a conhecermos. “Nasci em Luanda, numa família não muito abastada, e sou filha de mãe solteira. De alguém que arriscou, naquele tempo, com muito amor e carinho. Deixou de estudar para criar cinco filhos.

Foi mãe e foi pai, e acho que fui buscar essa minha força a ela. Tinha uma máxima: eu posso deixar de vestir e de comer, mas os meus filhos vão estudar.” Frequentou, assim, colégios reputados, por decisão da mãe. A mesma que lhe conseguiu uma bolsa no estrangeiro através do Ministério dos Petróleos. “E aqui começa a minha jornada longe da mamã”, confessa, revelando também que se decidiu por Portugal ao invés da Big Apple. E porquê? Um olhar maroto para dizer que o seu futuro marido já estava a viver em Portugal e, “embora ainda não houvesse um namoro assumido, já havia qualquer coisinha no ar. Éramos irmãos espirituais”. Sem família em terras lusas, Cátea viu-se num mundo novo, onde tudo era diferente, tudo era novidade. Tinha uns charmosos e irrequietos 17 anos. Frequentou o 12.º ano e ingressou no ISCSP, no curso de Ciência Política, mas… “Não era a minha vocação. Eu sabia. Precisava de manter a bolsa, e por isso não virei costas!”

Mas, afinal, que quimera bailava na cabeça da jovem? “Queria formar-me em Direito, queria trabalhar nas leis, sentia muita injustiça, muita coisa para mudar em África, sempre fui muito de causas. Queria mudar o mundo, gritar…!” E gritou. Para dentro de si. “Não é isso, Cátea, que tu queres. Estás a formar-te, mas não é o teu sonho.” Lá está… o diálogo consigo mesma, connosco, em voz alta para o mundo ouvir. Entretanto, uma boa nova. A primeira de três, aliás. Nasce a Kiara. E segue-se o casamento, numas férias fugazes em Luanda, sempre muito prática, sempre muito decidida.

Quando a primogénita completa o quinto aniversário, regressa então a Luanda e inicia nova jornada laboral. O primeiro emprego como assistente comercial na Shop Tv, que recorda com orgulho: “Fui pioneira nesse projecto. Fazia vendas e recrutamento. Tive formação adicional, mas o meu perfil também me ajudou a desempenhar bem esse papel.” Estamos em 2006, e nasce a Isis, “numa altura em que já não estou muito satisfeita com o meu país… com a educação, a saúde e o acesso aos bens essenciais”. Queria mais. Mais para si e sobretudo mais para a sua família. Explicou ao marido. A sua alma gémea.

O seu porto seguro. “Sabes que mais? Quero crescer. E quero que a Isis tenha a infância da irmã. Vamos regressar a Lisboa.” E ruma para a capital portuguesa para se formar em Marketing no IPAM, onde acaba por ter uma experiência inesquecível: “Tornei-me uma espécie de chefe de turma, de uma turma cheia de putos barulhentos acabados de sair do secundário. Na altura era a única negra, angolana, na sala, e acabei por conquistar colegas e professores com a minha atitude proactiva. Foi um momento muito giro da minha vida. Muito giro mesmo.” Findos os quatros anos, uma novidade. Boa, mas inesperada. Uma nova gravidez. “Não pensava voltar a ser mãe. Tinha a ambição de voltar ao activo. Estava inscrita já no mestrado e, de repente, veio o meu príncipe, e volto a interromper os estudos.” Family comes first. Cátea explica. “Sempre me imaginei uma marketeerde sucesso. Sou muito empreendedora, mas a minha grande questão é conciliar a responsabilidade familiar com a profissional. Temos de fazer concessões. Fui gerindo. Criei os meus próprios projectos e ao mesmo tempo os filhos.” Desenha, então, a churrasqueira Cila Grill no Kilamba – Cila, diminutivo de Cecília, é como lhe chamam carinhosamente os sobrinhos –, e com esse projecto tentou novamente viver em Luanda. “Matriculei os filhos e comecei a trabalhar no Pólo de Cabo Ledo, um projecto turístico que me apaixonou e, ao mesmo tempo, geria o Cila Grill, que já era um sucesso: tinha um atendimento personalizado e um tempero fantástico!” Mas sol de pouca dura. O benjamim Jorge adoece. Regressa para Lisboa, numa noite memorável, de mochila às costas e movida pelo instinto maternal. O marido foi no voo da manhã com a Isis e a Kiara, uma de cada lado. Decide ficar, embora o marido tenha de regressar, sempre com grande mobilidade, a mesma que lhe permitiu estar 24 horas em Lisboa só para não falhar o 40.º aniversário de Cátea. Pequenos gestos que explicam a essência do seu casamento. “Nós construímos o nosso amor.

Somos muito amigos. Somos cúmplices. E o segredo é ouvirmo-nos muito”, confessa. O Cila Grill acaba por fechar portas, sem uma gestão directa, não havia como continuar, e Cátea apercebe-se de uma outra lacuna em Luanda: a educação. E inicia um projecto de creche-infantário ao mesmo tempo que começa a ter um backem Portugal para cuidar dos filhos na sua ausência. “Mas quando tinha tudo montado para abrir o espaço, eis que a minha governanta diz que não está mais disponível, e eu volto a deixar tudo para trás.” A família volta a estar em primeiro. E estará sempre. Mas é persistente. Abre uma pet shopem Lisboa, a Barbearia do Amigo, e está pronta para reactivar os outros negócios em Luanda, contrariando a opinião das amigas, que brincam: “Cátea, se o Jorge espirrar, tu sais logo das reuniões para ir acudi-lo.” Cátea sorri também. Tem as suas certezas. A Kiara vai estudar para o estrangeiro para o ano.

A Isis pode vir a ser veterinária. E o Jorge, o menino da mamã, entrou agora para o ensino primário. “E eu, Cátea, vou para Luanda porque acredito no meu País!” Está decidido. Entre um bom livro de biografia que adora, um ginásio de que não abdica e um projecto de vida em comum com o homem que tem a seu lado.

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