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Brunch With…Tânia Oliveira

10/07/2017 - 09:54, + Mercado, Brunch with

Passou boa parte da vida em Portugal, onde foi manequim. De volta a Angola, a adaptação foi “difícil”, o que não a impediu de lançar a Luboia e a Noivíssima. E tem mais ideias em carteira.

Por Vânia Andrade | Fotografia Carlos Muyenga 

Tânia Oliveira é mais um (bom) exemplo de uma angolana empreendedora. Ambiciosa e ousada, a antiga directora-geral da Luboia – marca de joalharia angolana que ajudou a criar, em 2007 – desenvolveu a solo o projecto Noivíssima, há sete anos.

Nasceu na província de Luanda há 37 anos e, desde que fez o seu primeiro trabalho como manequim, em Portugal, nunca mais parou. Foi na cidade do Porto que Tânia Oliveira cresceu, depois de ter emigrado com a mãe e os quatro irmãos.

Naquela altura, no início dos anos de 1980, Angola atravessava um mau bocado. Os sistemas de educação e de saúde eram pouco satisfatórios, e emigrar para Portugal foi a solução que os pais de Tânia encontraram para oferecer formação qualificada e bem-estar aos filhos – principalmente a ela, que era asmática.

Longe do pai – que continuou em Luanda a trabalhar para garantir o sustento da família –, Tânia e os irmãos cresceram debaixo das ‘asas’ da mãe, uma “mulher guerreira”, conta a filha.

Após completar os primeiros níveis de escolaridade, nomeadamente, o ensino de base e o secundário – equivalente ao médio em Angola –, chegou o momento de escolher o rumo a seguir.

Inscreveu-se no Instituto Superior de Línguas e Administração (ISLA), em Vila Nova de Gaia, no curso de Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho. “Estava indecisa entre os cursos de Psicologia e de Educadora de Infância, mas acabei por optar por Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho, e não me arrependo”, lembra.

A escolha deste curso foi motivada pelo facto de abranger todas as áreas dentro de uma organização, o que a estimulava. Entretanto, enquanto estudante universitária, trabalhava como manequim, ‘aliviando’ a família de um encargo financeiro.

“Com o dinheiro que ganhava como manequim e com a organização de showrooms, custeei a minha formação superior”, explica.

Terminou o curso, e a agência de modelos onde trabalhava convidou-a a mudar para a área comercial. O desafio foi aceite, e Tânia Oliveira passou a lidar com clientes que representavam marcas internacionais.

Mais tarde, com o marido, teve a primeira experiência empresarial, abrindo uma escola de manequins, um projecto que durou pouco tempo, devido ao seu regresso à terra natal, em 2007.

Surpreendida com desafio em Angola Veio a Angola com o marido, com a intenção de apresentá-lo à família. Mas a viagem acabou por ficar marcada por eventos inesperados e, pela primeira vez, após muitos anos, surgiu a possibilidade de regressar a Luanda. “Fui surpreendida ao receber uma proposta vinda de um dos sócios da marca Luboia Angola Diamonds, para gerir o projecto”, recorda.

Apesar de nunca ter trabalhado na área da joalharia, aceitou o convite e abraçou o projecto. “Na Luboia, geria a empresa e fazia de tudo um pouco, desde a área de recursos humanos à financeira”, afirma.
Teve a oportunidade de receber acções de formação em Hong Kong e na Índia sobre como avaliar os diamantes, e foi responsável pela abertura de cinco lojas da marca.

A empresa foi crescendo e, a dada altura, foi necessário criar departamentos. Tânia Oliveira ficou com os recursos humanos e contratou um financeiro, uma comercial e uma gerente.

A Luboia ganhou o mercado, e Tânia Oliveira sentiu a necessidade de avançar com um projecto próprio. Por vir do mundo da moda, foi nessa área em que pensou. Ainda a trabalhar para a empresa, desenvolveu o projecto da Noivíssima, loja de confecção e venda de vestidos de noiva.

“Sentia que havia uma lacuna nesta área e que as noivas em Angola tinham a necessidade de se deslocar para o exterior para ter um vestido com qualidade. Quis quebrar este estigma de que só o que vem do exterior é que é bom”, recorda.
Tânia Oliveira admite que foi “difícil” a adaptação a Angola, sobretudo por causa da diferença nas mentalidades e na atitude perante o trabalho, face a Portugal. “Lidar com os recursos humanos cá é uma tarefa difícil. A minha maior dificuldade foi deparar-me com as contingências do mercado e da sociedade angolana”, recorda, destacando que tem gosto em participar nas fases iniciais de projectos, saindo da sua ‘zona de conforto’.

“Devemos diversificar as nossas áreas de trabalho, para nos descobrirmos a cada momento”, afirmou.
Novo projecto a caminho

Durante algum tempo, conciliou a gestão da Luboia com a da Noivíssima, mas, como a empresa de joalharia ganhou ‘pernas para andar’ – em cinco anos abriu cinco lojas –, Tânia Oliveira ganhou espaço de manobra para se dedicar ao seu projecto pessoal.

Acabou por sair da Luboia e, entretanto, já tem em carteira um novo projecto na área da estética de saúde.

A responsável acredita que os jovens empreendedores angolanos são “dinâmicos”, mas defende que lhes falta ganhar consciência das suas próprias capacidades. “Acho que há vontade de fazer, mas não se sabe como. As pessoas têm de ‘personalizar–se’ antes de avançarem com os projectos”, afirma.

Por outro lado, há também pessoas com poder financeiro que investem em projectos, aos quais, depois, não dão continuidade.

“Com budgets disponíveis, qualquer pessoa desenvolve um projecto. Mas o mais difícil é manter e solidificar as marcas”, diz.

Em relação ao empreendedorismo feminino em Angola, Tânia Oliveira diz que ser mulher e empresária no País “não é uma tarefa fácil”, porque o País ainda tem uma sociedade machista.

“Nós, mulheres, temos de nos esforçar a dobrar para nos posicionarmos como profissionais. Mas somos fortes, batalhadoras e somos capazes de o fazer”, declara, adiantando que o facto de haver várias mulheres a ocuparem cargos de destaque, nomeadamente, na política e no mundo empresarial, mostra que as coisas estão mais “atenuadas”.

Internacionalizar a Noivíssima é um dos objectivos de Tânia Oliveira, para quem as marcas nacionais devem ter a mesma ambição. “Nós, angolanos, já fazemos bons trabalhos e prestamos um bom serviço, mas a questão é que na maior parte das vezes utilizamos matéria-prima importada . Acho que era bom que se desenvolvesse a indústria têxtil, para dar resposta a toda a área de vestuário que existe localmente”, defende.
Agradecimentos: Restaurante Alma (Talatona)

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