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Brunch With… Rui Silva

08/11/2017 - 14:31, Brunch with

Há treze anos desembarcou no País com uma proposta de emprego irrecusável na mala e nunca mais saiu. Ao longo dos anos empreendeu com sucesso, teve perdas e reinventou-se. O que não perdeu foi o entusiasmo, a alegria e a confiança.

A personalidade de Rui Silva, um empreendedor que reencontrou em Angola a sua essência africana, bem pode dever-se ao facto de ter nascido no Maláui e vivida parte da infância em Moçambique, terra natal da mãe. Mas o conflito que assolou o País (1977-1992) fez com que os seus pais emigrassem com a família para Portugal. Logo, a vida estável, até então, tinha acabado e começava uma nova realidade para ele, enquanto os seus pais enfrentavam as dificuldades de criar quatro filhos da estaca zero.

“As dificuldades tiveram um impacto positivo na minha vida e na dos meus irmãos, transformaram-nos em pessoas guerreiras; que não viram a cara à luta, que mesmo em momentos difíceis acham que tudo se pode fazer”, comenta.

Os anos em terras lusas foram suavizados pelo meio onde estava integrado, na zona de Almada. Era um ambiente africano, com os seus valores de solidariedade, fraternidade e muita alegria. “Estávamos sempre com africanos, por isso éramos diferentes, mais alegres. Tínhamos o hábito de, ao fim de semana, comer funje, o hábito das sentadas. Eu e os meus irmãos nunca fomos vistos como portugueses, juntávamos à mesa 20 e 30 pessoas”, lembra.

O ponto de viragem

A conclusão da licenciatura em Economia, no entanto, foi um ponto de viragem na vida de Rui Silva. Nada iria ser o mesmo, a partir desta conquista. “Quando acabei a universidade, fui indicado para ser o director financeiro da Peugeot Portugal, aos 22 anos. Tinha um bom salário e nesta posição podia ajudar muita gente”, diz. Conta ainda que o seu nome começou a circular entre os gestores em Portugal, sendo inclusive convidado para ser professor universitário. Tinha na altura 24 anos. Era o professor universitário mais jovem e liderava mais de 2000 pessoas.

“Viam em mim um talento invulgar na gestão, então era chamado para dar parecer às grandes empresas, criar novas ideias, e isto dava-me uma enorme visibilidade”, afirma. A relação com Angola acontece como consequência dessa exposição. Foi quando surgiu uma proposta de trabalho irrecusável: Um grupo de empresários precisava dele para redesenhar o funcionamento de uma fábrica, em 2005. Embora hesitante no início, uma viagem de reconhecimento fê-lo mudar imediatamente de ideias. Aceitou o desafio. Tinha na altura 27 anos e um bom salário, mas, poucos anos depois, percebeu que podia fazer algo que lhe desse mais satisfação, por isso decidiu fundar a marca RBS.

Até 2015, a marca detinha a maior rede de lojas de pronto-a-vestir do País. Estava a prosperar, sendo até à data um negócio em ascensão. O pico da facturação só foi contrariado pela crise da escassez dos dólares, situação que o obrigou a despedir grande parte dos 150 trabalhadores e a reduzir para três as onze lojas que tinha.
“Em 2015 geria um negócio que facturava 10 milhões USD. A partir daí começámos a não conseguir trazer mercadoria, já não estava a ser sustentável. Reduzimos pessoal e fechámos a maior parte das lojas. Depois estudámos a possibilidade de diversificar”, recorda com pesar.

Mas, rapidamente, o jovem empreendedor encontra a solução para dar a volta à situação. Nas três lojas que mantêm abertas, está a produzir e a vender a sua própria marca.

Uma janela de oportunidades

O novo cenário macroeconómico levou Rui Silva a olhar para outras oportunidades de negócio. Seleccionou os melhores colaboradores com quem trabalhava há 12 anos e lançou-se para um novo negócio. Decidiu fabricar móveis e artigos de decoração para interior e exterior, com madeira nacional, adquirida nos mercados.

A equipa era inicialmente formada pelos técnicos de manutenção da RBS. Foi assim que surge igualmente o restaurante-bar Club S, uma aposta na restauração que absorveu o mobiliário que começava a produzir. Abrem-se assim outras oportunidades de negócio e pode voltar a contratar os colaboradores antigos. “Agora que o Club S está montado, é preciso dar rumo a estes funcionários, por isso estou de olho numa fábrica de madeira que, por meio de uma parceria ou aquisição, eu possa vir a incorporar a equipa que fabricou o mobiliário do Club S”, revela. Nada vem ao acaso, Rui Silva garante que a aposta resulta do facto de não ter gasto tudo o que ganhou nos anos de apogeu da RBS, a poupança foi o seu grande trunfo.

“Todo o investimento que está aqui provém de recursos próprios, poupança que fizemos ao longo dos anos, é uma das bases do sucesso, nos momento difíceis tive onde recorrer e me reinventei”, assegura. Perguntámos ao nosso convidado o que motivou este investimento na restauração, a resposta foi simples: “As oportunidades surgem, vieram mostrar-me o espaço, que era um barracão vazio, sem nada, e foi preciso ter visão do que se consegue fazer em equipa”, comenta.

Ele acredita que este espaço veio preencher uma lacuna que havia na oferta em restauração, dentro daquilo que define como lifestyle, e que encorpa uma coisa diferente, com estilo, praia e um foco grande no design, onde se pode comer bem, conversar e levar crianças.

E quanto ao futuro?

Rui Silva vê com optimismo e acredita que o Governo recém-formado possa realizar as mudanças necessárias para melhorar o ambiente de negócios no País. Mas está preocupado com a nova geração de empresários.

“Vejo os jovens empresários com muita preocupação, porque estão a herdar uma era de muito facilitismo, dos esquemas e da corrupção. Vemos poucos jovens com dinamismo e capacidade para criar coisas novas do zero.”

Por este motivo, acha ser papel dos governantes sensibilizar os jovens para a importância de se levar uma vida empresarial consistente, durante anos. Apesar do corre-corre que é a sua vida, ainda assim, Rui Silva arranja tempo para acompanhar o seu filho, de 8 anos. Depois de 13 anos de vivência em Luanda, hoje confessa que se sente mais angolano e que em Portugal já se sente um estrangeiro.

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