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Charles Mingus: Vociferar para vencer o destino de perdedor

01/11/2016 - 10:34, + Mercado, Life & Arts

Nem preto, nem branco, nem amarelo. Cresceu num guetto, e sair dali era quase tão difícil como chegar à Lua. Não para Charles Mingus. O homem que nasceu “nem preto, nem branco, nem amarelo” tocava contrabaixo com a arte da simplicidade.

Por Fernanda Mira

Um visionário, baixista de jazz, compositor e pianista. Esta é a classificação clássica para Charles Mingus, o músico que estabeleceu as bases para o nascimento do movimento jazzmoderno, partindo do beboppara alterar e traçar o curso do jazz avant-garde. Mas, para o próprio, tudo isto eram classificações técnicas. Ele gostava de resumir a sua música a pouco mais do que uma frase: “Transformar o simples em complicado é fácil, tornar o complicado em simples é criatividade.”

Mas esta simplicidade dos termos não deixa de ser aparente e não nos deve impedir de registar que Mingus é considerado um dos baixistas mais importantes e uma das mais fortes personalidades na história do jazz, sendo ao mesmo tempo um dos músicos e compositores mais representativos da música norte-americana do século XX. Do seu legado estão contabilizadas as gravações de quase uma centena de álbuns e a composição de cerca de trezentas canções. Aqui se inscrevem os títulos Blues and Roots(1960), Reincarnation of a Lovebird(1960), Mingus Mingus Mingus Mingus Mingus (1963) ou Cumbia and Jazz Fusion(1976). Mingus era um músico atormentado, sem complexos, e a música exprimia, de forma bem clara, o seu extremo virtuosismo e musicalidade extraordinária.

Uma vez mais, recorremos às suas palavras para explicar esta análise: “A minha técnica que dizem virtuosa é o resultado de um treino duro, mas o talento para a composição, esse, veio de Deus.”

Charles Mingus foi um homem que desafiou o destino que lhe estava traçado. Nascido em 1922, cresceu em Los Angeles, no bairro pobre de Watts. Perante a marginalidade que o rodeava, encontrou na música o seu refúgio e começou a aprender a tocar violoncelo, que, mais tarde, viria a abandonar para se dedicar ao contrabaixo. A sua estrutura musical cresceu no ambiente do jazze acompanhou os tempos. Começou a tocar jazz tradicional com as bandas de L. Armstrong e Kid Ory, aderiu à revolução do bebopnos anos cinquenta ao lado de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, e fez evoluir o seu som para o jazzexperimental nas décadas de 1960 e 1970.

Além de tudo isto, apesar de não ser pouco, Mingus representa, ainda, a consciência do homem negro na sociedade e cultura norte-americana. E, uma vez mais, citemos Mingus para explicar Mingus: “Sou Charles Mingus. Mulato. Amarelo. Meio-amarelo. Nem sequer amarelo. Não sou suficientemente branco e passo por negro, mas claro o suficiente para me chamarem branco. Declaro-me preto, mas sou Charles Mingus: não tenho cor.”

O seu carácter é uma lenda quase tão forte quanto a sua música. Às vezes com raiva, às vezes esquizofrénico, ganhou a reputação de atormentado, violento e tirânico com os seus músicos, cuja enorme figura física lhe conferia ainda mais o perfil de agressivo. No meio do jazz,teve várias alcunhas, em que ‘Touro’ era a mais “simpática”. Para não deixar dúvidas sobre quem é, em 1972, escreveu uma autobiografia (Beneath the Underdog), que ajuda a compreender a intensidade com que viveu e tocou. Um tipo raro de esclerose que atrofia os músculos deixou-o paralisado em 1977. A doença derrotou-o em 1979. As suas cinzas foram deitadas no rio Ganges, na Índia.

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