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“Curador? Nunca mais!”

31/01/2018 - 09:57, + Mercado, Life & Arts

João Ana foi o co-curador e produtor do FG em 2017. De 1 a 6 de Fevereiro, regressa para a 4.ª edição como artista e produtor, jamais como curador.

Apesar de admitir que foi um desafio fazer acontecer e ser capaz de suportar e guiar toda a gente: “Curadoria, nunca mais! Não gosto de gritar e de repetir sempre as mesmas coisas. As pessoas têm de ser mais sérias e pensar menos no resultado para fora, público, imprensa, amigos, família, os críticos…”

Para João Ana, curar no FG foi uma experiência extenuante, física e psicologicamente, mas também enriquecedora, pela partilha e postura dos artistas. O evento está de volta, de 1 a 6 de Fevereiro, com promessas renovadas. Aqui ficam as impressões da 3.ª edição, que causou tudo menos indiferença.

Kiluanji Kia Henda e Colectivo Verkron: “Foi bom trazer a arte de rua, urbana para o Globo. O trabalho agradou, talvez pela raiz e natureza de vandalização, e essa coisa bonita que foi trazer o graffiti para um espaço fechado de um quarto. São artistas também têm direito, vandalizem então o quarto.”

Kiluanji Kia Henda: “Deu corpo a um desafio que chegou fora de horas, não estava no plano. Lembrou-se da ideia do santuário. Gostei, e posteriormente teve a ideia do lado teatral da coisa, e daí a participação do Orlando Sérgio.” João Ana e LP: “Infelizmente, ninguém percebeu, chamaram o quarto do fumo ou a discoteca. As pessoas não se abstraem, e a coisa tem de estar à vista, ser literal… Ninguém veio perguntar-me o que era aquilo, mas não me sinto mal por isso, acho que é infeliz, sobretudo se são pessoas do meio artístico. Não tinham de compreender, mas ao menos questionassem alguém.”

Edson Chagas: “Um dia já no quarto, ele disse: Vou encher isto de papelão. Eu achei a ideia espectacular, remete para uma série de ideias de consumismo, poluição, capitalismo, produção em massa… A arte, mais uma vez, é livre, era um discurso muito mais aberto e deixava às pessoas a possibilidade de interpretar.”

Thó Simões: “Trouxe a ideia do universo em desencanto e o plano do rei sob a influência da obra do Tim Maia. Trouxe os seus materiais e, em conversa com o Kiluanji Kia Henda, chegaram ao nome Congolândia. A partir daí, começou, queria ter pelo menos metade da parede pintada, o resto foi performance. Fiquei pasmado com a reacção das pessoas e por ter sido um dos quartos mais consensuais.”

Toy Boy: “Tinha um vídeo de 12 minutos dele próprio a recolher chinelos na praia. Perguntei se ele tinha os chinelos, disse-me que tinha três caixas, e pensámos numa instalação. Depois também tinha fotografias de mais 200 portas da Gabela, adorei… ecidimos projectá-las em fundo preto.”

Daniela Vieitas e Muamby Wassaky: “Problematizou o meio profissional dela como artista, o valor que se dá à arte e que se tira ao mesmo tempo. O lado mercantilista, snob, pretensioso e aquele lado muito bonito do museu, associado à critica.”

João Ana ex-curador, produtor sempre.

Nunca se considerou artista e, sem ter de provar nada a ninguém, produz, toca, compõe, escreve para si mesmo… Sofia Rosa quando DJ, Santa Ana nas performances e música a solo, e João Ana no FG, diferentes pseudónimos que são partes da mesma pessoa que em 2003 encontrou a sua arte na introspecção. “Produzo as minhas coisas para ninguém.” Talvez por isso dispense o rótulo de artista ou, pelo menos, não quer ser visto como tal se as pessoas não atribuírem valor ao que produz. “O rótulo sem a substância, para mim, não faz sentido.”

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