Mercado

“A crise lança-nos para os patamares da 4.ª Revolução Industrial”

30/12/2015 - 11:55, Entrevistas

O economista António Cruz Lima acredita que o País vai promover o crescimento e o desenvolvimento económico sem a bruta dependência do petróleo e destaca, em entrevista exclusiva ao Mercado, o papel do Estado e do sector privado numa dinâmica partilhada para esse fim.   No quadro da efeméride do 40.º aniversário da independência nacional […]

O economista António Cruz Lima acredita que o País vai promover o crescimento e o desenvolvimento económico sem a bruta dependência do petróleo e destaca, em entrevista exclusiva ao Mercado, o papel do Estado e do sector privado numa dinâmica partilhada para esse fim.

 

No quadro da efeméride do 40.º aniversário da independência nacional não se pode deixar de questionar onde estava no dia 11 de Novembro de 1975.

Interessante. Estava no Bairro Popular, hoje Neves Bendinha, e passámos a tarde em casa do meu tio António Silvestre, pois a minha mãe saiu todo o dia, e como crianças não questionamos. Ela andava sempre em actividades da OMA, com uma comadre sua, a tia Maria José Gama, e outras senhoras. Sei que ouvíamos muitos rebentamentos durante a semana toda, ou a anterior, mas depois o que mais recordo são muitos tiros à noite em todas as ruas, pelo que os adultos levaram- -nos para outra casa. Lembro-me de que estávamos de férias escolares, quando tinha passado para a 4.ª classe, e não esqueço que pelas ruas muita gente, de arma em punho, algumas armas rudimentares, fazia disparos para o ar. Independência, Dipanda eram os gritos no meio dos disparos. Como não existia TPA e nós não tínhamos televisor, só vi as imagens mais tarde. Quando começaram as aulas, e numa actividade da OPA, vi as fotos a preto e branco.

Ao longo desses 40 anos, o que destacaria como mais importante no nosso País?

Tirando a independência, claro. Penso, como profissional, que o mais importante que fizemos para garantir e assegurar essa mesma independência foi a criação da moeda nacional, a 11 de Novembro de 1976. A troca da moeda que se seguiu a partir de 8 de Janeiro de 1977 foi uma celebração. Ia completar 11 anos de idade e ajudei muitos adultos a contar o dinheiro. Parece- -me que eram 20 000 Kz que se podia trocar, mas as pessoas temiam perder o resto. No entanto, essa decisão soberana de emissão de moeda permitiu substituir o sistema financeiro colonial e assegurar as bases para o controlo da economia, na época centralizada e rumo ao socialismo, sendo uma grande conquista do povo, conduzido pelo MPLA, não esqueçamos, para mediante o orçamento, o crédito, os preços e a moeda, criar as condições de centralização das decisões referentes ao investimento, aos juros, câmbios e salários. Isto vim a descobrir muito mais tarde como pesquisador. Hoje, muitos países africanos independentes, entre 13 e 15 países, ainda não têm moeda própria, e a que usam continua a ser influenciada e gerida a partir da Europa, Paris em particular.

Refere-se ao franco CFA, naturalmente, mas existem países que compartilham a mesma moeda, como o euro. Vê alguma desvantagem nisso?

Algumas, como a dependência monetária e política. Da mesma forma vejo vantagens, como a convertibilidade e a gestão comum de reservas. Seja como for, o processo de implementação do euro levou quase 50 anos de discussão, debate e preparação prévia da Comunidade Económica Europeia e depois da União Europeia. A moeda não antecedeu a integração. Esses países estavam em período pós-conflito e tinham alcançado a paz. Os Estados Unidos da América ajudaram massivamente na reconstrução da Europa. África, e Angola em particular, não tiveram nada disso. A independência de Angola, como vimos nas reportagens, celebrou-se ao troar de canhões a 80 km de distância. Estávamos a ser invadidos por forças estrangeiras a norte e a sul que queriam chegar a Luanda e impedir o acto. O Presidente Agostinho Neto teve de recorrer a ajuda dos internacionalistas cubanos para a defesa da integridade territorial. Quando implantámos a nossa moeda, o País continuava a ser invadido do exterior e forças reaccionárias e racistas financiavam uma guerrilha interna de destruição premeditada de estruturas fabris, pontes e sistemas de distribuição de energia e água. A maior parte das pessoas com experiência em gestão de banca e finanças tinham fugido do País levando tudo, ou destruindo o que não podiam levar. Nesse ambiente difícil, enquanto o MPLA pensava em construir a nação, os outros se dedicavam a destruir, ainda tínhamos de suportar e hospedar os companheiros da Namíbia e da África de Sul, onde estava a continuação da nossa luta. Lançar uma nova moeda e economia centralizada nessas condições não era fácil e foi deliberadamente dificultado pelos opositores. Salvou- -nos, em grande medida, a visão do MPLA e do seu Governo em mandar formar quadros no exterior, nos países do Leste Europeu e em Cuba.

Da sua experiência em diplomacia económica e investigação académica, quais as contribuições que pode dar, para o País superar a situação que atravessa com a baixa de preços no mercado petrolífero?

Trago uma mensagem de paz, alegria e alívio por tal ter acontecido, porque nos ajudará a libertar de uma indústria antiga e dispendiosa da 2.ª Revolução Industrial e nos lançará para os patamares da 4.ª Revolução Industrial da humanidade. Ajudará a repensarmos o tamanho do Estado e do gasto público, reorientará empregos, bem como o povoamento do território, com o surgimento de novas cidades temáticas e, com isso, seremos mais eficientes energeticamente, pelo que cresceremos mais e equilibradamente.

Considera, então, a queda do preço do petróleo um marco positivo?

Sim, absolutamente. Como se deve recordar, a 1.ª Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra, detentora de enormes recursos naturais explorados das imensas colónias que detinha por meados do séc. XVIII e séc. XIX. O surgimento da máquina a vapor alterou os procedimentos da produção manufactureira e rural, contribuindo para o surgimento das grandes cidades por força da migração desde o campo. Com mais ou menos divergência nas datas, os historiadores concordam que a 2.ª Revolução Industrial ocorreu entre 1850 e o final da 2.ª Guerra Mundial, em 1945. Significou, afinal, um aperfeiçoamento da primeira e não uma grande revolução, pois foi mais uma substituição de combustíveis e de materiais. Surge na época o petróleo como o maior avanço da indústria química industrial, bem como a electricidade e o aço. Daí o surgimento do motor a combustão, bem aproveitado pelas ideias de locomoção de Daimler e industrializado no que foi conhecido como o fordismo.

Refere-se à indústria automóvel?

Exactamente, da qual muito gostamos. Mas é muito poluente, veja os escândalos da Volkswagen que nos vão atingir no futuro, tal como é muito individualista e pouco útil para a humanidade em termos de custo-benefício. Um veículo com 4 cilindros e 2000 centímetros cúbicos de combustão, munido de 100 litros de combustíveis fósseis refinados, leva ao seu destino um ser humano de 80 quilogramas de peso, numa viagem de três horas? Quanta ineficiência junta. É uma indústria cansada e esgotada, da qual devemos nos libertar e transformar para bem do planeta e assim entrarmos para os patamares da 3.ª e da 4.ª Revoluções Industriais.

Mas como se pode saltar etapas?

Facilmente. O que levou séculos a descobrir e industrializar leva apenas anos a transmitir. Podemos saltar etapas evitando os erros que os outros cometeram e poupar tempo dessa maneira. Com efeito, a 3.ª Revolução Industrial foi a introduzida pelos Estados Unidos da América com ajuda do Plano Marshall no final da 2.ª Guerra Mundial. Foi o domínio da tecnologia mediante o uso de variadas fontes de energia, com a adição da energia nuclear, solar e eólica às energias já existentes.

A robotização da produção, ajudada pela informação automática, ou informática dessa época, é possível em Angola. Se usarmos os métodos do Toyodismo e os recursos disponíveis da 3.ª Revolução Industrial, como a produção distribuída por várias partes do território, ou do planeta, auxiliados pela Internet e a biotecnologia, para assegurar uma produção estável de alimentos, medicamentos e fertilizantes nacionais, começaremos a esquecer do velho petróleo.

Fala da diversificação da economia?

Não. Esse é um slogan que pode dizer tudo, mas significar nada. Diversificação refere-se a novos, ou inexistentes produtos e carteiras de activos. Não estou a falar de inventar nada novo, Angola não tem como fazê-lo a curto prazo. Falo de Revolução Industrial, como uma alteração de processos e factores tecnológicos associados à produção e distribuição, com métodos de organização de vanguarda e partilha do conhecimento. Por isso, dirijo-me à 4.ª e presente Revolução Industrial ao invés da diversificação, ou concentração de antiguidades.

Pode especificar do detalhe ao pormenor?

Deontologicamente. A teoria do dever e a ética normativa obrigam- -me a aplicar a teoria à realidade e esclarecer que a 4.ª Revolução Industrial já começou, mas alguns de nós não demos por isso. Falo da época do uso de energia sustentável em robôs multiformes, os quais querem distância e combatem o petróleo, pois o seu combustível é o hidrogénio retirado da própria água. Felizmente, água não nos falta. Faltam canos e institutos de pesquisa. Falo de impressão tridimensional telemática que reduz as necessidades de grandes stocks de peças e inventários. Trata-se do uso dos computadores quânticos que servem para quebrar códigos e espionar os vulgares computadores de placas electrónicas e transístores. Falo da nanotecnologia médica ou industrial, que permitiu criar chips tão pequenos que colocaram na nossa palma da mão consolas e telefones com mais potência e rapidez de processamento do que tinha quase toda a estação de lançamento da Missão Apolo 11. Isso é outra economia. Na 4.ª Revolução Industrial em que vivemos, a Apple vale mais do que as petrolíferas Exxon Mobil, British Petroleum, Chevron e Sonangol, todas juntas. Estamos na época das redes sociais e do conhecimento. Alguns usam-nas para desinformar e recrutar, mas elas são grande fonte de distribuição do conhecimento e saber-fazer.

Não concorda com a especialização ou funções do Executivo?

Concordo com a especialização, mas não com a sobreposição nem a atrapalhação. O Estado não é uma agência de emprego e quando num país se acredita que o emprego no Estado é o melhor, então algo falhou. O espírito já não é para servir, mas ser servido. De facto, em Angola, a entidade que nos distribui a água canalizada não tem a responsabilidade do seu escoamento. Quem repara as estradas não se preocupa com a sua conservação. O administrador de um município, ou distrito, pode morar noutro 40 quilómetros mais distante e não sente o interesse de fazer-se conhecer pelos munícipes, nem justificar o não varrimento “das ruas. Foi indicado e não eleito. Tudo isso deve ser equacionado no processo de organização autárquica, em que, no final do qual, espero que a administração do Bairro Azul seja responsabilizada devido ao lixo transbordante naquela parte da Rua da Samba. Isto é um sinal palpável de um Estado muito grande, onde o foco de responsabilidade fica diluído e sem convergência entre empreiteiro, dono da obra e beneficiário da mesma.

A que se referia quando falou de cidades temáticas?

Referia-me a um prolongamento das ideias do meu amigo e colega Manuel Nunes Júnior, sobre desenvolvimento de Angola por clusters, conjugadas com as também brilhantes ideias de outro grande pensador, o amigo Amândio Vaz Velho, sobre o desenvolvimento integral deste País. Como pesquisador, defendo que qualquer revisão de literatura sobre este tema deveria interpretar esses dois pensadores integrando as ideias do então Carlos Rocha Dilolwa e assim entenderíamos o que chamo economicamente de Cidades Temáticas. Nunes Júnior defende clusters prioritários, onde concentrações geográficas de empresas e instituições criam economias de escala para promover e acelerar o crescimento económico em sectores de base para programas dirigidos. Vaz Velho aventou uma posição que não esqueço: A solução do problema de Luanda reside fora de Luanda, pois fazer mais infra- -estruturas nesse espaço tão apertado só agravará a sua demografia, recomendando levar o grosso do investimento público para fora desta província, justificado com o argumento segundo o qual “a população segue o dinheiro”. Rocha Dilolwa deixou-nos contribuições económicas sobre a produção e distribuição capitalista coloniais, em que as economias de subsistência das sociedades periféricas só eram contempladas desde que integradas no circuito colonial de distribuição de bens e serviços fornecidos, ou mão-de-obra vendida aos colonialistas. Daqui a minha desconfiança na medição do PIB nacional e da dimensão da pobreza rural, até porque a minha avó, Marcela António, nunca viveu com um dólar ao dia, pois detinha, lavras, galinhas, patos, porcos, mangas, cajus, mandioca e farinha, nunca contabilizados pela estatística portuguesa, nem pelo Banco Mundial. Conjugando estes três fundamentos com a reforma tecnológica, poderíamos apresentar uma nova Angola, mais rica, com cidades temáticas demograficamente equilibradas, suportadas por clusters fora de Luanda, com a integração das economias, então de subsistência, já transformadas pelos efeitos da 3.ª e reforçadas pelas conquistas da 4.ª Revolução Industrial, o que nos colocaria ao nível de país emergente com notação de investimento e sem saudades do petróleo, até porque seríamos mais eficientes energeticamente.

Como acredita que esse distanciamento de Luanda seria mais eficiente se analistas sustentam que seriam maiores os gastos com deslocações?

Com o devido respeito que lhe tenho, não posso deixar de considerar isso como um sofisma. Gastava menos combustível em 300 quilómetros de Madrid até à fronteira com Portugal do que gasto desde a Praia do Bispo à Cidade do Kilamba, uma distância sete vezes inferior. Com o motor a trabalhar lá circulava três horas, enquanto aqui fico duas horas parado, queimando combustível. Se não há fácil circulação de pessoas, não haverá circulação de bens, logo haverá baixa produtividade que é também uma medida de unidade de tempo. Sem circulação não haverá turismo interno, nem comércio interprovincial, quanto mais promoção de exportações. Aliás, sobre deslocações, recordou-me uma crítica que recebemos em Genebra, evidenciando que as maiores delegações às conferências internacionais são, geralmente, as angolanas. Se as instituições forem mais simples e conectadas com ajuda da tecnologia, não precisamos de estar sempre em viagens e deslocações, mesmo para formação, pois esta já pode ser remota e interactiva, até porque sabemos o quanto podem custar essas deslocações no OGE num ano.

Qual é a dimensão dessa despesa?

O Ministério das Finanças tem publicado esses dados na sua página na Internet. Constam do OGE, mas prefiro realçar que o custo pode ultrapassar o valor de uma centralidade como a de Cacuaco. Mas, como dizia, a eficiência energética vem acomodada a essa melhor distribuição territorial da população e mesmo dos poderes. Haveria que retirar de Luanda o poder económico. Os melhores países possuem a sua capital económica. Já não falo de cidades de países de topo como a Suíça, o Canadá, ou a Austrália. Falo de cidades como São Paulo (Brasil), Nova Iorque (EUA), Lagos (Nigéria), Joanesburgo (África de Sul), Frankfurt (Alemanha), etc. A Ingombota é muito pequena para o desenvolvimento desde país. Desafio as mentes mais vibrantes de Angola a pensar em remeter o poder financeiro para uma província, o poder judicial para outra e deixar o poder legislativo e a chefia do Estado noutra.

E o poder executivo?

O Executivo poderia estar distribuí- do pelas várias cidades, ou províncias temáticas, pois não entendo como uma licença de pescas no Tômbwa seja emitida na marginal de Luanda. Espero que esteja já terminada esta dificuldade. A transferência do Ministério dos Transportes para o centro geométrico nacional, que é a província do Bié, provocaria a presença dos melhores técnicos do sector num local que daria origem ao Cluster dos Transportes e Logística, com uma potente formação em ferrovias de sentido norte-sul e uma aviação civil circundante que serviriam o País de forma equidistante. Isso é especialização e eficiência energética, seja fóssil, renovável ou humana. Não precisaríamos importar tanto combustível que havíamos exportado em forma prima, combustível esse que desperdiçamos.

Mas com os recursos financeiros em baixa, como financiar tudo isto? Ao envolver a deslocação de pessoas e instituições, haverá capacidade orçamental?

Existe. Para isso se organizam os mercados da dívida, as licitações públicas concorrenciais, os leilões de concessões, as emissões de licenças de exploração do espectro electromagnético, do espaço aéreo e do acesso portuário, buscando os melhores preços e mantendo sempre as reservas selectivas de soberania. Tudo isso é potenciado, em ambiente de mercado de capitais com participação popular, primeiro interna e depois externa. Mas não volte a acreditar que os recursos financeiros estão em baixa. É falacioso. Estão em alta, mas mal distribuídos e direccionados. Siga a tríade: Em 1983 quando entrei para a Universidade Agostinho Neto, éramos quase sete milhões de pessoas, produzíamos 170 mil barris diários de petróleo e tínhamos exportações nacionais de 1700 milhões USD ao ano. Mais de 30 anos depois crescemos à volta de três vezes mais em população, produzimos 10 vezes mais petróleo e exportamos 100 vezes mais em dólares. Há angolanos que possuem activos superiores ao PIB do país, em 1975. Caso os indivíduos forem politicamente orientados a associar-se à generalidade das pessoas com interesse em investir, tal poderá resultar em movimentos de mercado promotores do levantamento de capitais para financiar as iniciativas da industrialização e povoamento a que me referi. Existiria menos contestação silenciosa, menor resistência passiva e menor busca pelo suborno.

Mas então o País teria de fabricar moeda?

O que se observa é a falta de dólares. Não falo de fabricar dinheiro, a “Seigniorage” pode ser exercida depois em forma escritural. Falo de fabricar produtos e prestar serviços com uma nova forma de financiar essas actividades. Por exemplo, a ciência financeira possui veículos de investimento colectivo, os Fundos e Certificados de Investimento, que não se aproveitam nem organizam em Angola. Há instrumentos como os Certificados de Investimento Imobiliário, os Certificados de Desenvolvimento Urbanístico, os Títulos de Financiamento do Agronegócio, os Contratos de Futuros Agrários, os Bónus da Dívida Municipal, as Debentures da Dívida Corporativa que não desenvolvemos. Mas o País tem viabilidade. Ficou comprovado agora com os primeiros Eurobonds que lançámos e que servirá de benchmark para a precificação.

Alega-se que essa emissão foi um tanto precipitada…

Não. O tempo foi oportuníssimo. Na mesma época em que os filantropos e activistas políticos falavam de repressão dos direitos humanos e prisões arbitrárias, os mercados internacionais deram um voto de confiança à economia do País. Cobraram caro, a taxa de 9,5%, mas esse é o preço a pagar por chegar tarde à vida adulta do mundo das finanças. Estamos na era da alfabetização nesse domínio, infelizmente. Mas aquele preço, já fixo e protegido de sobressaltos para os próximos 10 anos, tem de ser descontado pelo crescimento económico previsto no período de vigência. Seguramente que em 10 anos cresceremos mais do que 9,5%, tornando tal encargo anualmente mais insignificante. Mas deixe-me continuar a contrapor a ideia da falta de verbas. Hoje a folha de salários pública mensal equivale às exportações anuais de Angola em 1980. Se não nasceram assim tantos governados, como demonstrei, então temos muito governo. Com o valor de seis meses da folha de salários do Estado poderíamos construir uma refinaria petrolífera. Alguns aceitariam ficar seis meses sem salários, desde que depois fossem considerados como accionistas dessa refinaria, pois financiaram- -na. Eu iria preferir estar numa distribuidora de Internet, outros num banco, numa ferrovia, numa companhia aérea, ou seguradora e outros ainda numa produtora de hortofrutícolas. Com este argumento poderíamos cortar salários em 50% sem revolta social.

Fala muito do futuro, que recomendação deixa para 2016?

O futuro de um suspiro é outro inspiro, em medicina. Em Finanças é um contrato para algo que vai ser produzido depois, seja para entrega ou não. Mas para 2016 recomendo implementarmos os pilares da 4.ª Revolução Industrial, conjugada com iniciativas concretas de organização urbanística a que já me referi. Por exemplo, hoje existe tecnologia para posicionar em cada bairro contentores ambientais que fazem a segregação do lixo ao longo do dia, sem exalar cheiros, suspendem os metais, flutuam os plásticos, empapam os papéis, afundam os vidros e empastelam os orgânicos. Considera isso futuro longínquo? Cada contentor desses custa tanto quanto um Lexus 570 e pode ser desenvolvido nas nossas universidades. Estava a pensar na China, não? É patológico de uma economia muito aberta onde qualquer ideia tem de gastar dólares.

Mas quem faria essa gestão e com que recursos?

Os contentores são recolhidos quando estão cheios e substituídos por outros vazios. Não é preciso um ministério para isso. Apenas pequenas empresas municipais de capital aberto ao público, o que é diferente de capital fechado do Estado ou de alguém protegido. Seriam financiadas pela taxa de serviço dos utentes desse contentor, cobráveis municipalmente na Repartição Fiscal de cada comuna, ou mediante contrato civil com o provedor do serviço. A Ficha de Agregado Familiar ajudaria a dimensionar o volume da recolha e a taxação, pois quem faz lixo consome, e se consome então tem rendimentos para contribuir na limpeza em mutualidade. Voltando às recomendações, se propuser a 45 taxistas de Luanda a compra de um autocarro de 45 lugares, então cada um deles será proprietário de um assento desse autocarro e assim repartiriam direitos e deveres. Até os deveres fiscais, actualmente em elisão. Mas tal levaria a uma libertação das principais vias de circulação rodoviária que estariam reservadas ao transporte público colectivo, ficando os veículos menores a cobrir rotas transversais. Falo de agora, não de 2040. Assim se entenderia melhor o aumento do preço dos combustíveis, pois se gastaria muito menos e a sua subsidiação pelo OGE seria insignificante.

Antecipa então uma subida dos preços do combustível?

Não necessariamente, mas recuso a ideia de combustível barato e subsidiado para produção de electricidade doméstica. Para a agricultura, indústria, transportes e pescas, mediante apresentação da facturação mensal da produção vendida e serviços prestados, poderiam existir devoluções fiscais pelo combustível incorporado. Mas, hoje, vejo moradores com um gerador que serviria para a rua inteira. A energia que é produzida adicionalmente é desperdiçada e não lançada na rede. A solução para essa conversão energética foram os “painéis solares” da 3.ª Revolução Industrial e não “subsídios orçamentais” da 1.ª Revolução.

A subida dos preços não afectaria o combate à pobreza?

Não. A pobreza não se combate com cartões, nem lojas. O indivíduo pobre também é inteligente, por vezes mais do que o rico, pois a fome aguça o intelecto e o instinto de caça, sobrevivência e arbitragem. A pobreza deve ser combatida mediante a formação e o acesso aos factores produtivos, de forma crescentemente organizada e com superação tecnológica permanente. No entanto, também não precisamos de um Ministério da Pobreza. Precisaríamos de ter ministérios da Representação do Estado, da Alimentação, da Gestão Financeira, do Assistencialismo Público, dos Recursos Produtivos, da Formação Social, do Bem -Estar e outro das Forças da Lei. Não é obrigatório copiar nomenclaturas de outras soberanias, democracias ou ditaduras.

A elevada concentração de funções que sugere não contradiz as suas ideias iniciais de dispersão administrativa?

Creio que não. Há serviços especializados e científicos. De um ponto de vista intelectual, não “conspiracional” e com apoio da teoria de comportamento organizacional poderíamos conceber o cenário seguinte: Imagine que, sob a supervisão do Chefe do Estado, a coordenação-técnica do Governo seria rotativa e cessaria funções após todos terem sido coordenadores-técnicos e defendido seus programas sectoriais. Já pensou acabarmos com o Programa de Investimentos Públicos nos ministérios? Imagina o cenário de cada província o receber e ser, num ano, a capital do País de forma rotativa? Seria o espírito dos Jogos Olímpicos na sociedade. Falar-se- -ia mais de economia, negócios e desenvolvimento e menos de política, roubos e corrupção.

Essa relação mais se parece a um federalismo prévio.

Nada disso. A nação é una como está, logo indivisível, e creio que todos já estamos de acordo com isso. Recordo-lhe a questão a fundamental da filosofia, entre o ser e a verdade e como a atitude filosófica não reconhece domínios fechados à investigação, socorro- -me da tecnologia para esclarecer a ideia: Estou a conjugar o “software” da coordenação dos sectores com o “hardware” da localização das prioridades, usando itinerância telemática. Os programas ministeriais são de abrangência nacional, tal como o sistema operativo está em todos os computadores. O foco do desenvolvimento territorial é definido antecipadamente para cada espaço físico, o “hardware”. Neste paradigma, rotativo e itinerante, uns pensam e regulam, outros fazem e os demais controlam. Afinal, o valor do meu computador, ou telemóvel, não é dado pelo material de que é feito, mas sim pela informação que possuo lá dentro e o uso que dela faço. Esta é a 4.ª Revolução Industrial de que falo.

A literacia financeira ainda é fraca na sociedade angolana, o que pode ser feito?

Confesso que estaria realizado do ponto de vista profissional caso existisse mais literacia financeira na nossa população, de forma que suportasse uma inclusão financeira aceitável. Falo mesmo de educação financeira, com os pergaminhos das finanças pessoais e da banca popular com ajuda da tecnologia.

Então o que deveria ser ensinado às pessoas em concreto?

Devíamos ensinar a estudar para sermos produtores e empreendedores, não apenas para sermos empregados, ou assalariados. Sofro quando os pais me dizem que os filhos estão a terminar o curso e pedem-me para ver um “furo” no Estado. Tanto investimento para isso? O funcionalismo público é a arte de servir o cidadão, e não o contrário. O administrador da comuna, ou município, deve ser uma espécie de gestor do nosso condomínio e não o chefe do bairro. Está para servir, não para mandar. Isso deturpou o espírito dos jovens e todos querem ser chefes. Temos de corrigir esta realidade. Afinal, existem mais angolanos com menos de 40 anos de idade que os restantes. Compete aos jovens, numa base de ética política e com apoio da ciência de finanças moderna, materializar em Angola a 4.ª Revolução Industrial.

Por: António Pedro

 

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