Mercado

O Governo tem planos muito fortes para desenvolver a agricultura”

21/10/2015 - 13:16, Entrevistas

O embaixador japonês, Kuniaki Ito, considera haver grandes margens de expansão da cooperação entre Angola e o seu país, em entrevista ao Mercado, dada a grandiosidade das duas economias e os níveis baixos das transacções que se verificam actualmente.    Qual o balanço das relações entre Angola e o Japão volvido 39 anos de cooperação? […]

O embaixador japonês, Kuniaki Ito, considera haver grandes margens de expansão da cooperação entre Angola e o seu país, em entrevista ao Mercado, dada a grandiosidade das duas economias e os níveis baixos das transacções que se verificam actualmente. 

 

Qual o balanço das relações entre Angola e o Japão volvido 39 anos de cooperação?

O comércio entre Angola e Japão, por exemplo, ainda não é muito expressivo. A exportação do Japão para Angola está à volta dos 30 mil milhões de ienes por ano e, se for a fazer o câmbio, dada a aproximação entre o kwanza e o iene, o valor é quase o mesmo.

E a exportação de produtos de Angola para o Japão está à volta dos 60 mil milhões de ienes. Os artigos que normalmente são exportados do Japão para Angola, em termos de comércio, têm que ver com automóveis, tubos de aço para as indústrias petrolíferas, ao passo que a exportação de Angola para o Japão é potencialmente o petróleo.

Podemos dizer que este valor, em termos de comércio ou de cooperação entre os dois países, ainda é muito baixo se tivermos em conta o tamanho ou a grandiosidade das duas economias. Isso significa que temos grandes possibilidades de fazer um incremento no comércio.

O que é que está a ser feito no sentido de haver este incremento, e que acordos existem para aumentar o leque da relação entre Angola e Japão?

Este ano, no mês de Março, houve uma grande conferência em Luanda, organizada pela embaixada de Angola no Japão e também pelo Ministério da Economia de Angola. Trinta e sete companhias e instituições japonesas enviaram 120 personalidades para participar neste encontro, isso demonstra o entusiasmo das instituições e companhias japonesas em aumentar a parceria e cooperação com Angola.

Da parte angolana, várias instituições e diversos ministérios estiveram presentes, isto é um sinal de que Angola também quer expandir as relações com o Japão, especialmente agora que o preço do petróleo está muito baixo e Angola precisa diversificar a sua economia.

Como encararam as empresas japonesas essa vinda a Angola?

É uma oportunidade para o Japão providenciar o que tem de mais, que é produto de alta tecnologia. As empresas japonesas têm um histórico, o mundo todo reconhece, que são boas na formação de técnicos e especialistas, e tenho estado a falar com as grandes companhias para que se encontre formas de poderem vir para Angola participar na formação e especialização de pessoal local.

A nível do sector industrial, quais as áreas específicas em que o Japão quer investir e dar esta formação? Há vários subsectores de indústrias, um deles é a indústria automóvel e de motorizadas. E também temos o sector de tecnologia de informação, o sector de electrotecnia.

E outro sector que consideramos importante é o da indústria de substituição. Por exemplo, Angola tem estado a importar cimento, que é um dos itens do topo das exportações angolanas.

A nossa intenção é construirmos uma fábrica para produção de cimento. A nosso ver, isso vai fazer com que a importação seja reduzida. O mesmo pode acontecer com a produção do açúcar, e temos ainda outro exemplo, que é o da instalação internamente de fábricas de caixas ou envelopes de papel, ou mesmo para produção de papel de uso higiénico.

São indústrias consideradas pequenas mas, se nós acumularmos todas elas, no fim de contas, veremos que será uma boa solução, que é a indústria da substituição, ao invés de importar, fabricar cá internamente.

A nível de fábricas de grande porte, há já algum avanço?

Nós temos a informação e a certeza de que o Governo de Angola está a fazer um grande esforço e tem planos muito fortes para realmente desenvolver a agricultura. E algumas empresas japonesas importantes, com grande dimensão, estão a pensar desenvolver projectos na produção da área do algodão e de cana-de-açúcar.

Eu considero estes sectores importantes dentro da indústria, onde as empresas japonesas podem vir e implementar projectos. Mas as empresas japonesas têm igualmente tecnologias para outras áreas, por exemplo, a geração da energia eléctrica, como a gerada a partir do gás e pequenas hidroeléctricas.

Recentemente, o Japão financiou Angola no sector eléctrico. Nós gostaríamos de perceber exactamente os meandros deste acordo, já que o Japão tem este interesse de apostar nos recursos energéticos em Angola.

Trata-se de um acordo co- financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento, cujo objectivo é tornar o sector energético em Angola mais eficiente.

Qual é o prazo previsto do retorno deste financiamento, e como irá o Japão acompanhar a sua execução?

O empréstimo tem um prazo de 40 anos, é um tempo longo. Foi concedido a uma taxa de 0,01%, o que podemos considerar muito baixo. Neste momento, a atenção do governo do Japão não é apenas estar interligado com o Governo de Angola em termos da situação que se vive no sector energético, em que é preciso mais eficiência, melhorias para também aumentar a possibilidade de o sector energético fazer o seu papel no desenvolvimento do País.

Mas é também ajudar na situação actual de crise em termos de aquisição e circulação de divisas para uso no mercado financeiro nacional.

Quais são os outros projectos a que essa visão se vai estender daqui para a frente? Este empréstimo de ienes é o primeiro do Japão, e nós temos a certeza de que é apenas o início.

Agora, que concluímos o primeiro acordo com o Governo de Angola em termos de empréstimo, nós temos a perspectiva de olhar para a frente e acontecer mais vezes apoio para projectos de vários sectores.

Porquê os empréstimos em ienes, sendo que o dólar é a moeda mais comercial?

É muito simples: o iene é a moeda corrente do Japão, e isto é um empréstimo do governo do Japão a Angola. Na maior parte dos acordos financeiros que várias instituições têm feito a nível mundial e particularmente com Angola, estas instituições vão ao mercado financeiro internacional e pedem empréstimos dos quais tiram uma margem e fazem o acordo com o Governo de Angola.

É diferente o nosso caso, porque nós não fomos ao mercado financeiro internacional para termos dinheiro ou financiar um acordo com Angola, nós usámos o nosso próprio dinheiro, que é do Estado japonês, e não do mercado internacional, é aí que está a simples resposta à pergunta que me foi feita.

A fonte deste acordo financeiro que tivemos recentemente com o Governo de Angola, a fonte da receita deste dinheiro ou da quantia que foi dada, é dos contribuintes japoneses.

Este acordo tem uma taxa inferior a 1% que veio no sentido de ser uma espécie de ajuda para Angola. Este perfil manter-se-á constantemente, ou é só uma ajuda em tempo de crise?

Cada caso vai ser um caso, mas os investimentos em termos de programa são diferentes dos empréstimos do iene. Os empréstimos em ienes têm uma taxa de reembolso um pouco mais alta.

O Japão é uma das maiores economias mundiais, mas, ainda assim, a sua relação com Angola, comparativamente a países como a China, é diminuta. O que está na base deste resultado?

A relação entre Angola e a China é importante para Angola, e não há comentários negativos a fazer. Existem áreas em que o Japão é o melhor provedor de serviço ou exportador de produtos.

A título de exemplo, apercebi-me da existência de algumas câmaras de vigilância em Luanda, mas sabes e que, em termos de captação de imagens e de reconhecimento facial e transmissão de informação, existe uma empresa japonesa com a melhor qualidade.

Portanto, só depende da necessidade e do pedido da parte angolana. Caso pretenda apenas o modelo básico, então não há necessidade de comprar directamente ao Japão; mas, se o pedido for para uma qualidade superior, então seria melhor considerar o Japão como a opção.

Não há aqui a questão preço implícita?

As empresas japonesas têm como mais-valia o serviço pós-venda. Considere o seguinte: caso Angola adquira um produto a qualquer país a baixo custo e, no final de um curto período, este produto se estraga, então terá sido uma perda de dinheiro.

As empresas disponibilizam maquinarias talvez um pouco mais caras mas, considerando o real tempo de uso e a sua duração, talvez então seja mais económica essa aposta.

Existem condições criadas, como, por exemplo, um gabinete de investimento, para as empresas nacionais que pretendam constituir parcerias com empresas japonesas?

Estas parcerias e o suporte financeiro podem ser assegurados pelas empresas japonesas que já operam no mercado angolano. Temos grandes empresas do sector do comércio com sucursais cá em Angola que comercializam quase tudo, desde têxteis a transportes e alimentos.

Se os investidores angolanos contactarem estas companhias, elas certamente estão disponíveis. O número de empresas japonesas a operar em Angola ainda não justifica a criação de uma câmara de comércio entre os dois países.

Sobre o acordo para o sector da indústria têxtil, gostaria de saber em que fase está e para quando teremos essas fábricas a operar no País e a terem o seu resultado.

Estamos na última fase de reabilitação, temos três fábricas, e a de Luanda já está concluída. Já fizemos o recrutamento do pessoal. Há uma empresa comercial japonesa que já adquiriu algodão e, depois de cumpridos todos os procedimentos, o algodão já se encontra no País.

Relativamente às outras duas fábricas, o que é que falta para a conclusão?

A segunda está quase terminada, mas a terceira ainda falta, tudo está a ser feito na positiva e está, consequentemente, a avançar.

Até ao momento, quanto já foi investido nestas fábricas?

Por volta de 1000 milhões USD. Não há um número exacto, mas anda à volta deste valor.

Qual é a avaliação que faz da economia angolana, e como pode Angola absorver a experiência do Japão?

Angola alcançou a paz há 13 anos. Se compararmos ao Japão 13 anos depois da guerra mundial, a vida não estava tão boa assim. De certa forma, Angola é um país invejável, por ter recursos como o petróleo e os diamantes.

Apesar de a guerra civil ter destruído parte das indústrias, o País tem um percurso económico histórico, e estes recursos podem ser reconduzidos para alavancar sectores como a agricultura ou os minérios.

Mas, para desenvolver a agricultura, é preciso ter infra-estruturas fortes. Recentemente, Angola conseguiu reavivar os terminais de caminhos-de-ferro, mas é necessário desminar algumas áreas.

No geral, Angola tem muitas potencialidades que estão comprovadas historicamente, pelo que há um futuro brilhante para o País. Um dos aspectos importantes é a formação das pessoas, e a chave do sucesso japonês foram as pessoas. Assim se poderá fomentar a indústria, e também a aquisição do conhecimento básico dentro do sistema de ensino.

Por: André Samuel (texto), Carlos Muyenga (fotografia)

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