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“O nosso foco é adquirir créditos de projectos de investimento”

16/10/2017 - 09:22, Entrevistas, featured

A Recredit pode alargar a sua intervenção na compra de crédito malparado, se os projectos envolvidos tiverem valor, diz o PCA da entidade do Ministério das Finanças, que espera concluir processo do BPC ainda neste mês.

Por Ricardo David Lopes | Foto Njoi Fontes

Em Julho, o BPC anunciou a venda de 231 mil milhões Kz de crédito malparado à Recredit.Qual o ponto da situação deste processo, actualmente?

Contamos fechar este processo ainda em este mês de Outubro, sendo importante clarificar que a compra de créditos malparados, ao BPC ou a outra instituição bancária, não significa a cessação das responsabilidades dos mutuários.

Qual é a estratégia da Recredit para a recuperação deste valor?

Iremos usar todos os mecanismos económicos, financeiros e legais, e outros, para fazer acontecer duas situações: recuperar do mutuário os valores em dívida e inserir/reinserir os activos inerentes a cada processo, de forma directa ou indirecta, no circuito económico, gerando as mais-valias esperadas. Todos os cenários estarão em aberto, no sentido de atingirmos estas duas situações: desde a própria participação do mutuário na reengenharia de soluções, reconfiguração técnica e societária dos projectos, sua adequação à realidade actual do mercado, seu escalonamento, até à montagem de soluções de capital de risco, nunca esquecendo o papel do banco cedente, tendo em conta que já foi penalizado quando o processo entrou na categoria de NPL(non performing loans, ou empréstimo em incumprimento, ou, simplesmente crédito malparado).

Qual o período previsível de recuperação deste montante?

É variável, segundo a textura do projecto, ou seja, há processos que poderão demorar um ano a serem recuperados e outros que podem demorar cinco ou mais anos. Não há fixação prévia de limites temporais para esta recuperação, ou qualquer condicionante desta natureza na sua negociação. Contudo, note-se que o custo financeiro do capital imobilizado afecta o custo do projecto, e, sendo assim, teremos de procurar soluções que entrem em consideração com o factor tempo como custo.

Quem assume as perdas se não for possível recuperar o valor?

Esperamos perder dinheiro nalguns processos e noutros não, tudo fazendo para a recuperação positiva do investimento público efectuado. Contudo, temos nesta perspectiva um factor incomensurável que não pode deixar de ser encarado: a recuperação económica e financeira de activos que, sem a intervenção da Recredit, se revestiam de uma forte probabilidade de se tornarem perdas irreversíveis. Esta abordagem não pode ser esquecida na avaliação do papel da Recredit. Podemos questionar se seremos capazes de conseguir este objectivo, mas, se não tentarmos, é que não conseguiremos. Fazemos do trabalho digno um dos pilares da nossa actuação. No cômputo global da nossa actuação, podemos referir, com uma elevada dose de confiança, que a Recredit não se tornará uma
entidade que vegetará à sombra do Orçamento Geral do Estado.

Em Agosto, anunciaram a compra de malparado do BCI, BAI, Keve e BNI, num total de cerca de 150 mil milhões Kz. Qual o valor em cada caso?

O Estado reforçou a capacidade de intervenção da Recredit com esse montante, destinando-o a atender na, globalidade, os processos que as entidades bancárias entenderem negociar com a nossa empresa. Não há, pois, valores predeterminados, sendo essa repartição originada pela dimensão e quantidade dos processos que forem negociados.
Para além destes bancos, tiveram mais abordagens?

Gostaríamos de manter sob alguma reserva este tipo de informação. Mas podemos referir que, para além dessas entidades, já negociámos com outras. É importante notar que a existência de malparado não é uma característica sui generisda nossa economia. À escala mundial, como em todos os sistemas, são necessários mecanismos de higienização dos sectores financeiros bancários, não existindo nenhum banco que possa referir não enfrentar este problema.

Estão disponíveis para comprar malparado até que montante?

A única limitação na compra de créditos bancários, compreensível sob o ponto de vista da situação da nossa economia, centra-se, unicamente, na sua natureza, sendo o nosso foco a aquisição de créditos relacionados com projectos de investimento. No quadro actual, o crédito ao consumo não faz parte das nossas prioridades. Fica assim claro que não existe limitações de valor em termos de compra de créditos.

Em que medida podem contribuir para melhorar os rácios de malparado no sistema?

Com a nossa actuação no saneamento da carteira de crédito bancário, há um impacto significativo na estrutura dos balanços dos bancos cedentes, melhorando-se as condições, de imediato, para o melhor cumprimento dos rácios do supervisor. Uma determinada instituição bancária que ‘limpe’ as suas contas activas, incluindo provisões dos NPL, fica com uma carteira mais viva, com maior capacidade de desempenhar o seu papel de entidade creditícia. Se admitirmos que a carteira de crédito malparado se aproxima dos 1.150 mil milhões Kz e que o valor real desta carteira, na sua globalidade, ascende a 40% deste valor contabilístico, ou seja, a 460 mil milhões Kz, e que a Recredit ‘injecta’ no sistema a totalidade dos recursos afectos, seria possível drenar aproximadamente 83% da carteira global de malparado. Mas registe-se que estão por concluir estudos efectivos que conduzam à determinação da carteira global dos NPLna banca nacional.

Estão disponíveis para comprar mais malparado de outras instituições?

Sem qualquer dificuldade, desde que tenhamos condições financeiras para o fazer. Mas importa fazer notar o seguinte nesta equação: os quase 400 mil milhões Kz que o Estado ‘injectou’ na Recredit terão também um ciclo de retorno, sendo certo que parte das aplicações que fizemos em 2017 e em 2018 – e assim sucessivamente – na compra de crédito malparado tornar-se-á em valores líquidos nos anos seguintes, repondo a nossa capacidade de intervenção. Depois, temos ainda aqui uma outra situação: o surgimento da Recredit, no nosso panorama financeiro, vai contribuindo, de algum modo, para afinar procedimentos de recuperação de NPLao nível das instituições financeiras, constituindo também um alerta para os mutuários, embora admitamos, por deficiente informação, que alguns possam pensar que somos uma ‘jangada num naufrágio’.

Qual o limite, em montante, que admitem vir a comprar?
O limite é determinado pela nossa capacidade financeira. Agora, no momento de partida, temos 381 mil milhões Kz, nada impedindo que, em quatro a cinco anos, não possamos ter uma capacidade maior em termos reais (não nominais), como explicámos.

Qual a probabilidade de recuperação da totalidade do malparado já absorvido?

A nossa actividade, tal como a dos bancos, é caracterizada por um determinado grau de risco. Este risco é determinado por vários factores, como a qualidade da análise do valor real dos processos, o grau e qualidade da formatação dos processos de créditos pelos bancos, os mecanismos impositórios de natureza legal e a preparação dos nossos empresários. O princípio consiste na recuperação integral, mas sabendo que haverá alguns insucessos. Também temos consciência de que haverá processos com ganhos substanciais.
Ja executaram alguma garantia relativa a algum malparado?

Até à presente data, ainda não foi necessário, mas, no decorrer da nossa actividade, se tal for preciso, estamos a preparar a implementação de mecanismos não judiciais de resolução de litígios.

Já conseguiram recuperar algum crédito por via de negociação com clientes?

A Recredit irá publicar, no final de 2017, um estudo, um relatório pormenorizado da actividade desenvolvida no exercício. Nessa ocasião, daremos informação suficiente da matéria.

Estão a negociar com mais clientes neste momento? Como tem sido a reacção dos clientes com quem procuram negociar?
Extremamente positiva, e outra não seria de esperar. O nosso papel e a coragem do Executivo na decisão de estender a acção da Recredit a toda a banca foram, de facto, inovadores, e de extrema utilidade em termos da capacitação da intervenção da banca e da sensibilização dos empresários para a assumpção das suas responsabilidades.

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