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Peter Hill: “A TAAG pode ser uma Emirates em África em dez anos”

25/07/2016 - 09:40, Entrevistas

O chairman da TAAG fala da estratégia que leva a cabo para a tornar numa empresa rentável, em tempo de crise, e do que pode ser feito para que a companhia de bandeira se torne numa das maiores em África nos próximos dez anos.

Por César Silveira | Fotografia Walter Fernandes

Gostaríamos de começar esta entrevista com a seguinte pergunta: como recebeu o convite para liderar a TAAG?

Como provavelmente sabe, em 2014, o Governo angolano estabeleceu um acordo, com a Emirates, no Dubai, e a partir dessa data desenvolveram um plano de negócio estratégico para, com ajuda da Emirates, o implementar para o futuro e desenvolvimento da TAAG. Este acordo entre o Governo e a Emirates vai vigorar por dez anos. Neste período, a Emirates vai ajudar a companhia nacional a desenvolver-se e seguir em frente.

O que o moveu a aceitar este convite?
Primeiro, porque já estava reformado, pela Emirates, quando o convite chegou. E, segundo, apesar de eu ter sobre a mesa outros projectos, o convite para dirigir a TAAG pareceu-me o mais atractivo. Na verdade entusiasmou-me, porque é um grande desafio. E a última vez que eu trabalhei em África foi há muitos, muitos, anos, por volta dos anos de 1970, no Uganda.

Está no País há quase dez meses, que avaliação é possível fazer deste período?

Antes de mais, a nossa estada em Angola tem sido muito agradável. A equipa que trouxe e eu gostamos de estar aqui, apesar de virmos de diferentes países. Temos dois ingleses, um belga que nasceu no Congo Democrático, outro do Sri Lanka, e brevemente teremos um francês. Somos praticamente uma equipa multicultural. Como já disse, aceitar o convite de dirigir a TAAG é um grande desafio. Mas também não esperávamos que fosse diferente, por causa da situação económica actual da TAAG. Uma situação difícil, mas todos nós sabíamos que viríamos para um trabalho duro, e por isso não estamos desapontados.

Que TAAG encontrou?

A começar pelo capital humano, devo dizer que encontrei bons quadros, alguns trabalham há muitos anos para a companhia, pessoas que se sentem muito orgulhosas por fazerem parte da TAAG, e isto é algo que achamos muito positivo. Mas era necessário rejuvenescer a companhia, precisamos de trazer ideias novas, mais juventude que possa tocar esta companhia para a frente. Há mais por fazer, notamos que em termos de organização há muitas mudanças que deviam ser implementadas e, por outro lado, percebemos que alguns contractos de trabalho não eram os mais adequados. E, portanto, temos estado ocupados com a melhoria de processos, sistemas e alguns dos antigos contractos e torná-los mais benéficos para a companhia.

Chegou-nos a informação de que havia um excesso de trabalhadores na TAAG. Até que ponto esta informação é real?

É uma pergunta e tanto… Claramente, com o passar dos anos, a TAAG acumulou um número largo de empregados. Existiam alguns programas que ofereciam oportunidades de reformas antecipadas. Eu penso que o último foi talvez em 2011. A TAAG nesta altura dispensou um bom número de funcionários, como resultado das ofertas e benefícios monetários que a companhia proporcionou. O que fez o número de funcionários baixar. Mas, nos anos seguintes, esse número voltou a subir novamente. Provavelmente voltou a ter um número maior de funcionários do que uma companhia deste tamanho devia ter. Como companhia estatal, reconhecemos que não podemos começar a contratar e a demitir pessoal, a nossa responsabilidade é gerir estes funcionários. Então, o que resolvermos fazer é encarar esta questão, identificando os funcionários que já tinham idade para a reforma e convidámo-los a deixar a companhia. Isto acontece em todas as companhias. Lidamos diariamente com a tarefa de fazer crescer a companhia, com os funcionários que temos, nestas condições economicamente difíceis. Esta é uma tarefa tão dura, que você nem imagina. Então temos de encontrar maneiras de gerir o excesso de funcionários em algumas áreas, não em todas.

E como faremos isto? Bem… talvez tenhamos de encontrar outras formas atractivas de voltar a convencer outros funcionários a aderirem à reforma antecipada. Um dos desafios que levaram o Governo a esta parceria é certamente o de tornar a TAAG uma empresa rentável.

Quando pensa que este desiderato será alcançável?

Quando viemos para cá, trouxemos connosco o plano de negócios estratégico desenvolvido pelo Estado e a Emirates em 2014. Neste mesmo ano, o País ainda pulsava uma boa vitalidade económica (um boom económico), havia dinheiro suficiente, divisas suficientes, e a vida era boa. Mas agora, dois anos depois, estamos numa situação diferente. Neste plano de negócios havia sido traçado um programa de melhorias da qualidade dos serviços a bordo, um grande plano de expansão expectável numa companhia aérea internacional. E procurarmos melhorar a imagem da companhia, aumentar as rotas e torná-la num negócio lucrativo. Entretanto, quando chegámos em 2015, encontrámos uma TAAG diferente e o País também. Então, tivemos de basicamente gerir a sobrevivência da TAAG, durante os últimos nove meses. Ao mesmo tempo que tentamos investir, nos produtos e serviços, e expandir a rede, porque, de momento, o número de passageiros que transportamos contraiu. Como se vê, a economia do País está em queda. Por isso é difícil responder a esta pergunta, porque depende da melhoria da economia do País. Quando se quer colocar um produto em alta, temos de investir no produto. Isto significa que temos de investir no serviço de bordo, nas refeições, nos uniformes da tripulação, nos assentos e entretenimento. Tudo isto carece de dinheiro. Mas, de momento, claramente, o Governo não tem este dinheiro, necessário para investir nas exigências deste projecto nos próximos anos.

E o que já foi possível ser feito então?

Estamos a tentar manter a companhia e a reduzir os custos, tanto quanto possível. Portanto, não havendo dinheiro, para investir, estamos a economizar. Não quer dizer que não estejamos de momento a fazer melhorias concretas na companhia, estamos a fazer outras coisas que não exijam grandes orçamentos. Aplicamos de forma racional algum dinheiro na melhoria de algumas áreas, tirando do que conseguimos noutras. Investimos no treino da nossa equipa, para que possam fazer as coisas de maneira diferente e melhor. Estamos a tentar pôr um sorriso no rosto dos trabalhadores, para que esse sorriso seja projectado para o rosto dos nossos clientes. E estamos a melhorar a conexão entre os voos e a tornar Luanda num hub para a África do Sul e trazer clientes a Luanda que estão em trânsito para outros lugares.

Quando a economia do País está em baixo, não se pode esperar um crescimento de passageiros de um ponto para outro, então o que se faz?

Olha-se para os países vizinhos. Se se conseguir fazer passar os passageiros desses países por Angola para outros pontos como Portugal, Cuba e América do Sul, China, por exemplo, se se conseguir isto, então temos acesso a um mercado maior. E temos tido já algum sucesso, quando trazemos passageiros da África do Sul, conectando-os com os nossos voos para Portugal. Isto só foi possível, este ano, a partir do momento que os Serviços de Migração e Estrangeiro concordaram que permitíssemos o trânsito de passageiros por Luanda, sem visto. Quando começámos a fazer isto em Março último, tínhamos no início três passageiros, agora são oitenta por mês. Isto está a ajudar a incrementar os lucros da TAAG. E prevemos um número maior nos próximos meses.

Esta experiência é uma réplica do que fez no Dubai?

Isto é exactamente o que fizemos na Emirates desde o início. Começámos com duas aeronaves. Depois usámos o Dubai como um hub, levando as pessoas através do Dubai para outros países, e agora, se olhar para o Dubai, é um enorme hub. Toda a gente viaja para todo o lado passado pelo Dubai. Um dia, quando o novo aeroporto internacional de Luanda estiver a funcionar, África poderá viajar para o resto do mundo através de Luanda, e o resto do mundo poderá viajar para África passando por Luanda. Este é o nosso sonho.

Que vantagens estas conexões trazem para os passageiros?

Se um passageiro estiver por exemplo na Inglaterra e queira ir à África do Sul, num voo directo a viagem pode ficar por 2 mil libras, mas se a viagem for com escala, ou seja, em trânsito pelo Dubai, como ponto de passagem, a viagem pode ficar por pelo menos 500 libras. Hoje, muitas pessoas preferem fazer este itinerário, apesar de demorarem duas ou mais horas de viagem. Hoje também já é possível fazer através da nossa linha aérea.
Há pouco disse que o Governo e a TAAG não têm dinheiro para investir nos projectos previstos.

Então qual é a situação financeira da TAAG que encontrou?

Desafiadora, muito desafiadora, tal como todo o negócio em Angola. O problema da TAAG não é só a falta de dinheiro, tem que ver igualmente com os custos das operações da companhia, que são maiores do que a viabilidade da sua moeda, para pagar as necessidades de importação de suprimentos. Temos Kz suficientes, mas a moeda fora de Angola não tem valor. Porque muito do que é necessário requer divisas. Mas este não é só um problema da TAAG e de Angola, mas de muitas empresas que estão no País. É também um problema de muitos países que têm o mesmo problema. É difícil mas temos de dar o nosso melhor com o que temos. Quanto maiores forem as fontes de obtenção de divisas, melhor. Porque, sempre que obtemos divisas, podemos pagar as nossas contas no exterior. A estratégia que falei há pouco de usar o aeroporto de Luanda como um ponto de passagem da África do Sul e de Portugal é uma forma de captar essas divisas. Portanto, quanto maior trânsito pudermos atrair, melhor para a TAAG.

Quando o mandato terminar e notar que a actual situação económica do país se mantém, não receia falhar com o cumprimento dos objectivos?
Os sonhos são feitos para vivermos por eles. Eu ficaria muito contente se os realizássemos. Eu ficarei provavelmente por três anos no máximo. Mas trata-se de um contrato de dez anos. Posso ser um homem de idade avançada, mas tenho muita energia, assim como a minha equipa, e alguns até são mais novos do que eu. Registe estas palavras, nós iremos alcançar muitos objectivos nos próximos três anos, não importa o estado da economia, porque temos de ser criativos para realizar o sonho. Temos de tentar gerar receitas, para deixar a TAAG numa situação melhor do que a que encontrámos inicialmente. Porque há muitas oportunidades, vejamos, voamos para China, América do Sul, iremos ter Cuba na nossa rota, ainda estamos a ver outros destinos. Então não estamos totalmente dependentes da economia do País. Mas o meu sonho é parte da estratégia do plano de negócio criado pelo Estado e a Emirates, estamos aqui para geri-lo e talvez o sucesso possa demorar um pouco mais do que prevíamos. Mas tenho a certeza de que nos próximos anos teremos uma TAAG mais lucrativa e uma qualidade de serviços melhor, e no futuro será uma grande companhia aérea.

À luz do acordo entre o Estado e a Emirates, ainda existem algumas dúvidas. Qual é realmente a tarefa da Emirates?

O Governo angolano observou a expansão da rede, o sucesso e a qualidade dos serviços da Emirates e disse ao governo do Dubai que gostaria de ter o mesmo sucesso em Angola, e se poderiam ajudar. Penso que até certo momento o Estado angolano sugeriu à Emirates que investisse. A Emirates terá dito que tem o seu próprio negócio para gerir e que não investe noutras companhias aéreas, mas vamos tentar ajudar-vos a desenvolver um plano de negócios para alavancar a TAAG. Porque eles operam aqui e gostariam de ver as coisas a melhorar. Às vezes, grandes companhias fazem isto para ajudar as mais pequenas, é assim que funciona na indústria aeronáutica. A Emirates trouxe a equipa, mas é o Governo angolano que paga os salários de toda a equipa, somos empregados da TAAG. Eu encontro-me regularmente com a direcção da Emirates apenas para reportar como as coisas estão a correr. Então é basicamente o que estamos a fazer.

A Emirates é uma consultora para a TAAG. Pela experiência que tem no sector, que perspectivas de realização terá a TAAG, quando terminarem os dez anos de contrato com a Emirates?

O plano é tornar a TAAG numa grande companhia na região subsariana. O que acho é que a TAAG pode ser uma Emirates em África em dez anos. Mas não depende só desta equipa que vai ficar três anos. Vamos erguer as escadas que vão dirigir ao objectivo. Mas isto vai exigir muito comprometimento, paixão e suporte governamental, para garantir que estes objectivos sejam cumpridos. Não estou a falar necessariamente de suporte financeiro, mas o tipo de apoio que vai tornar a companhia bem-sucedida em tudo o que fizer daí para a frente. O que faltou à TAAG para se tornar numa das maiores companhias aéreas de África nesses anos todos? Quando te colocas à frente de um negócio, é provavelmente errado criticar a maneira como outras pessoas dirigiram o negócio no passado. Não podemos mudar o passado, porque é história. Às vezes podemos reescrevê-la, mas não a alterar. O que devemos fazer é olhar para a frente. Estamos aqui para avançarmos, e isto é o que também dissemos ao Governo.

A anterior administração criou procedimentos para reduzir os custos com o combustível, está ao corrente desta medida?

Claramente, algumas estratégias boas desenvolvidas nos últimos anos são positivas, houve algumas decisões certas. Se recuarmos alguns anos, em 2009, quando a TAAG foi colocada na lista negra, a gestão na altura teve de trabalhar para elevar os seus padrões de segurança de acordo com as recomendações da Europa, para sair desta lista e com isto fez progressos, de tal modo que saiu da lista negra e, portanto, todo o crédito deve ser dado à equipa que alcançou isto. A partir disto estamos a trabalhar na melhoria contínua.

Algumas vozes criticam o Governo por causa da compra de mais aviões. Concorda com esta posição? Está satisfeito com a frota que a TAAG tem hoje?
Há alguns anos, quando o Estado encomendou estes aviões, não previa que o quadro macroeconómico fosse mudar, agora não é nem possível cancelar a encomenda, porque sairá mais caro para o Estado, porque já estão fabricadas as aeronaves. Mas se me perguntar se precisamos destas aeronaves agora, bem… Provavelmente, não. Mas podemos usá-las em rotas prioritárias, em que os passageiros poderão usufruir de uma experiencia melhor. E se estou satisfeito? Não. Nós podemos tornar-nos mais eficientes, por isso estamos a fazer alguma coisa para melhorar.

 

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