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“Eu seria outra pessoa se tivesse nascido com outro cabelo” – Djaimilia Pereira de Almeida

24/09/2015 - 11:58, + Mercado, Entrevistas

Djaimilia Pereira de Almeida, 33 anos, nascida em Luanda, é o mais recente fenómeno da escrita em português com Esse Cabelo, o primeiro livro.

Por Ana Maria Simões | Fotografia Reinaldo Rodrigues

Abrimos as hostilidades amenas com a pergunta: “O mau feitio do seu cabelo fez o seu feitio?” E obtivemos como resposta: “Sem dúvida, por acaso as reacções ao livro têm sido interessantes porque as pessoas que já leram o livro estão a tomar a história da Mila como a minha história tal e qual, e não é exactamente assim. Mas, em todo o caso, há uma grande justaposição. E no caso dela, tanto como no meu caso, eu diria que sim, diria que o mau feitio do cabelo, e a confusão particular deste cabelo, tornou-me a pessoa que sou.” E a conversa prossegue com uma citação do livro… da Djaimilia: “À estética o que é da estética, à moral o que é da moral – para no instante seguinte nos depararmos com a maneira como tal separação de forças não pode ter lugar.” Muito bem, isto quer dizer exactamente o quê? A escritora responde: “Por acaso essa passagem tem que ver com a pergunta que me fez, essa passagem tem que a ver com… Nós, de alguma forma, não nos podemos desligar das coisas pelas quais vamos passando, mesmo que o problema com o cabelo a certa altura fique resolvido, fique arrumado, a pessoa não pode dissociar-se da pessoa em que se foi tornando ao longo do tempo em que para si isso foi um problema, não pode descolar do caminho que foi fazendo. Não podemos decantar o líquido da mistura de que somos compostos.”
Sabemos, porque a escritora nos disse, que esta é a Mila, que estas memórias são da sua personagem. Mas são memórias, também as suas e da sua família. Perguntamos: “Quase que podia dizer que sei algumas coisas sobre si e outras tantas sobre a sua família, mas o que li é ficção, fale-me da realidade, a começar pela bisavó judia…” Djaimilia respondeu: “Como tudo o que é muito antigo na história de qualquer família, há uma grande confusão e a certa altura já não sabemos o que é verdade e o que foi inventado. Parecido com a maneira como se constrói um livro, de facto.A certa altura já não sei se a minha bisavó era judia, se o outro era maçon… Já não sei se era em Seia, se era em Castelo Branco, isto a partir das nossas memórias familiares, no entanto, todas estas pessoas partem de pessoas que alguma vez existiram.” E quem são elas? “É uma família de angolanos e portugueses. Portugueses que foram, a meio do século XX, para África trabalhar e que têm a particularidade de não terem regressado para Portugal na altura da independência. E nem todos regressaram. E depois tenho outro lado da família, que é um lado angolano, de pessoas que sempre viveram em Angola, nasceram em Angola, são angolanos, alguns dos quais foram emigrando para Portugal ao longo do tempo. É uma história com estes dois lados.” E também a história de um pai branco e uma mãe negra que não ficaram juntos para sempre. Da relação deles nasceu a relação da escritora com Luanda, onde a mãe ficou.
Passamos de novo para a conversa e temos a razão do livro. Diz Djaimilia: “É da minha relação com Luanda que emana o livro. Perceber que queria escrever este livro surge numa altura em que eu comecei a ter saudades de Luanda, depois de um longo período em que nunca pensei nisso. Sempre vivi em Portugal, desde pequena, nunca tive curiosidade, ia a Luanda de férias, ou não ia, e isso nunca me importou. E a certa altura, de uma maneira completamente inexplicável, ou não, se quiser pensar nisso, mas por uma conjugação de factores que são completamente exteriores à minha família, mas que têm que ver com referências e com a vida da minha própria curiosidade, comecei a ter saudades de Luanda. E depois comecei a perceber que as saudades que eu tinha eram saudades sobre um sítio do qual sabia absolutamente nada. E comecei a perceber que o que sei sobre Luanda, o que sabia sobre Luanda, é mais ou menos o que sei sobre a minha família. Por isso reajo com alergia quando ouço dizer que o livro é um bocado a história da minha família. Na verdade, o livro é escrito a partir de um ponto de vista de ignorância a respeito da minha origem.”
E continuamos com a história, uma história real, física, geográfica: “No ano passado, a certa altura, precisei de fazer uma longa viagem por Portugal em trabalho, por vários pontos do país. A certa altura, a meio da viagem, encontrei-me com um americano, completamente por acaso, um desconhecido com quem troquei algumas palavras, perguntou-me de onde eu era, e eu disse que era de Angola. Perguntou-me se eu lá costumava ir, e eu disse que não. E ele disse-me: e não tens saudades? E eu disse: por acaso agora comecei a ter. Ultimamente tenho tido. E ele disse-me: é normal, é um cliché, mas é verdade. Não sei explicar bem, mas sei que estas saudades não são apenas abstractas, concretizaram-se e materializaram em coisas concretas.” Tais como? “De um momento para o outro, comecei a ouvir só música angolana, a querer rodear-me de coisas angolanas, com muita curiosidade, uma curiosidade descontrolada.” Mais adiante admite: “Este livro pisca o olho a certas narrativas sobre o regresso, o regresso às origens, mas ao mesmo tempo ensinou-me a duvidar do heroísmo desse regresso às origens.”
Djaimilia Pereira de Almeida nasceu em Luanda em 1982 e cresceu nos arredores de Lisboa. Vive agora em Lisboa com o marido. Entretanto, doutorou-se em Teoria da Literatura. “Doutorei-me na Universidade de Lisboa num departamento chamado Programa em Teoria da Literatura, e o que fiz foi um trabalho sobre um sub-ramo da filosofia chamado Identidade Pessoal.” Numa recente crítica (do escritor e jornalista José Mário Silva) lia-se que “este seu inclassificável livro de prosa é uma espécie de prolongamento, ou de demonstração prática, dos conceitos abordados no seu trabalho académico”. A autora diz que é um pouco mais complicado do que isso. E explica: “Ao escrever este livro, eu comecei a aprender o que tinha apreendido na tese. Só agora que o livro está feito é que começo a perceber o que escrevi na minha tese ao longo dos últimos anos, é como se aquilo que apreendemos só se manifeste mais tarde. Eu aprendi muito sobre a minha tese ao escrever o livro.”
Uma das fotografias no livro (uma de duas) refere-se aos acontecimentos de Little Rock (a cidade dos Estados Unidos onde, na escola secundária, os estudantes afro-americanos só conseguiram frequentar as aulas sob forte protecção policial). É a imagem de uma jovem negra agarrada ao seu caderno rodeada por jovens brancas, em fúria. “A fotografia está lá como uma espécie de radiografia do ânimo e da alma da Mila [a personagem] num certo momento a respeito de um certo tipo de problemas. E está lá como radiografia não só da Mila como de uma série de outras pessoas que num certo momento se vêem numa certa situação, e isto independentemente do valor histórico da fotografia.”
O que é que espera dos leitores? “Tenho tido mais curiosidade em saber a opinião das pessoas que não conheço do que daquelas que conheço.” E o cabelo? “Não é um pretexto. É uma imagem, um fio condutor”, para reconhecer, naturalmente, que: “Eu seria outra pessoa se tivesse nascido com outro cabelo, e provavelmente não haveria livro.”
Para terminar, duas perguntas: Considera-se escritora? (Pausa.) “Certamente que não. Sinto-me mais confortável a imaginar que escrevi um livro. Não sei se mereço esse título tão imediatamente.” Sente-se portuguesa, ou angolana? (Pausa maior.) “Sinto-me um bocadinho de ambas as coisas. Sou as duas coisas. Sou portuguesa e sou angolana.”
O livro (da Teorema) chegou às livrarias portuguesas em 1 de Setembro, no mesmo dia em que falámos com a autora, naturalmente emocionada. É o seu primeiro livro, é “ a tragicomédia de um cabelo crespo que cruza a história de Portugal e Angola”.

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