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Gari Sinedima: “A nova geração tem potencial. A arte é uma grande fonte de receitas”

14/07/2017 - 12:18, + Mercado

Gari Sinedima canta com alma. Tem 24 anos e as ideias bem definidas sobre o caminho a percorrer.

Por Vânia Andrade | Fotografia Njoi Fontes 

Actualmente estudante de Ciências da Comunicação, o músico angolano Gari Sinedima nasceu na província do Namibe há 24 anos. A sua arte começa com a comunicação, desde muito cedo que gosta de observar, ouvir, subir nas árvores e perceber os sons emitidos pelos pássaros, entender as plantas, o porquê de as pessoas falarem como falam e andarem como andam.

A música nasceu dentro da educação cristã, quando aos 5 anos passou a fazer parte de um grupo coral. Muito novo, emigrou para a Namíbia, onde aprendeu várias línguas africanas.

Actualmente focado no seu single e em mostrar aquilo que tem feito ao longo destes anos, para além de participar em projectos variados, Gari Sinedima pretende lançar as suas músicas promocionais para se conhecer aquilo que está dentro de si, as músicas africanas, evangélicas com fusão de soul e jazz.

Disse que aos 5 anos já cantava no coro da igreja, porque decidiu seguir a carreira musical só em 2009?

Dei prioridade aos estudos para que pudesse elaborar músicas com qualidade, aprender com os livros, ir ao mato, conhecer e descobrir o porquê de falarem do jeito que falam e assim trazer mais valores para a música.

O que a sua música transmite à sociedade?

Para além dos valores, transmito a palavra do Senhor através do Evangelho. Portanto, a minha música é para ensinar, e nada melhor do que comunicar.

Que nome atribui ao seu estilo musical?

Faço música africana evangélica, fusão com soule jazz, porque é o que aprendi desde pequeno e não me consigo desviar do caminho que fui educado a seguir.
Piluca, com a participação do DJ Djeff Afrozila e Silyvi, foi um sucesso nacional.

Qual foi o impacto que essa música teve na sua carreira?

Essa música não está registada na minha autoria, mas fui eu que escrevi. “Piluca” significa “dança” em Umbundo. Para minha surpresa, tornei-me conhecido não apenas em Angola, mas em outros países de África também. De facto, deu uma explosão na minha promissora carreira, que ainda está no início.

Quando é que se apercebeu de que tinha consigo o dom musical?

Em 2009, já a viver em Luanda, tive a oportunidade de conhecer um músico no colégio onde estudava, sem que me apercebesse, ele ficava a ouvir-me cantar e apreciava ouvir a minha voz. Num belo dia, ele dirigiu-se a mim e pediu-me para nunca mais parar de cantar, e foi o que aconteceu.

Para além de ser estudante e músico, o que mais faz? Vive da música?

Eu diria que vivo da graça. Sustento os meus estudos, pago a renda da casa onde vivo temporariamente, uma casa de passagem só para os estudos que fica mesmo ao lado da universidade, e, com o pouco que tenho, ajudo as pessoas.

Porquê uma graça?

Porque eu não cobro nada nas minhas actuações, não tenho um cachet. Eu simplesmente espero que me dêem alguma coisa e, por incrível que pareça, ganho mais. Não me prendo à expectativa de ganhar mais ou menos que aquilo que me é dado pelas pessoas, então eu faço de graça e espero de graça. Aprendi muito cedo numa passagem bíblica que diz o seguinte: “De graça recebestes, de graça dai”, e com isso tenho sabido gerir o pouco que ganho.

Tal como todos os músicos, deve ambicionar lançar a sua primeira obra discográfica. Quais são as suas expectativas?

Almejo lançar o disco, sim, e estou aberto a projectos, principalmente por estar na fase final dos meus estudos superiores terei mais tempo livre para ir a Cabinda, ao Menongue, por exemplo, para saber o que essas pessoas falam, como falam e transportar isso para a música.

Quem serão os participantes, e que estilos musicais marcarão presença na obra?

As pessoas com quem eu lido, com quem eu trabalho, têm-me servido como escola, aprendo com elas, portanto, todo o mundo com que eu lido vou trazer para a minha musicalidade. Pretendo fazer um disco angolano, com matrizes angolanas, aliás, é o que já tenho feito.

De onde surgem as suas inspirações?

Inspiro-me cá dentro, no que nós vivemos. Por exemplo, eu gosto muito de desenvolver cânticos nacionais, ouvindo as zungueiras, nos cobradores dos táxis, as crianças, ou seja, tudo o que eu oiço no dia-a-dia trago para a música, por serem mensagens, signos que, ao descodificá-los, acabam tendo grande importância para o receptor.

O que é que acha do mercado da música nacional?

A nova geração tem potencial artístico, mas ainda falta muito para ser um mercado desenvolvido. A nossa arte, na verdade, está a precisar de inovação, e de que se aposte na formação dos fazedores da arte, só com formação em áreas específicas nós poderemos ver um crescimento notável do mercado. Eu penso que, se nos unirmos, e se o Estado apostar na formação dos artistas e os apoiar, nós teremos uma arte que até vai ter impacto no próprio PIB nacional, isso porque a arte é uma grande fonte de receitas.

Para que tipo de ouvintes compõe as suas canções?

Eu sou do gueto, mas também já vivi muito tempo na cidade, e cresci no mato, portanto, conheço as três realidades, o meu público é do mato, do gueto e da cidade, eu canto para os que são desprezados (os que vivem no mato), para os que sofrem (os do gueto) e para as pessoas da alta sociedade.

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