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Hors la Loi: Um caminho paralelo para a liberdade

11/11/2016 - 11:00, + Mercado

Se o seu valor fosse barato, não teria tão grande significado, pelo contrário, sempre foi alto e por vezes é pago com sangue.

Por Cláudia Simões

claudia.simoes@mediarumo.co.ao

O que é a liberdade? Por definição, ausência de submissão, possibilidade de agir por livre arbítrio, sem querer discutir semântica, pois não é o foco desta secção, é, entretanto, o tema principal do filme desta semana, Hors la Loi (Fora da lei), de 2010, uma narrativa histórica que mostra uma faceta do passado colonial de França na Argélia e que provocou protestos durante o Festival de Cannes. A polémica sobre o filme, financiado parcialmente pela França e que compete em Cannes pela Argélia, diz respeito ao massacre de centenas de argelinos em 8 de Maio de 1945 em Sétif por agentes imperialistas franceses, uma sequência que dura apenas seis minutos no filme.

A película realizada por Rachid Bouchareb conta a história da luta pela libertação argelina por meio da vida de três irmãos, Massoud (Roschdy Zem), Abdelkader (Sami Bouajila) e Saïd (Jamel Debbouze).

No início, Rachid Bouchareb apresenta-nos o cenário de uma Argélia dos anos 1920. A vivência dos irmãos, ainda pequenos, sendo obrigados a abandonar a casa que os viu nascer por forças colonizadoras.

O azar não parou por aí, perdem o pai no massacre de Sétif em 1945, numa altura que o sentimento anticolonial tinha crescido com fim da Segunda Guerra Mundial, e logo depois são expulsos mais uma vez do país. A família vê-se separada.

Alguns anos mais tarde, reencontram-se agora adultos em França. Abdelkader, o veterano que combateu na guerra da Indochina; Massoud é líder do movimento independentista argelino FNL (Frente Nacional de Libertação) radicado em Paris, e Said ganha dinheiro com lutas de boxe e casas nocturnas. Massoud convence Abdelkader a unir-se à causa revolucionária, Said vê as coisas de forma diferente, só quer fazer dinheiro. A divergência entre ideias causa conflito fraternal.
Fora da Lei apresenta também um drama familiar, tendo a situação política de Argélia como pano de fundo, sem esquecê-la por completo.

As personagens na trama logo aprendem que as suas convicções têm um valor a pagar, neste caso, o derramar de sangue foi inevitável. Massoud sente o peso, duas vezes, quando a morte bate à porta. Perde o seu irmão Abdelkader numa emboscada, e Hélene, mulher pela qual se afeiçoou, numa explosão. Independentemente disso, Massoud mantém-se firme mesmo que abalado. A noção da sua mortalidade, tendo em conta a causa que defende, é notória. “Posso não ver a independência da Argélia, mas lutarei por ela”, diz ele numa das cenas no decorrer do filme.

Nesse mesmo espírito, não foi por acaso que Fora da Lei foi a escolha da semana, à luz da comemoração do 41.º ano de independência de Angola. Não só pela temática, mas Argélia e Angola partilham a mesma história. Ambos os países sob regime colonizador lutaram pela sua autonomia e afirmação de identidade. Com a diferença de que a Argélia, última colónia de França no Norte de África, alcançaria primeiro a independência, em 1962, através dos Acordos de Évian.

Um ano antes, o País galgava os passos para o mesmo caminho, com o início da luta armada, marcado a 4 de Fevereiro de 1961. Em 1963, Argélia torna-se a “Meca das revoluções”, integrava o Comité de Ajuda aos Movimentos de Libertação orientado pela Organização de Unidade Africana, para o apoio aos Estados africanos na defesa contra o colonialismo em África, por meio de distribuição de infra-estruturas, treino militar, apoio financeiro, compra e fornecimento de armamento.

Angola e Moçambique foram desses países beneficiados e, como dizem popularmente, se assim o estrangeirismo me permitir… “and the rest is history”.

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