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Jóias com história

15/10/2015 - 11:41, + Mercado, Life & Arts

O valor de uma jóia é determinado pela matéria preciosa intrínseca e pela singularidade da história de quem a teve junto à pele.

Por Ana Maria Simões | Fotografia Cedidas por Sotheby’s

A Sotheby’s, num leilão em Nova Iorque, permitiu que as jóias que pertenceram a uma das mulheres mais bonitas do século XX, a socialite americana Dolores Sherwood Bosshard, passassem (por uns quantos milhares de dólares) para as mãos de outras mulheres ou de coleccionadores que, mais do que uma jóia, querem e gostam e se emocionam com uma jóia com história.
Há excentricidades várias que elevaram o preço de uma jóia usada muito para além do seu valor físico, justamente, porque foram pertença de alguém que tem um lugar na história – de uma forma ou de outra ou pela beleza física. E podíamos estar a falar da bracelete de ónix e diamantes em forma de pantera, desenhada por Jeanne Toussaint para Cartier, em 1952, a pedido dos duques de Windsor, usada pelo exemplo de “elegância e sofisticação” que foi Wallis Simpson e pela qual Madonna terá pago uns 6,8 milhões USD (a 6.ª jóia mais cara do mundo). Definitivamente, o valor de uma jóia faz-se da matéria preciosa intrínseca e da sua história. Bulgari, Cartier, Van Cleef & Arpels, Tiffany & Co. ou Harry Winston criaram jóias incríveis que se tornaram incrivelmente valiosas porque eternizadas por celebridades várias da aristocracia ao cinema, ou mesmo por actrizes feitas princesas.
Antes de falarmos das jóias recentemente leiloadas em Nova Iorque (nas páginas), pela Sotheby’s, vamos falar da mulher a quem pertenceram. Dolores Sherwood Bosshard (Guinle) foi casada com o playboy brasileiro Jorge Guinle, o fundador do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, ainda hoje um hotel de charme e requinte onde o tempo parece suspenso. Bosshard sentou-se à mesa e foi íntima da realeza, de estrelas de cinema, de magnatas e de outras mulheres igualmente bonitas e ricas. Tinha uma colecção de jóias primorosa, com jóias feitas a partir de outras jóias de pessoas igualmente ilustres. O que a Sotheby’s levou a leilão são as designadas “jóias diurnas” de Dolores Sherwood, que nasceu em Nova Iorque e casou quatro vezes. No casamento com Jorge Guinle, teve como padrinho de casamento Errol Flynn. A seguir casou-se com George Litman, um multimilionário americano que vivia em Paris e de quem se divorciou em 1964, para se casar com o príncipe italiano Mario Dei Ruspoli (um clássico!). Quando se casou com Ruspoli, em Nova Iorque, a morada de Dolores era o Hotel George V, em Paris. O casamento acabou em 1971, em divórcio (tal como dizíamos, um clássico!). Passado algum tempo, a milionária senhora casa-se, pela quarta vez, com Peter Bosshard. Podemos imaginar como foi inebriante a vida desta mulher, um esplendor e brilho que perpassam pela sua colecção de jóias.

My Love Affair with Jewelry
Já neste século XXI, assistimos a leilões de jóias que vinham acompanhadas do certificado de uma história impossível, por definição… de amor. Começamos com Elizabeth Taylor e pela sua intensa história com Richard Burton, onde a paixão, o álcool e as jóias se misturam num tumulto inquietante. Conheceram-se e amaram-se ao ritmo das personagens que protagonizavam – Cleópatra e Marco António. E logo aí os indícios da tragédia que no amor se transfigurava num fim. Ficaram as jóias e o livro que a actriz escreveu com o significativo título My Love Affair with Jewelry.
Há ainda uma outra história que se conta e que diz que a única palavra italiana que a actriz sabia era Bulgari(!). Entre as jóias da sua brilhante colecção estavam, de facto, muitas peças do joalheiro italiano Gianni Bulgari. No entanto, a mais incrível e a que assume um destaque especial é La Peregrina, um colar de rubis, diamantes e pérolas, entre elas a mais perfeita pérola do mundo, absolutamente simétrica. Uma jóia que data do século XVI , foi o presente de casamento de Filipe II de Espanha (e I de Portugal) a Maria Tudor, a mulher. Perdida em Espanha, é recuperada em França e vendida por Napoleão III ao segundo marquês de Abercorn. Mantida pela família até 1969, quando o actor irlandês a compra para oferecer a Elizabeth num Dia de São Valentim.
Outra das jóias com história da actriz é o “diamante Elizabeth Taylor”, o primeiro que Burton lhe ofereceu – ele que lhe oferecia diamantes só “porque estava um belo dia” – e que a actriz usava no dia-a-dia (já imaginou a trivialidade de ir às compras ou tomar um chá com uma amiga com um diamante de 33,19 quilates no dedo?). “O meu anel dá-me uma estranha sensação de beleza. Com os reflexos de vermelho e branco e azul e roxo, e assim por diante, na verdade, é como se sussurrasse feliz, na sua espécie de vida”, disse um dia Liz, que, paradoxalmente, não viveu a mais feliz das vidas, mas nenhuma é… totalmente.
Uma outra vida feita de tragédia e amor e jóias foi a de Soraya Esfandiary-Bakhtiari, filha de um nobre iraniano e de uma alemã, que se casou aos 19 anos com o xá da Pérsia, Reza Pahlevi. A impossibilidade de gerar herdeiros pôs fim ao casamento. Da história dos dois ficaram as memórias e as jóias leiloadas após a morte da princesa, que morreu no exílio, em Paris. Entre as jóias leiloadas está um magnífico anel com um diamante de 22,37 quilates Harry Winston e rubis e safiras em jóias Van Cleef & Arpels e Bulgari.
Outro casamento, outra história – que não sei se podemos dizer de amor – ainda assim, com espaço para jóias… leiloadas já este ano, pela Christie’s, em Genebra, por cerca de 400 mil USD. Estamos a referir-nos ao conjunto de brincos e anel Van Cleef & Arpels que Aristoteles Onassis deu, em 1968, no dia do casamento, a Jacqueline Kennedy.

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