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Lição de um filme: Aconteceu no Oeste

22/12/2016 - 12:19, + Mercado, Life & Arts

Retrato de uma era de progresso em que corrupção, vingança, poder e dinheiro ditam as regras de um contexto decadente, em jeito de luta pela sobrevivência.

Por Estêvão Martins

estevao.martins@mediarumo.co.ao 

A obra-prima de um dos realizadores da história do cinema mundial, especialmente do western spaghetti, o aclamado Sergio Leone, que se notabilizou com a famosa “trilogia dos dólares”.

Aconteceu no Oeste ou Era Uma Vez no Oeste é uma produção de 1968 que se estabeleceu como uma metáfora para o começo da modernização e o fim do mundo mítico do velho Oeste dos Estados Unidos da América, nos finais do século XIX. Assim assenta a base da narrativa desta história – era a chegada da civilização e do progresso à fronteira rural, sob a forma da linha-férrea transcontinental. A obra é também considerada um canto de despedida de um estilo de vida característico de uma época distinta da sociedade americana.

Nas palavras de uma personagem do filme, “algo que tem que ver com a morte”. Mas o verdadeiro conceito residia em contrastar a ficção popular do “era uma vez…” com as bases históricas, lamentando o fim da era gloriosa do western. Por alguma razão se diz que o filme marca o fim de um período e de todos os estereótipos dos westerns.

Aconteceu no Oeste está repleto de referências de outros filmes como Johnny Guitar, Shane, O Homem Que Matou Liberty Valance, A Desaparecida, entre outros. Depois de combinar estas componentes da mitologia do Oeste, Sergio Leone começou a demoli-las uma a uma, seguindo o guião.

Leone inicia o filme com uma cena que resume todo o seu estilo, mostrando uma velha estação de caminho-de-ferro que é protegida por um idoso e uma índia, com a mesma habilidade e perfeccionismo com que costumava construir as cenas antológicas, tal como nos habituou noutras produções. Nesta estação está também o triunvirato – três pistoleiros à espera de alguém. Leone capta as expressões de cada um deles de forma singular, e, em vez de se apoiar em falas, sentimos o tédio através das expressões. Durante essa cena, é importante notar a falta de diálogo entre os três, cujo espaço é preenchido por vários sons ambientes e um tanto hilariantes, o moinho, uma gota que cai no chapéu de um dos homens, e uma mosca que incomoda um dos cowboys, pousando-lhe repetidamente na cara e nos lábios.

A introdução do filme serve também para apresentar a personagem mais enigmática da narrativa –o frio e determinado Harmónica (Charles Bronson), que leva sempre consigo uma gaita, envergando uma expressão séria e focada nos seus objectivos. Mas nem por isso ficam abafadas as actuações de Henry Fonda, Claudia Cardinale, Jason Robards e Gabriele Ferzetti. À volta destas estrelas do cinema, nos papéis da ex-prostituta Jill McBain (Claudia Cardinale), do bandido Cheyenne ( Jason Robards), do pistoleiro de aluguer Frank (Henry Fonda), está o misterioso Harmónica. Os quatro cruzam-se quando Morton (Gabrielle Ferzetti), um barão ferroviário, contrata Frank para assassinar Brett McBain (Frank Wolff) e os filhos, donos de terras que se iriam valorizar consideravelmente com a chegada da ferrovia. Porém, o pistoleiro decide massacrar a família e depois planta evidências incriminando Cheyenne. Nas cenas seguintes, Jill chega à cidade, vinda de Nova Orleães, e revela que era casada com o falecido Brett McBain e, portanto, as terras ainda tinham dono. Entretanto, Harmónica aparece e, junto com Cheyenne, ajuda-a a manter sua propriedade, e com isto dá-se um ajuste de contas com Frank, que no final revela o motivo da vingança num duelo entre eles.

A trama aborda alguns dos temas muito presentes em sociedades moralmente decadentes, como por exemplo a vingança e a ambição pelo dinheiro, além de mostrar a corrupção que envolvia todo o processo de construção das ferrovias. Nesse decadente Oeste, vemos a luta pela sobrevivência num lugar cheio de violência. Aqui, a corrupção e o poder do dinheiro são representados por Morton, um empresário da companhia ferroviária. Há uma cena memorável em que este diz a Frank, um mercenário cruel (Henry Fonda), que existem várias armas… e atira um maço de notas para cima da mesa.

A banda sonora é composta pelo sempre competente Ennio Morricone, o qual como já noshabituou, mistura o áudio com o ambiente envolvente, auxiliado pela lentidão da construção da cena, ajudando a criar um clima crescente de insuportável tensão.

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