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Lição de um filme: Os Homens do Presidente

04/11/2016 - 16:00, + Mercado, Life & Arts

Esta é a mais devastadora história de investigação do século XX.

Por Pedro Fernandes

Os Homens do Presidente(All the President’s Men) é um drama americano de 1976. O filme sai dos estúdios da Warner Bros, baseado num caso ainda muito recente na sociedade norteamericana de então – o caso Watergate – o escândalo político ocorrido entre 1972 e 1974 nos Estados Unidos da América (EUA) que, ao vir à tona, acabou por culminar com a renúncia do presidente americano Richard Nixon, eleito pelo Partido Republicano.

Curioso é que, nesta semana, o actual candidato republicano às eleições nos EUA, agora em Novembro, o bilionário Donald Trump, tenha citado o caso no recente discurso, durante um meetingcom alguns dos seus apoiantes em Clive, região metropolitana de Des Moines, no Iowa: “O escândalo dos e-mailsde Hillary Clinton é pior que o Watergate.” Jogos políticos à parte, a verdade é que a obra de ficção do realizador Alan J. Pakula é considerada a mais devastadora história de investigação do século XX.

O realizador Alan J. Pakula levou para as telas toda a trama vivida pelos jornalistas Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Berstein (Dustin Hoffman) do Washington Post.No filme, o primeiro contacto entre Bob e Carl é quando este último refez o texto do novato. Há um confronto na base da arrogância, mas Robert acaba por assumir que sua redacção não era tão boa assim. No mundo jornalístico, não basta escrever bem, mas saber o que escrever é fundamental. Como advertiu o editor a Bob, “cuidado com o que escreve’’. Ou seja, a escrita é uma arma que pode ser favorável ou não ao jornalista. É preciso saber manuseá-la com precisão, não há espaço para falhas. Um thriller emocionante onde acompanhamos a angústia dessas personagens em combate contra, mais do que um presidente vilão, todo o sistema que se apropria do Governo para obter benefícios egoísticos – uma rede de espionagem e lavagem de dinheiro.

Tudo começa num patamar muito pequeno, na esfera política americana. Uma invasão do edifício Watergate, por cinco aparentes ladrões. Um acto que não mereceria mais do que páginas sobre casos policiais. Mas ganhou, com o tempo, uma proporção inicialmente não imaginada.

O filme é sem dúvida um excelente tónico, que nos leva a relembrar o quanto custam a luta pela liberdade nacional e todas formas de liberdade. Não é por acaso que seja um dos filmes mais sugeridos quando o assunto é a luta pelas liberdades. O foco desta longa-metragem está na batalha pela liberdade de expressão. Fica ainda a lição de como deve ser o verdadeiro jornalismo investigativo. Principalmente em épocas em que a comunicação social e o poder andam de mãos dadas, para garantir seus próprios privilégios. Por isso, o filme é considerado paradigmático para o estudo das teorias do jornalismo contemporâneo. Podemos afirmar que a relação de fontes é realmente tremenda, a câmara exibe uma lista com dezenas de pessoas, cujos nomes são metodicamente rabiscados sempre que visitados pela dupla.

Inicialmente, as informações para a trama surgiram graças a um antigo assessor e braço-direito de Nixon, G. Gordon Liddy, advogado pertencente à comissão para a reeleição, e James McCord Jr. Ambos tinham planeado a operação de espionagem contra os democratas em 1972. Porém, é impressionante, durante todo o caso, a busca desses jornalistas pelas fontes, os quais investigaram incessantemente, de maneira obsessiva, todos os prováveis suspeitos de estarem ligados ao caso Watergate. Até a redacção em que se passa o filme é a original do The Washington Post. Por todas as razões, o filme mereceu as oito nomeações e os quatro Óscares que conquistou: melhor actor secundário, melhor argumento adaptado, direcção de arte e sonoplastia.

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