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Lição de um filme: A última caminhada

08/02/2017 - 14:03, + Mercado, Life & Arts

O que seria do perdão se não houvesse a culpa? E que orgulho teriam os acertos se não existissem os erros? Eis a questão…

Por Líria Jerusa

liria.jerusa@mediarumo.co.ao 

Há algum limite para aquilo que se deve perdoar? Está é a pergunta que soa, quando me deparo com situações como aquela que é narrada no filme Dead Man Walking, Última Caminhada, segundo versão portuguesa.

A história deste filme leva-nos a pensar, novamente, sobre um dos temas morais mais debatidos desde sempre: “a pena de morte” e de quanto vale a vida humana. Uma questão que se coloca é se pode, ou não, haver indulto para certos crimes.

O assunto polémico foi e é alvo de muitos livros, argumentos e dissertações sobre os prós e contras desta prática, sendo que sobre o assunto já desfilaram diversas apelações. Há quem defenda mesmo tal prática, pela repugnância do crime. Outros ainda alegam que esta aplicação é um exercício de autodefesa para a sociedade.

Por outro lado, existem aqueles que apontam tal severidade como um crime do próprio Estado, que usa o seu poder, acabando por eliminar uma vida que poderia se tornar diferente caso lhe fosse aplicado um outro castigo. Pessoas há que acreditam ainda que a vida humana é inviolável, não podendo um sistema de justiça, que se preze, desrespeitar este princípio. Pelo sim ou pelo não, este é um tema fulcral, e a sua discussão parece ainda estar longe do fim.

História verídica

Serve toda esta dissertação para descrever um filme excepcional baseado numa história verídica de 1995, que relata a relação que se estabeleceu entre uma freira, Helen Prejean (personagem vivida por Susan Sarandon) e um condenado à morte, Matthew Poncelet (Sean Penn), nos dias que antecederam a sua execução.

Poncelet está no corredor da morte, por ter sido dado como culpado do homicídio de um casal de adolescentes, da qual se declara inocente. Porém, Helen Prejean, uma freira, ao receber a carta de Matthew, interessa-se pelo caso do jovem condenado e decide ajudá-lo, quer prestando-lhe apoio espiritual, quer contratando um advogado para evitar a execução.

Todo este empenho é questionado pela família das vítimas, que não compreendem por que motivo uma freira decide associar-se a um criminoso tão hediondo.

No final, Poncelet acaba por confessar o crime e arrepender-se, mas não se safa da pena capital, que é assistida pelo outro lado da janela por Helen e pelas famílias do criminoso e dos adolescentes assassinados por ele. Um filme digno de boas reflexões sobre o valor de uma vida e ainda sobre as cicatrizes e as marcas irreparáveis que a morte deixa para aqueles que ficam. Realça-se ainda a destruição de uma família e a dor incomensurável dos pais que são obrigados a enterrar os filhos, contrariando a lei da natureza (os filhos enterram os pais).

É notória ainda a questão sobre a utilidade da religião na defesa de posições antagónicas e ainda de como Tim Robbins deixa claro que não há diferenças entre as três famílias em causa (dos dois adolescentes mortos e a do assassino executado).

O facto revela que todos são vítimas de uma sociedade onde o medo e a violência estão enraizados e impera uma lógica de retribuição penal para quem desafia esta linha.

A Última Caminhada é um filme que nos dá uma rica lição sobre a decisão da viver ou morrer, sobre as nossas escolhas, o peso e a repercussão que elas podem ter, além da injustificação da culpa e o preço da vida. Uma última questão. Poderá a decisão de continuar ou deixar de viver estar entregue nas mãos de simples mortais?

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