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Lição de um filme: O encouraçado Potemkin

31/10/2016 - 15:40, + Mercado, Life & Arts

Uma obra universal que retrata a injustiça e mostra o poder colectivo que há nas revoluções populares.

Por Njoi Fontes

A obra mais aclamada de um dos realizadores mais inovadores e pioneiros da história do cinema mundial, Serguei Eisenstein (1898-1948). Lançado em 1925, o filme é parte de um retrato da revolta de marinheiros no navio de guerra Bronenosets Potyomkinde 1905, que inspirou o realizador para criar uma obra universal que fala contra a injustiça e sobre o poder colectivo que há nas revoluções populares.

O Couraçado Potemkin foi um marco para a história, porque celebra o início do regime de governo dos bolcheviques (“os maioritários”), na antiga União Soviética (URSS), depois da revolução socialista de 1917, que derrubou a autocracia vigente.

O filme tornou-se uma referência obrigatória no cinema, porque foi pioneiro em termos da utilização da montagem, trazendo o efeito de continuidade na narrativa. Uma técnica bastante complexa para o contexto e à época em que foi produzido. Para tal, o realizador utilizou a teoria da montagem dialéctica, que busca retratar emoções através da captação e edição de imagens, marcadas com muito expressionismo.

Serguei Eisenstein foi uma figura importante para a indústria cinematográfica soviética e para o mundo da sétima arte. Ele foi o responsável por este salto. Quando ele coloca dois planos justapostos, esses planos têm significado aparentemente oposto, mas que está relacionado com uma imagem ou ideia latente. Ele foi o precursor da montagem ao colocar esses planos que mostram a personagem a olhar, por exemplo, para uma direcção e de seguida, outro plano surge, mostrando o local para onde a personagem está a olhar. Serguei mudou os conceitos e difundiu as possibilidades da edição cinematográfica.

O enredo está dividido em cinco partes (uma forma de montar a história, usada ainda hoje por vários realizadores, como é o caso de Quentin Tarantino), sendo que tudo começa no navio onde aconteceu uma rebelião. O motim seguiu-se até às ruas de Odessa, onde se formou a manifestação, logo após o desembarque da tripulação. Como ocorre geralmente neste tipo de manifestações, as autoridades insurgem-se contra os manifestantes.

A quarta parte do filme é a mais famosa,The Odessa Staircase (A escadaria de Odessa). Neste capítulo, há uma cena em que o exército do czar está a enfrentar os manifestantes nas famosas escadas da cidade (ucraniana) de Odessa. Nesse momento, em que todos descem às pressas, uma mãe cai sobre o carrinho de bebé, que continua a cair desgovernadamente pelas escadas abaixo, enquanto acontece o tumulto em simultâneo. Esta cena é das mais conhecidas do filme, porque representa a hierarquia do poder. Tanto, que serviu de referência para outros, como, por exemplo, Os Intocáveis, de Brian de Palma, que faz uma referência directa a esta cena. A escada é por si um simbolismo muito forte e serve de metáfora em outros filmes, como, por exemplo, no filme O Artista, de Michel Hazanavicius.

O povo de Odessa pagava desta forma pela simpatia demonstrada pelos revoltosos do couraçado Potemkin, que acabara de atracar neste porto do mar Negro. Apesar de toda a violência da época, o massacre em Odessa não aconteceu. Esta parte do filme foi associada à rebelião de Junho de 1905 e à Revolução de Outubro, para aumentar o impacto dramático do filme.

O filme é muito criticado pela forte mensagem socialista, por ter sido uma encomenda do governo bolchevique. Por isso é considerado por muitos uma obra panfletária. Afinal, Serguei foi um participante activo da revolução de 1917, que instaurou o comunismo na ex-URSS. Podemos não concordar com a ideologia que o filme defende, mas não há como negar que Eisenstein a transmite com muita força. Diz-se que Serguei Eisenstein aprendeu as suas técnicas de realização com o cineasta teórico Lev Kulechov (1899-1970), um dos fundadores da primeira escola de cinema do mundo, a Moscow Film School.

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