Mercado

Manuel Victoriano Sumbula: “Queremos ser uma força exportadora no continente africano”

07/07/2016 - 10:19, + Mercado, Entrevistas

O presidente da Associação das Indústrias de Bebidas de Angola orgulha-se das conquistas do sector, mas sofre com a falta de matérias-primas essenciais à produção e com as falhas no abastecimento de água às populações.

Por Estêvão Martins| Fotografia Walter Fernandes

 Como caracteriza o estado actual do sector das indústrias de bebidas no País?

A nossa indústria de bebidas tem hoje uma capacidade instalada amplamente suficiente para satisfazer – em quantidade e em qualidade – o consumo nacional, resultante de um investimento global nos últimos anos que estimamos em mais de 2,5 mil milhões USD. Esta indústria apresenta também um potencial muito grande de diversificação económica adicional, pela implantação de indústrias complementares com actividades adjacentes, como sejam as embalagens (latas, vidro, PET, cartão), o açúcar ou ainda a área agro-alimentar. Actualmente, vemos com preocupação a manutenção dos postos de trabalho e a sustentabilidade da nossa indústria, por via de a importação de matérias- -primas e outros materiais e serviços indispensáveis à produção se encontrar numa situação de dependência da disponibilidade de divisas para honrar os compromissos comerciais. É crítico encontrar soluções para mitigar a situação em que nos encontramos, evitando assim comprometer todo o investimento e progresso alcançado neste sector nos últimos anos. O País não precisa de regressar a uma dependência de importações de produto acabado e colocar em causa um dos sectores que mais se desenvolveram em Angola. O estado actual do sector das bebidas merece atenção, sendo das indústrias mais desenvolvidas do nosso País, contando com mais de 30 empresas que empregam directamente mais de 14 mil pessoas, às quais há que acrescer 45 mil postos de trabalho indirectos.

Quantas empresas integram a Associação das Indústrias de Bebidas de Angola (AIBA)?

A associação foi fundada com 12 empresas e hoje contamos com mais 15 empresas associadas e mais algumas em processo de adesão à associação. Actualmente representamos cerca de 80% do sector.

Quais são as principais dificuldades com que o sector se debate nesta altura?

Fruto das dificuldades em garantir o nível adequado de divisas à indústria, vivemos falhas generalizadas e prolongadas no abastecimento de água engarrafada, cerveja, refrigerantes e sumos às populações, situação que muito nos preocupa, dado que se trata de bens de consumo de base da população. Considerando o caso específico da água, acreditamos que uma ruptura tão importante no abastecimento é também uma causa de saúde pública face até a produtos que não cumprem as exigências legais de adequação ao consumo humano, por exemplo. É nestas alturas, em que o mercado se ressente na oferta, que aparecem produtos que não deviam ser disponibilizados, pois não obedecem a critérios de salubridade ou certificação. Às matérias-primas que vão faltando, sucede-se uma racionalização de linhas de produção que tem resultado no aumento da racionalização dos recursos humanos, avolumando assim uma preocupação nossa em não poder manter ou aumentar o investimento na formação de funcionários.

Como pensam, por exemplo, ultrapassar a falta de divisas no mercado para o suporte das importações?

A AIBA tem mantido reuniões com o executivo, explanando e sensibilizando para a actual e difícil situação que se vive. Mais do que um sector em dificuldades, há que ver mais além para os problemas de abastecimento do mercado como, por exemplo, a água, que pode constituir um problema de saúde pública, e a questão do emprego, pois a racionalização dos recursos tem efeitos indesejáveis, como a não contratação. A indústria mantém uma postura de motor social nas comunidades onde se insere, com emprego directo, e nas áreas económicas de emprego indirecto. A indústria de bebidas de Angola é das mais desenvolvidas, e, com as dificuldades nos pagamentos e consequente falta de divisas, impor uma recessão é regredir e ignorar o esforço público e privado em prol do desenvolvimento nacional. É nestas alturas que, para além de qualquer teoria, devemos entender que é necessário sermos parte do desenvolvimento, sustentando também a parte de sacrifício que nos cabe, e promovendo a manutenção da estabilidade de emprego na sociedade. Já propusemos que se aproveitasse mais a capacidade nacional instalada e se equilibra-se a disponibilização de divisas de forma mais equitativa entre os produtos importados e a matéria-prima tão necessária à produção nacional.
e encontrar soluções, têm de se manter vivos. É isso que estamos a fazer. Aliás, olhando para o tecido empresarial em geral, acredito que é uma missão da maioria.

Numa altura de crise, em que se fala da paralisação de algumas fábricas devido à crise, surgem outras indústrias de bebidas. Estamos a falar da cerveja Tigra e Bella, respectivamente. Como explica o facto?

Um mercado vivo nunca se satura. Os consumidores são cada vez mais exigentes, atentos, precisam de atenção e inovação. O espaço de mercado cresce sempre, mas os produtos têm de se afirmar, e é aí que se conquista ou se perde. Nestas últimas décadas assistimos ao nascimento de muitos produtos, mas à sobrevivência de poucos. Na área alimentar, sabemos todos que há os clássicos – e mesmo esses sempre sujeitos à tensão de quem compra, e as inovações, nem todas vingam. Quantos mais novos projectos aparecerem, mais dinâmico se torna o mercado, mais ganha o consumidor e as próprias marcas que superam a prova, pois tornam-se mais fortes, mais reconhecidas. Muitos dos projectos que vimos hoje a nascer são na sua maioria projectos que estavam já a ser planificados há algum tempo e que hoje se concluem.

Qual é a mais-valia que essas novas indústrias podem trazer ao já fragilizado mercado de bebidas?

O aparecimento de novas marcas é sempre uma mais-valia para o mercado, até porque cria maior capacidade de escolha no consumidor.

Acredita que ainda temos mercado para o aparecimento de novas cervejeiras?
O mercado tem a sua própria maneira de se regular. Atendendo a que a situação de crise que se vive em Angola é essencialmente conjuntural, há sempre a possibilidade de adaptação das fábricas aos vários desenvolvimentos do próprio mercado, e nada nos diz que no próximo futuro todas estas fábricas não estejam a trabalhar em pleno.

Passado mais de um ano desde a constituição da associação, quais são os passos concretos já dados em prol do desenvolvimento da mesma?

Felizmente, a associação, sendo tão jovem, tem cumprido o seu dever, e eu, como presidente, sinto o orgulho do dever cumprido: dar corpo e voz ao sector industrial que mais se desenvolveu em Angola. Promover uma visão de futuro para a indústria como um todo, sermos parte activa no desenvolvimento do País e sermos úteis, junto do Executivo, no planeamento para este sector económico tão vital.

Até que ponto a associação cumpriu com os objectivos que nortearam a criação da AIBA?

Com mais adesões, com o facto de mantermos todas as que estiveram na génese, o facto de sermos recebidos pelo Executivo, demonstra – sem que sejamos nós a dizê-lo – que cumprimos os objectivos iniciais e tornámo-nos mais exigentes, queremos prosseguir, ir mais longe, não só na defesa do sector, mas, sim, apresentando soluções aos problemas e criando horizonte de futuro para gerações vindouras, afirmando esta indústria como uma das maiores no País e com capacidade de exportação. O nosso objectivo é sermos uma fonte de riqueza para Angola, levando as nossas marcas além-fronteiras!

Quais são os projectos da associação com vista a tornar o produto competitivo, sobretudo a nível da África Austral a curto/médio prazo?

Já referi que a capacidade instalada no universo dos associados está a ser apenas usada pela metade. Hoje temos a capacidade para abastecer o mercado nacional e exportar. Os investimentos e as políticas nacionais têm criado estruturas que permitem, por vários meios de transporte, tornar real o aumento da circulação de produtos para além-fronteiras. Estamos a manter o contacto com associações congéneres de modo a alargar mercados, e adequando a informação relevante aos nossos associados. Se hoje somos uma das indústrias mais desenvolvidas no País, queremos ser uma força exportadora no continente. Países vizinhos, mas também mais além. Estamos atentos às oportunidades e, conseguindo nós ultrapassar esta crise das divisas, estaremos a redesenhar a nossa geografia de mercado.

Qual é o vosso plano de actividades para este ano?

Temos vários objectivos em mente. Internamente, queremos ser um agente de auxílio ao sector, mantendo este saudável contacto com o Executivo e demais responsáveis empresariais, de modo a encontrarmos soluções para a situação que se vive, seja na falta de divisas que afectam matérias-primas essenciais para a produção e embalamento, seja na manutenção de postos de trabalho, factor vital para a estabilidade neste cenário de crise mundial. Externamente, queremos dar-nos a conhecer, queremos marcar presença em feiras internacionais, queremos assumir-nos enquanto parceiro de diálogo com o sector de bebidas em vários países, trocar experiências, beber do que se tem feito e conseguido e testemunharmos o tanto que se faz em Angola.

Qual é a capacidade do sector para responder à procura?

Vamos mantendo o mercado abastecido. Temos capacidade para o dobro. No entanto, a actual situação deixa-nos apreensivos quanto à capacidade de resposta num futuro próximo.

É sabido que é defensor da introdução de quotas de importação para o sector. Não teme que esta medida possa ter efeitos ao nível do desequilíbrio, e consequente agravamento dos preços das bebidas no mercado?
Não sou defensor pelo princípio da defesa nacional. Sou defensor pela consciência de que o sector tem uma capacidade instalada que deve ser aproveitada com reais ganhos para todos, para os consumidores pelo factor preço e para o tecido social e empresarial de Angola. Durante décadas, o País necessitou de importar diversos bens. Neste momento, o sector de bebidas é o que menos necessita de importação de produtos acabados. Somos, aliás, os maiores defensores de investimento, seja nacional ou estrangeiro, ajudando assim a que a diversificação económica seja, mais do que uma aspiração, uma realidade. Dar emprego, implementar tecnologia, formar recursos humanos, estes são pilares do desenvolvimento social, a meu ver.

Com a entrada de novos players no mercado, quais são os projectos com vista à exportação do produto, sendo que apenas a Cuca vem (vinha) sendo exportada, fundamentalmente para Portugal?

Há um aumento de produção em termos absolutos, o que não corresponde ao aumento de produção por empresa/marca. A situação das divisas é uma situação real. Os nossos associados olham para os mercados estrangeiros com apetência, sendo que estão a ser desenvolvidos esforços para colocar produto em mercados lá fora, com uma particularidade: não na vertente de inundar, mas pela distinção de ser um “made in Angola”, com qualidade, um produto-embaixador. Mas precisamos de garantir a produção dos nossos produtos para o alcance deste desiderato de forma sustentada.
Nesta altura de crise, qual é a relação que o sector mantém com o sector financeiro, nomeadamente os bancos e fundos de investimentos.
Somos uma voz e uma presença assídua, determinada e crente no sucesso do nosso sector. Temos sido activos e decididos em dialogar com a banca e temos tido uma reacção muito positiva. Sentimo-nos todos parte da procura por soluções que salvaguardem, essencialmente, a continuidade e a evolução dos nossos negócios. Aquém dos pontos positivos como seja emprego, o desenvolvimento de indústrias conexas, a contribuição na arrecadação de receita para o Estado, a formação, somos, nós e a banca, um negócio. Os negócios, para serem vantajosos, têm de se adaptar e encontrar soluções, têm de se manter vivos. É isso que estamos a fazer. Aliás, olhando para o tecido empresarial em geral, acredito que é uma missão da maioria.

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