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“Não faço parte da nova geração de músicos”

02/06/2017 - 10:23, + Mercado

Toti Sa’Med é uma referência da música popular angolana. Um jovem que não se considera parte da nova geração de músicos. Um ‘cota’ também não será. Tem que ver com a música, e não com a idade.

Por Vânia Andrade | Fotografia Carlos Muyenga 

O músico, guitarrista e produtor musical, que tem dado nas vistas desde o som da música popular urbana angolana à música popular brasileira, tem como grande referência artística o músico Paulo Flores. Toti Sa ‘Med na primeira pessoa.

Porque diz não ser um músico da nova geração?

Porque há uma nova geração que vem surgindo. Por exemplo, nós inspiramo-nos nos nossos cotas, como Paulo Flores, ele por si no André Mingas, Felipe Mukenga, e esses por sua vez inspiraram-se nos N’gola Ritmos, nos Kiezos, nos Jovens do Prenda, isso é um processo contínuo de inspiração mútua, o que acontece é que os novos talentos, os que estão agora a sair da adolescência, têm muita força, e eles é que são a nova geração da música. Para mim, eles é que vão mudar o curso da música angolana.

E a si, o que o inspirou a tornar-se músico?

Noutras alturas eu diria que já não tinha vocação para mais nada na vida, mas não é verdade, simplesmente porque eu senti que a minha vida só fazia sentido se eu seguisse o que realmente gosto de fazer. Não era mau aluno, talvez pudesse ter seguido uma carreira ligada ao percurso académico, mas talvez não fosse feliz, então optei por ser feliz. Claro que nem tudo são rosas, mas sinto-me feliz com a escolha que fiz.

Quando é que deu por si apaixonado pela música?

Acho que nunca houve um momento em que eu despertei para a música porque no fundo sempre houve esta conexão. Acho que despertei pela carreira, mas a minha paixão pela música sempre esteve presente desde o berço. Havia um ambiente musical em casa, embora os meus pais não sejam músicos nem sejam ligados à arte, mas sempre houve um ambiente musical, portanto, a minha paixão pela música surgiu muito cedo. Na verdade, não houve um momento de virada, apenas dei por mim e já não conseguia fazer mais nada na vida.

Com que idade começou a tocar guitarra e a cantar?

Comecei a tocar guitarra aos 13 anos, e a cantar, mais ou menos aos 16, 17 anos. Foi na altura em que formei a banda, mas eu só tocava, não cantava. Aprendi a tocar em casa, depois de ter um par de aulas com um tio que também tocava, mas depois ele mudou-se do centro da cidade, e deixei de ter acesso às aulas dele. Fui, então, desenvolvendo com a ajuda da Internet, e com muito esforço e dedicação consegui aprender muita coisa.

Como é que foi adaptar a sua voz ao som que tocava?

Na verdade, foi o inverso, foi adaptar a voz à guitarra, isso porque eu comecei a tocar muito antes de cantar, então tive de aprender a cantar, eu não sabia cantar, cantava terrivelmente mal, e acho que, se hoje se consegue ouvir a minha voz, é porque tive muita força de vontade e superei muitas críticas. Inclusive, pessoas muito próximas chegaram ao ponto de dizer-me que não valia a pena cantar, que devia só tocar, então tive de adaptar a minha voz.

Que estilo musical apresenta ao público?

Normalmente apresento uma mistura, de fusão de jazz com ritmos africanos, com um pouco de rock, o que dá para sentir no meu EP Ingombota. Fiz questão de tocar apenas guitarra, embora toque outros instrumentos, para que se sentisse a crueza da minha musicalidade, que é a essência da voz e do violão. Mas não é o estilo que me define como músico. Acho que faria qualquer estilo, do mais comercial ao mais alternativo se fosse o caso, não tenho limitações.

As músicas que canta têm um estilo diferente, como foi a aceitação do público?

Muito honestamente, se fosse ficar à espera da aceitação, talvez eu já tivesse mudado de estilo há bastante tempo, mas é no fundo uma busca pela auto-satisfação, e felizmente as pessoas gostam. Já começa a ser um número grande de pessoas que aderem aos meus concertos, aos meus discos e que me reconhecem na rua e admiram o meu trabalho, principalmente jovens e adolescentes, embora sejam os adultos a força económica que sustenta a minha carreira, mas os adolescentes são a continuidade da mesma.

Vive de música?

Não me posso queixar. Tenho feito alguns concertos públicos, mas muitos privados, e isso acaba por sustentar a minha carreira e a minha vida. Eu vivo plenamente de música, não faço mais nada para além de cantar e tocar, mas sou uma pessoa totalmente independente.

Quais os projectos que tem em carteira?

Tenho alguns concertos na Europa, tenho dois festivais confirmados, um na Madeira, em Portugal, outro em Montbéliard, cidade francesa que faz fronteira com a Suíça, e um em Lisboa. Tenho outro já confirmado com a Selda em Luanda, em Novembro. Tenho um projecto muito grande, mas que ainda não pode ser divulgado, que vai culminar com o lançamento de um novo EP em Dezembro, que provavelmente vai gravar brevemente em Berlim. Já teve a oportunidade de cantar com Paulo Flores.

Que significado tem para si ter partilhado o placo com o mesmo?

O Paulo Flores é um músico extremamente importante da nossa cultura, é um artista fantástico com uma mente extremamente criativa, e vai ser sempre uma honra dividir o palco, a vida, o estúdio e o que quer que seja.

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