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Milionário russo em busca do ET

06/08/2015 - 13:51, Negócios do outro mundo

Yuri Milner vai investir 100 milhões USD na procura de vida extraterrestre, com o alto patrocínio do físico Stephen Hawking.

Por Paulo Narigão Reis | Fotografia Bloomberg

Verão de 1950, Los Alamos, Estados Unidos. Um grupo de físicos discute, ao almoço, discos voadores e a existência de seres extraterrestres. Até que um deles, o italiano Enrico Fermi, Prémio Nobel da Física em 1938, lança a pergunta que ficou famosa: “Onde é que eles estão?” A questão viria a gerar o “Paradoxo de Fermi”, a aparente contradição entre a elevada probabilidade estatística de existirem civilizações extraterrestres e a falta de contacto da humanidade com tais civilizações, ou mesmo de provas.
O milionário russo Yuri Milner é o mais recente protagonista de uma demanda que começou na segunda metade do século XX: descobrir vida extraterrestre. E, para tal, vai investir 100 milhões USD no que será o mais abrangente projecto alguma vez feito para responder à questão de Enrico Fermi. Ainiciativa, baptizada com o nome de Breakthrough Listen, conta com o apoio da comunidade astrofísica mundial, Stephen Hawking à frente. “Num universo infinito, tem de existir vida. Não há pergunta mais importante. E chegou a altura de encontrar uma resposta”, afirmou o físico britânico, autor de Uma Breve História do Tempo, na conferência de imprensa realizada na London Royal Society para apresentar o projecto.
Um dos cientistas que fazem parte do Breakthrough Listen é Frank Drake, um dos pioneiros da busca por vida extraterrestre e autor da Equação de Drake, que calcula as probabilidades de não estarmos sozinhos através de uma série de indicadores, como a taxa de formação de estrelas na nossa galáxia, a fracção de planetas com potencial para desenvolver vida ou o tempo esperado de vida de uma civilização. E, mesmo limitando a busca à Via Láctea, as possibilidades são avassaladoras. A nossa galáxia terá entre 200 e 400 mil milhões de estrelas. Grande percentagem delas possui sistemas planetários. E muitos destes sistemas deverão conter planetas na chamada zona Goldilocks, a distância ideal em relação ao respectivo sol – nem muito quente, nem muito frio – para permitir o desenvolvimento de vida, como a nossa Terra.
O projecto de Yuri Milner vai basear-se nas observações de três poderosos radiotelescópios: Green Bank e Lick Observatory, nos Estados Unidos, e Parkes Observatory, na Austrália. A busca centrar-se-á em cerca de um milhão de estrelas da nossa galáxia e mais uma centena de galáxias vizinhas. A ideia está a entusiasmar os cientistas que, desde há muitos anos, se dedicam à SETI, a sigla em inglês (de search for extraterrestrial intelligence) para a procura de outras civilizações no universo. “Normalmente, teríamos direito a 24-36 horas por ano de utilização do telescópio. Agora, teremos milhares de horas por ano nos melhores instrumentos”, congratula-se Andrew Siemion, um dos líderes do projecto, citado pela Nature.
O programa financiado pelo milionário russo será 50 vezes mais sensível do que os seus antecessores e cobrirá dez vezes mais espaço. O espectro de rádio será cinco vezes maior e 100 vezes mais rápido. A imensidão de dados que o programa irá gerar será aberta ao público.

Paixão pela ciência
Yuri Milner fez fortuna ao investir em empresas como o Facebook, Twitter, Alibaba , Spotify e outras startups tecnológicas, mas a sua grande paixão foi sempre a ciência. Nasceu em Novembro de 1961, sete meses depois de Yuri Gagarin se ter tornado no primeiro humano a sair do nosso planeta, e o pai baptizou-o com o nome do herói espacial da União Soviética. Antes de se dedicar aos negócios – que começaram com a venda, pouco legal, de computadores DOS na URSS – formou-se em Física Teórica na Universidade de Moscovo. Amigo do famoso dissidente Andrei Sakharov, também ele físico, iniciou a sua carreira de investidor após a queda da União Soviética, trabalhando para outro conhecido oligarca russo, Mikhail Khodorkovsky. Ao serviço do fundador da Yukos, que viria a tornar-se num dos inimigos preferidos de Vladimir Putin, foi protagonista da primeira tentativa de aquisição hostil da nova Rússia, a fábrica de rebuçados Outubro Vermelho.
Após uma temporada nos Estados Unidos, onde chegou a trabalhar para o Banco Mundial, Milner regressou à Rússia, onde se tornaria no maior investidor do país em negócios tecnológicos e na Internet. O “bichinho” da ciência nunca o deixou e, já milionário, criou o Breakthrough Prize, o maior galardão científico do mundo: os laureados, nas áreas de Ciências da Vida, Física Fundamental e Matemática, recebem um prémio monetário de 3 milhões USD, financiado não só por Milner mas por nomes como Sergey Brin (um dos fundadores do Google) e Mark Zuckerberg (Facebook).

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