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O colapso da economia, para nosso entretenimento

15/12/2016 - 12:09, + Mercado, Life & Arts

“A Queda de Wall Street” conta a história dos homens que ganharam dinheiro, muito dinheiro, com a crise financeira.

Por Paulo Narigão Reis

O mundo da alta-finança nunca foi propriamente um alvo preferido de Hollywood. Bastam os dedos de uma mão para contar os (bons) filmes alguma vez feitos sobre Wall Street, e a lista inclui Os Ricos e os Pobres, a comédia que deu a conhecer ao mundo Eddie Murphy, uma espécie de versão financeiro-humorística do romance clássico de Mark Twain O Príncipe e o Pobre. Percebe-se porquê: mesmo que vilões sejam coisa que, certamente, não falta em Wall Street, não serão propriamente “movie material”. Se é para fazer uma fita sobre banqueiros desonestos, ao menos que tenham piada, mesmo que as suas acções não tenham, em rigor, graça nenhuma… Foi, no entanto, uma personagem ficcional que estabeleceu o padrão cinematográfico do banqueiro de Wall Street. Gordon Gekko, imortalizado por Michael Douglas em Wall Street(1987), de Oliver Stone, definiu, numa única frase, o mantra do mundo financeiro que saiu da desregulação neoliberal dos anos 1980: “Greed is good.” A ganância é boa. Foram precisos mais 20 anos para a (mal)dita ganância dar realmente cabo disto tudo.

No final de 2007, Wall Street caiu como um castelo de cartas e, de repente, Hollywood tinha à sua disposição reais e verdadeiros vilões, daqueles que roubam aos pobres para dar aos ricos. Que, no caso, eram eles mesmos…

A crise financeira de 2007/2008 começou por ser motivo de documentários. De Capitalismo: Uma História de Amor, de Michael Moore, a Inside Job: A Verdade da Crise, de Charles Ferguson, era preciso tentar explicar ao mundo, anestesiado e desinformado, o que raio tinha acontecido naqueles famigerados meses. A indústria de Hollywood, alegremente perdida em prequelas e sequelas de filmes de super-heróis em que o dinheiro gasto em efeitos visuais parece ter saído directamente do orçamento destinado aos argumentistas, lá acabou por reagir. Primeiro timidamente: O Dia Antes do Fim(2011), com os excelentes Kevin Spacey e Zachary Quinto, era um filme escorreito e honesto, mas sem a loucura genial que, dois anos depois, Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio ofereceriam em O Lobo de Wall Street, baseado na vida de Jordan Belfort, o verdadeiro arquétipo do vigarista com classe. Até que chegámos a A Queda de Wall Street (The Big Short, no título original), até prova em contrário o filme definitivo sobre a crise financeira que ainda hoje, quase uma década depois, insiste em morder os calcanhares da economia global.

Baseado no livro The Big Short: Inside the Doomsday Machine, do escritor e jornalista Michael Lewis, A Queda de Wall Street em o condão de fugir ao óbvio, que no caso seria o ponto de vista de quem perdeu – e foi muita gente – com a crise financeira.

Aqui, os protagonistas são os homens que adivinharam o que estava para vir, apostaram descaradamente nisso e ganharam muito, muito dinheiro.

Em 2005, dois anos antes do crash, uma série de gestores de hedge funds e afins viram o que mais ninguém foi capaz de ver, nem sequer os grandes bancos de investimento: que o mercado imobiliário apresentava todos os sinais de bolha financeira, assente em empréstimos pouco ou nada criteriosos indexados a produtos de alto risco, os agora tristemente célebres subprimes. E decidiram apostar contra o mercado, através de credit default swaps, perante o sorriso paternalista e ganancioso da banca, que viu neles uns meros patetas a quem seria fácil sacar muito dinheiro, até porque, achavam os banqueiros, não havia nada mais seguro que o imobiliário. Como sempre, quem ri por último ri melhor, e, dois anos depois, Wall Street caiu.

Com uma realização segura de Adam McKay, aqui e ali pontuada pelo humor que todas as coisas demasiado sérias carecem e merecem, A Queda de Wall Street junta um elenco de fôlego – Christian Bale, Steve Carell, Brad Pitt e Ryan Gosling – e, na sua conclusão de uma história de que todos sabemos o final, consegue fugir à moralidade óbvia do mundo financeiro que nada aprendeu com os erros. Porque, na realidade, nada há para aprender: o que aconteceu em 2007 e 2008 vai, infelizmente, voltar a acontecer, mais e mais vezes, porque, como Gordon Gekko bem o sabia, a ganância é boa.

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