Mercado

The Piano: Escolhas, entre a obsessão e a vida

17/01/2017 - 09:20, + Mercado, Life & Arts

Uma fluidez narrativa extraordinária sob a aura de mistério que às vezes envolve as relações humanas.

Por Dinamene Carneiro 

No ano de 1993, Jane Campion entrou para a história do cinema mundial como a primeira mulher a vencer a Palma de Ouro no festival de Cannes com O Piano, que lhe valeu ainda o Óscar da Academia de Hollywood para Melhor Argumento Original, bem como o prémio de Melhor Intérprete em Cannes e o Óscar de Melhor Actriz para Holly Hunter (Ada). O filme também valeu o Óscar de Melhor Actriz Secundária a Anna Paquin (Flora). Uma produção independente que custou pouco mais de 7 milhões USD, e só nos Estados Unidos da América rendeu mais de 40 milhões USD. Trata-se de um fascinante e magnético melodrama romântico sobre o clássico triângulo amoroso, mulher, marido e amante, na Nova Zelândia do século XIX, que Champion transforma numa espantosa e surpreendente história de amor, sedução, fantasia, erotismo e mistério; submissão e revolta; insensatez e lucidez.

O filme O Piano tem uma fluidez narrativa extraordinária e sofisticação visual em cada sequência. O enredo leva-nos ao século XIX, é o retrato de uma mulher escocesa, Ada McGrath (Holly Hunter), que não fala (ou se recusa a falar) e que tem uma filha, Flora McGrath (Anna Paquin),de 9 anos, uma menina com quem tem uma relação muito íntima, tal como com o seu piano. Ada comunica-se com as pessoas através de gestos, mas, sobretudo, através de sua filha, que lê as anotações num bloquinho que ela carrega pendurado no pescoço. A vida de Ada transforma-se quando a família lhe faz um casamento arranjado com Alistar Stewart (Sam Neill), colono que reside na Nova Zelândia. Eles nunca se viram, junto com a filha e seus pertences vão partir para lá para iniciar uma nova vida, ao lado de um marido desconhecido, numa terra estranha. Ada desembarca com a filha, as bagagens e seu piano naquela deserta e insólita praia do novo território.

Então, confronta-se com dois choques à chegada: a intensa expectativa de encontrar pela primeira vez o seu novo marido e o primeiro contacto com os indígenas, povo que lhe parece completamente estranho. Entretanto, a sua maior preocupação é com o piano, porque o marido diz-lhe que é impossível levá-lo por causa do peso, a ponto de o aborrecer. Este primeiro encontro desastroso marca o desenrolar de um relacionamento frustrado à partida, daí em diante tudo o que acontece desenrola-se em torno do piano, e a vida de Ada torna-se um drama – o caminho lamacento, a humidade no ar e um traje de noiva improvisado. Na primeira noite em casa do marido, Ada refugia–se com a sua filha no quarto, é a única que a entende na sua linguagem de sinais. No dia seguinte, Ada vai pedir ajuda a George Baines (Harvey Keitel), que mora próximo da sua casa, para levá-la à praia para ela rever o seu piano, mas ele recusa-se, dizendo que não tem tempo. Ada não desiste e monta um acampamento frente à sua porta até que se resolva o assunto. O momento mais feliz de Ada em quase todo o filme é quando ela revê o piano, se senta e toca o instrumento até anoitecer.

Fica claro o efeito de escape da realidade que o piano representa para a protagonista. Entretanto, Baines faz uma proposta curiosa a Stewart para trocar 38 hectares de suas terras pelo piano de Ada. Mas, um dia, ao tomar conhecimento do valor do instrumento para Ada, George Baines decide fazer troca de favores, “uma tecla para cada encontro”.

No entanto, ela inteligentemente limita-se às teclas pretas. Este simples arranjo vai dar início a sessões de piano carregadas de erotismo e ao crescimento de um sentimento genuíno. Mas o destino reserva para Ada uma decisão final que envolve uma perda, que a coloca entre a vida e a sua obsessão pelo piano.

Algumas das lições a reter neste magnífico filme têm que ver com as relações humanas que desenvolvemos quer a nível pessoal quer profissional; a aura de mistério que às vezes não compreendemos totalmente, sobre as acções e motivações dos outros. A compreensão do que é diferente requer às vezes uma sondagem psicológica. As personagens paradoxais deste filme profundo e intimista transmitido não apenas pelo enredo em si, como também pelos movimentos de câmara, valorizam os rostos, os gestos e parecem acompanhar os estados de espírito das personagens são aspectos que no dia-a-dia devemos valorizar, do ponto de vista da linguagem corporal, afinal são atitudes que podem revelar relações fracturantes, e sendo muitas vezes ignoradas perdem-se grandes oportunidades de superação.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.