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Quando o mundo está a seus pés

09/01/2017 - 11:05, + Mercado, Life & Arts

A paixão de um magnata, a luta pela admiração de todos os que o cercavam, mas sentia- se o homem mais solitário.

Por Rosimaria Sousa

rosimaria.sousa@mediarumo.co.ao 

Citizen Kane, ou O Mundo a Seus Pés, é um emocionante filme noir inspirador do co-produtor, cineasta e protagonista do filme, Orson Welles (1915- 1985), na altura com pouco menos de 25 anos e sem qualquer experiência anterior em cinema. Estamos no ano de 1941, na época em que decorria a II Guerra Mundial, e este génio do mundo cinematográfico conseguiu trazer à luz o que era o mundo jornalístico e como esta profissão era exercida numa época de muita tensão.

Eram tempos difíceis para todos, e a informação privilegiada tinha um valor precioso. A narração deste filme foi apresentada numa época muito conturbada, mas chamou a atenção pela sua inovação. Já lá vão 76 anos desde que o filme estreou, e ainda assim é aclamado, sendo para muitos um filme de culto.
Não seja por menos, afinal revolucionou o mundo do cinema nos seus variados aspectos, quer seja em termos de imagem, qualidade de som, paisagens, fotografia, estética e falas. Citizen Kane ocupa a terceira posição do Hollywood Reporter, entre os 100 melhores filmes de todos os tempos.

A trama desenrola-se sobre os efeitos de um homem humilde que fez de tudo para se tornar num homem rico e magnata da imprensa jornalística de Nova Iorque (EUA). Kane procurava sempre estar a par de todos os acontecimentos, e desse por onde desse, ainda que tivesse repercussões negativas para ele, o importante era noticiar um facto e manter a população informada. Embora também fosse um tanto vaidoso e pretensioso.

O enredo começa quando o jornal News on the March publica a notícia de falecimento do prócere de Xanadu Kubla Khan, em 1941, e desenrola–se em torno das entrevistas de um jornalista que procura saber o significado da última palavra proferida por Kane, Rosebud, antes de morrer e descobre coisas assombrosas acerca dele.

O homem que fez de Xanadu um imponente palácio de prazer, lazer e diversão e que todos queriam conhecer e admirar a beleza que ostentava, entretanto, ninguém sabia que o afamado Xanadu era na verdade Charles Kane (Orson Welles), o maior “manda-chuva” de todos os tempos. A história de Kane neste filme é contada desde o primeiro investimento num diário humilde e moribundo, mas que em pouco tempo se transforma num império. Kane tornou-se no maior magnata dos media, detendo 37 jornais, dois sindicatos e uma rede radiofónica, onde a sua fortuna cresceu significativamente, durante 50 anos.

Sempre que houvesse um assunto público, lá estavam os jornais de Kane a publicar as notícias, nada lhe passava despercebido. O cidadão Kane tinha o mundo a seus pés, mas era o homem mais solitário do mundo. No final, constata-se mais uma vez que o dinheiro, as influências e a posição social que ostentamos não compram coisas como lealdade, respeito, admiração e tão-pouco amor. São coisas que se conquistam com acções e atitudes correctas. Entre estas e outras lições há aqui o cuidado na decisão de publicar qualquer notícia, com a devida apuração dos factos e sempre com o compromisso de informar. Mas informar com verdade, clareza e rigor. Entretanto, é notável a satisfação que se sente ao concretizar um trabalho que atrai apreciação e validação dos demais e através disto o reconhecimento.

A banda sonora pertence ao incrível e aclamado compositor americano Bernard Herrmann, com as canções originais: The Union Forever, Oh, Mr. Kane, Belgian March, In a Mizz eUna voce poco fa. O filme ganhou o prémio de melhor argumento original. Contou ainda com um elenco de luxo, interpretações de Joseph Cotten ( Jedediah Leland), Everett Sloane (Mr. Bernstein), Dorothy Comingore (Susan Alexander Kane), Agnes Moorehead (Mary Kane), Ruth Warrick (Emily Monroe Norton Kane), RayCollins ( James W. Gettys) e Paul Stewart (Raymond). Infelizmente, todos os actores que participaram nesta obra-prima são falecidos, mas até hoje os seus nomes perpetuam no mundo do cinema.

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