Mercado

Take Five… e a irreverência de Mr. Brubeck

09/06/2017 - 11:34, + Mercado, Brunch with

O pianista e compositor norte-americano que se impôs a si mesmo uma meta: superar-se.

Por Nilza Rodrigues

São cinco minutos e catorze segundos de… levitação. A preto e branco, claro, na versão original, claro, e com o pé direito a acompanhar a batida inconvencional e irreverente de Mr. Brubeck.

Chamam-lhe a batida 5/4. Se isso importa? Importa. É essa a história por trás de uma música que se tornou um ícone. Quando a maioria é escrita no compasso 4/4,3/4 ou 2/4, Dave Brubeck ousou, e é bom recordar que estamos em 1959, uma melodia em 5/4 concebida no segredo dos deuses, porque a Columbia Editors não aceitaria algo tão pouco convencional e… comercial. Ainda assim, Brubeck desafiou Paul Desmond, o senhor do saxofone, e nasceu Time Out. Um álbum experimental, supostamente experimental, que rendeu, imaginem, mais de 1 milhão de cópias vendidas e… uma capa na Time. Mr Brubeck recorda: “Todos contribuíram para o Take Five. Mas era mesmo experimental. Não era dançável. Paul não gostava do título, porque ninguém o iria perceber e estava cheio de mixes novos.” Ou seja, um álbum condenado ao esquecimento.

Mas a vida tem destas coisas, e a verdade é que o Take Five tornou-se um símbolo de irreverência, de singularidade e de trabalho de equipa. O conhecido quarteto trabalhou nele afincadamente, mas a genialidade de Dave Brubeck foi decisiva para a composição histórica final.

Valeu a sua irreverência. O facto de não ser “uma pessoa convencional”. O seu génio forte. Ele, que aprendeu a tocar piano aos 4 anos, por iniciativa da mãe, que não ligava o rádio, alegando que, se gostavam de música (ele e os irmãos), tinham de aprender a tocá-la. Aprendeu a tocar piano, é certo. Mas sempre se recusou a aprender a ler u ma partitura. Facto que lhe ia valendo a expulsão da faculdade. Mas, uma vez mais, foi salvo pela genialidade. Professores catedráticos rendidos ao seu som.

Funda o The Dave Brubeck Quartet, com Joe Dodge, Bob Bates e Paul Desmond em 1951. E foi criando, criando, criando até aprender, com a sua vivência, que o jazz lhe permitia passar mensagens para além da necessidade de sermos inconvencionais. Curioso perceber que a determinado momento da sua vida exclama: “O jazz é a liberdade, mas dentro da disciplina. Muitos não entendem como temos de o ser, entenda-se, ser disciplinados no jazz. E essa é a verdadeira democracia, termos liberdade dentro dos limites da nossa Constituição. Ninguém pode fazer o que quer porque quer.”
O génio já numa fase mais calma da sua vivência, com a sapiência de uma vida dedicada a causas.

Contra o racismo, fez das palavras de Martin Luther King também a sua mensagem na não menos famosa composição The Gates of Justice: “We must stand for freedom. Stand! Knowing that one day we will be free. If we don’t live together as brothers, we will die together as fools. We are living in a land of freedom! Shout! Free at last, I’m free at last! Thank God Almighty, we’re free at last!”

Take Five foi gravado nos 30th Street Studios em Nova Iorque a 25 de Junho, 1 de Julho e 18 de Agosto de 1959, tem hoje várias versões ajustadas, mas… recomenda-se o original. Sempre e para início de conversa.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.