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Thó Simões expõe “Senhores do Vento”

10/11/2017 - 09:37, + Mercado

O artista embrenhou-se nos costumes dos Hereros e seguiu-lhes o rasto passado e presente para retratar, em tela, a história de resistência infinita deste povo nómada que vagueia pelo Sul de Angola.

Com uma linguagem marcadamente urbana, o artista invade o mesmo espaço em que convoca o espírito dos Senhores do Vento, exposição que pode  ser  vista  na  galeria MOV’ART, em Luanda, e que fixa a figura Herero e a sua inconformidade perante a colonização no início do século XX, a guerra contra o invasor, a divisão e a expropriação.

“O  Namaqua,  Hendrik Witbooi, chefiou a primeira grande revolta, mas foi sob o comando de Samuel Maherero que conseguiram sobreviver ao primeiro grande genocídio no início do século XX, arquitectado pelo tenente-general alemão Lothar Von Trotha. Frustrado por não ter aniquilado completamente as forças de Samuel Maherero, Von Trotha passou a perseguir e a confinar os Hereros aos campos de concentração.

Cerca de 24 mil Hereros fugiram para o deserto do Kalahari. Samuel Maherero e mil homens cruzaram o Kalahari até ao Botsuana. Estes são os senhores do vento…”, escreve Thó Simões numa nota. António ‘Thó’ Simões nasceu em 1973, em Malanje, e viveu toda a sua infância em Portugal. Regressou a Angola em finais dos anos 80 e, em Luanda, passou a frequentar a União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP). Formou-se no Instituto de Formação Artística e Cultural. A partir do ano 2000, começou a participar em exposições nacionais e internacionais com o colectivo Os Nacionalistas.

Promoveu ainda actividades artísticas com crianças e jovens de todo o País com o grupo EXSEF (Expressão sem Fronteiras), do qual é um dos fundadores. Envolveu-se com regularidade em projectos socioculturais, como o graffiti contra a destruição do Elinga Teatro, em Luanda. Concluiu o projecto Murais da Leba, uma parede com mais de 6 mil metros quadrados nas províncias do Namibe e Huíla que juntou artistas angolanos e estrangeiros, estudantes do primário e secundário em torno da arte urbana. Recentemente, concebeu um novo mural na Fábrica de Sabão.

Diz que não é pintor, nem artista plástico – nega quaisquer ‘rótulos’ que limitem as suas intenções. Pinta, faz colagens, cria arte urbana e digital, faz performances, instalações, filmes e fotografias, mas o seu trabalho não obedece a uma componente ou tendência que permita identificar com clareza um determinado estilo.

O magnetismo que África e Angola exercem no seu trabalho é inegáveis, tanto como os vários lugares que já visitou no mundo. Para exprimir estes afectos, ora usa de influências da arte moderna, ou tradicional, como a arte étnica Tchokwé, ou de inspiração na tribo Muíla, ora usa arte abstracta. É visto com frequência nas ruas de Luanda, seja a expor, a observar ou simplesmente a sorver a vida que flui ao seu redor.

Hoje, abraça ainda projectos de carácter sociocultural e ambiental – o graffiti no Elinga Teatro não deixa ninguém indiferente. Filho da primeira geração de artistas da pós-independência, a passagem de conhecimentos e técnicas é essencial para Simões, que relembra uma altura difícil para os jovens artistas que entravam no mundo da arte.

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