Mercado

V de Vingança: Encontrar conforto nas distopias

02/01/2017 - 09:18, + Mercado

Neste mundo sequestrado pelo medo, devemos procurar inspiração em filmes como V de Vingança.

Por Paulo Narigão Reis

Com a certeza de que um pessimista nada mais é do que um optimista bem informado, o ano de 2017 pouco tem, à partida, de recomendável. Daqui a uns dias, os Estados Unidos darão posse ao mais inenarrável e perigoso presidente da sua história e ao seu séquito de milionários. Na Europa, a ascensão da extrema-direita, alimentada pela irracionalidade do medo, ameaça, para já, o futuro da França, da Holanda ou da Alemanha. Ao mesmo tempo, em Moscovo, qual vilão de um filme de James Bond, Vladimir Putin esfrega as mãos de calculada felicidade.

Por mais absurdo que possa parecer, um dos escapes possíveis é procurar conforto nas distopias, literárias e cinematográficas: de “Nós” a “1984”, de “O Admirável Mundo Novo” a “A Conspiração Contra a América”, de “O Grande Ditador” a “V de Vingança”. Porque, na realidade, é nestas alturas que temos a obrigação de estar mais alerta do que nunca. Podemos, e devemos, ir às nossas vidas, fazer planos, desejar o melhor. Mas não podemos viver 2017 como se 2016 não tivesse existido, como se fosse mais um ano. O mundo no início de 2017 é um local mais bem perigoso do que era no início de 2016, e é bom que não o esqueçamos.

“Como é que isto aconteceu? De quem é a culpa? Há, certamente, uns mais responsáveis que outros, e serão chamados à responsabilidade, mas, a verdade seja dita, se procura pelos culpados, só precisa de olhar-se ao espelho. Sei porque o fez. Sei que estava com medo.

Quem não estaria? Guerra, terror, doença. Houve uma miríade de problemas que conspiraram para corromper a sua razão e roubá-lo do seu bom senso. O medo levou a melhor.” Ao (re)ver “V de Vingança”, o discurso de V, o revolucionário da máscara de Guy Fawkes (na voz sincopada e profunda de Hugo Weaving, actor mais conhecido como o Agente Smith de Matrix), ecoa como um aviso. A visão distópica do filme escrito pelos irmãos Wachowski, de um Reino Unido submetido a uma ditadura fascista, aparece, nestes tempos de incerteza, como uma ameaça real. Um pouco por todo o mundo, o medo está a levar a melhor sobre a razão. Medo dos refugiados, dos imigrantes, do terrorismo, da globalização, do vizinho do lado. E é do medo que se alimentam Donald Trump, os brexiters, Marine Le Pen ou os neofascistas da Alternativa para a Alemanha. “As pessoas não deviam ter medo dos seus governos. Os governos deviam ter medo do seu povo”, diz V numa das frases mais famosas de “V de Vingança”.

O mundo começa o ano de 2017 sequestrado pelo medo. A última vez que tal aconteceu a uma escala mais ou menos global foi nos anos 1930, e todos sabemos o que aconteceu. A ascensão de líderes egocêntricos e providenciais, a erosão da liberdade em nome da segurança, a retórica do ódio, a corrida às armas, a guerra. E não podemos, nunca, esquecer que, ao longo dos séculos, a história teimou sempre em repetir-se.

Começar o ano a ver “V de Vingança” é uma espécie de alerta, um “note to self” em nome da sanidade mental. Um aviso para os perigos que se avolumam no horizonte e, ao mesmo tempo, um escape ficcional para o sentimento de impotência que a realidade nos oferece.

“Os artistas usam mentiras para dizer a verdade, os políticos usam-nas para a esconder”, diz a certa altura Evey Hammond, personagem interpretada por Natalie Portman. A mentira foi hoje rebaptizada de pós-verdade, num mundo em que, de repente, os factos podem ser alvo de interpretação. É nosso dever, a bem da humanidade, combater o ódio e desafiar o medo. É o nosso futuro que está em jogo.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.