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Bolsas asiáticas disputam liderança com Nova Iorque e Londres

06/08/2015 - 16:16, Bolsa Internacional, Markets

O mercado de capitais vai conhecer mudanças bruscas em todo o mundo dentro de cinco anos, segundo um estudo da consultora PwC que, num comentário exclusivo para o jornal Mercado, salienta haver motivo de preocupação para players que vão operar os mercados regulados pela BODIVA.

Por António Pedro | Fotografia Walter Fernandes

As tendências do mercado de capitais para os próximos cinco anos, em todo o mundo, apresentam desafios e preocupações aos players que já operam e prevêem entrada nos negócios de emissão de títulos e acções, diz um estudo da PwC que tem detalhes do comportamento dos mercados regulamentados, conclusão obtida após inquérito sobre 250 empresas que operam nesse segmento de negócios.
O mercado de capitais prevê representar uma ameaça ao sector bancário tradicional com a evolução positiva do shadow banking (sistema bancário paralelo), o crowdfunding e o peer-to-peer lending (empréstimo sem intermediários) a nível global.
Apesar de nenhum chairman, CEO ou administrador executivo de empresas angolanas ter participado no estudo, a PwC Angola comenta o estudo em exclusivo para o jornal Mercado e diz que os cenários previstos no estudo vão influenciar directa e indirectamente nos mercados regulamentados criados, e em constituição, pela Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA).
O mercado de capitais começa a trilhar para três grandes desafios dentro dos próximos cinco anos, a julgar pela opinião de um grupo de executivos de empresas (36% de inquiridos) que operam em bolsas nas grandes praças financeiras, pois acreditam que haverá aumento da rentabilidade para os clientes.
Opinião diferente tem um grupo de players (33%) que prefere apostar na adaptação às novas tecnologias até 2020 como pressuposto de sucesso para empresas e clientes, enquanto o restante admite que as empresas que conseguirem a manutenção de colaboradores talentosos poderão ter mais clientes e mais sucesso no mercado de capitais.
De maneira global, 75% dos inquiridos acreditam que um centro financeiro para rivalizar com as praças financeiras de Londres e Nova Iorque poderá surgir até 2020. O estudo diz que Nova Iorque e Londres são dois epicentros principais do mercado de capitais, pois fornecem estabilidade e transparência.
Mas esta posição líder pode ser beliscada nos próximos cinco anos caso haja o aumento contínuo previsto para a economia chinesa. Por esta razão, 75% dos executivos entrevistados pela PwC vaticinam o surgimento de um centro financeiro que rivaliza com Nova Iorque e Londres, com destaque para mercados bolsistas de Hong Kong, Xangai, Tóquio e Singapura.
Quanto ao risco que o mercado de capitais vai representar para a banca tradicional, a PwC Angola tem opinião de que localmente não será um fenómeno muito linear, sem motivo para enormes preocupações, embora advirta que é necessário os players no País tomarem em atenção os argumentos do estudo, pois dificilmente alguma praça financeira bolsista dos países ficará à margem dos riscos e consequências. A consultora internacional assume que, pelo facto de Angola ter um mercado 100% financiado pela banca tradicional, a evolução do mercado de capitais não retira esta hegemonia de forma acelerada.
O jornal Mercado analisou os indicadores de títulos do Tesouro negociados no Mercado de Registo de Títulos do Tesouro da BODIVA e conclui que os cerca de 30 mil milhões Kz (237 milhões USD) transaccionados nos últimos dois meses, altura em que arrancou de forma efectiva, representam 0,9% do todo crédito bruto concedido pela banca em 2014.
Segundo a PwC Angola, nos comentários ao jornal Mercado, “a evolução do mercado de capitais, sendo um processo natural, não coloca necessariamente em perigo a banca tradicional, tal como demonstra a situação existente em outros países com mercados de capitais mais amadurecidos”.
A recomendação da consultora para que players que operam na bolsa no País, e outros que antevêem entrada, não abdiquem dos alertas do estudo, apesar de ainda não ter contado com a participação de entidades angolanas, é que sistematiza as principais tendências e desafios para os mercados de capitais em termos globais.
O realce vai para as seis prioridades para os players nos mercados de capitais até 2020, a começar pelo gerenciamento de riscos, de forma proactiva, em caso de não se observar regras da regulação; o estabelecimento de uma forte cultura e conduta empresarial; e a redefinição do modelo de negócios.
As três prioridades finais para os players têm que ver com a renovação de modelo operacional de forma estratégica; fomentar habilidades e capacidades à inovação e a obtenção de informação qualificada como uma vantagem para operar nos mercados.
Quanto ao facto de o estudo demonstrar que as empresas devem apresentar cenários desafiadores na sua actividade até 2020, e Angola enfrentar um cenário de falta de apresentação de relatórios e contas e nalguns com reservas, com excepção de empresas financeiras como bancos e seguradoras, a consultora antevê tempos competitivos.
“O principal desafio para as empresas angolanas estará na sua capacidade para se adaptarem e prepararem para este novo modelo, num contexto cada vez mais competitivo e de crescente globalização, ultrapassando necessariamente outros constrangimentos específicos que ainda possam existir.”

O que faz a CMC?
Em Junho passado, o administrador executivo da CMC, Patrício Vilar, respondeu a duas perguntas do jornal Mercado, numa Grande Entrevista, cujo teor faz ligação ao estudo da PwC. A primeira era sobre o início da preparação de empresas nacionais para o mercado de acções e como poderá funcionar, enquanto a segunda questão era sobre os sectores que a CMC visa para sondagem de empresas.
Patrício Vilar disse que a entidade reguladora do mercado de capitais tem um programa, o POPEMA (Programa Operacional de Preparação das Empresas para o Mercado de Acções) sobre o qual se vai trabalhar projectando o mercado de capitais no curto prazo.
“Nós vamos ter numa primeira fase roadshows pelos vários sectores de actividade económica, onde se identificaram já empresas com alguma capacidade de organização e financeira, para poderem preencher os requisitos necessários para serem admitidos à cotação ao mercado de acções”, disse.
Os roadshows, o primeiro arrancou em Julho último, priorizando o sector das telecomunicações, e aguarda-se pelo segundo, serão apresentados ao longo ano pela CMC visando a preparação de empresas para o mercado de acções.
Embora na entrevista não se tenha feito referência ao estudo da PwC, Patrício Vilar apontou cenários previstos para o mercado de capitais nacional no curto prazo, como aprimoramento do relato e o equilíbrio financeiro, corporate governance e a capacidade que as empresas terão de absorver o quadro regulatório do mercado de capitais.
O quadro regulatório é a primeira das seis prioridades para empresas nos mercados de capitais, a nível global, até 2020, segundo a PwC, pois consiste no gerenciamento de riscos de forma proactiva face à observância de regras de regulação
Os pilares da regulação, o corporate governance eoutras ditas pelo administrador executivo da CMC servirão de base para a preparação das empresas para o mercado de acções dentro de dois anos, restando mais três para a BODIVA iniciar o funcionamento de mais um mercado regulamentado.

O que faz a BODIVA?
Na edição zero do jornal Mercado, publicada em fim de Abril passado, o CEO da BODIVA, Pedro Pitta Groz, disse que até ao fim do ano haverá um mercado de dívida pública a funcionar e já contava com alguns emitentes/empresas, com obrigações admitidas, negociadas na BODIVA, e de Maio a Junho deste ano os títulos do Estado negociados atingiram 30 mil milhões Kz (237 milhões USD).
“Esperamos mais alguns emitentes de acções”, dizia Pitta Groz, para quem o horizonte temporal já aponta para um mercado de dívida pública, mercado de dívida corporativa, com emitentes a lançar ofertas de acções, no caso dos bancos.
Sem o estudo da PwC ter sido concluído, aquando da realização da Grande Entrevista, o CEO, como que antevendo os cenários mundiais dos mercados de capitais, disse que numa primeira fase “vamos focar o mercado de acções nos bancos”, sem excluir outros sectores, mas, preferencialmente, pelo facto de os bancos estarem mais bem organizados do ponto de vista de relato financeiro e de governo societário.
A questão tecnológica que a PwC apresenta como uma das seis prioridades do mercado de capitais até 2020, com base nos depoimentos de 250 executivos de bancos de investimentos, fundos de investimentos, correctoras, que operam nos mercados regulamentados, fora abordada com Pitta Groz.
Dizia o gestor da bolsa de valores sobre a relevância do processo tecnológico em curso ao longo de 2015, que a primeira fase, com relação a tecnologia, do sistema de negociação, conforme anunciado Dezembro de 2014, foi concluída.
“Está implementada. Podendo até ser feitos negócios no que nós designamos mercado de registo de transacções de títulos (MRTT) de tesouro”, mas com relação à fase de implementação pós-negociação, ou seja, compensação, liquidação e custódia, “esperamos tê-la concluído no final de Junho e início de Julho (desta ano) para então podermos dar início à admissão e negociação de obrigações corporativas”.

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