Mercado

Mercado de capitais precisa de investidores mais ‘ousados’

17/07/2017 - 15:32, featured, Markets

Investidores do mercado secundário privilegiam títulos com maturidades curtas. Analistas dizem que intermediários devem ajudar a criar apetência pelo risco.

Por André Samuel 

andre.samuel@mediarumo.co.ao 

Os intermediários do mercado de capitais devem promover mudança no perfil dos investidores em Angola, dado que estes tendem a procurar, sobretudo, produtos de curto prazo, defendem analistas. O fomento de um perfil de maior risco entre os investidores, afirmam, irá acabar por ajudar no desenvolvimento do mercado.

De acordo com dados da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (BODIVA) recolhidos pelo Mercado, no mercado secundário de dívida pública negoceiam-se mais títulos de maturidade mais curta, em detrimento daqueles de prazos mais longos.

No primeiro semestre, segundo esses dados, as transacções de títulos com maturidades a terminar em 2017, 2018 e 2019 representaram 15%, 51,7% e 16% do total, respectivamente, ao passo que a negociação de títulos com maturidades em 2021, 2022 e 2023 valeu 1%, 2% e 5%.
No que se refere aos montantes negociados por maturidade, verifica-se a mesma tendência: as maturidades até três anos representam um quarto do total, enquanto os títulos a vencer em 2021, 2022 e 2023 representam 0%, 4% e 4%, respectivamente.

Analistas lembram que o mercado angolano de capitais não está ainda suficientemente desenvolvido na ‘componente’ do investidor, dado que, do ponto de vista técnico e jurídico, foram já criadas as condições necessárias para o seu regular funcionamento. Por outro lado, afirmam, já há condições atractivas para captar e potenciar investimentos.

Para a economista Júlia Fagundes, que veio recentemente a Angola participar num ciclo de palestras corporativas, é “perfeitamente normal que, no estágio em que o mercado bolsista se encontra, e olhando para o momento económico que Angola vive”, os investidores sejam cautelosos em investimentos de prazos mais dilatados.

Em contrapartida, a especialista alerta que a pacificidade dos intermediários da bolsa não vai mudar o quadro. “Os agentes de intermediação devem criar instrumentos que captem a apetência dos investidores para produtos de médio prazo. Não são os investidores que tomarão, espontaneamente, a decisão de criar uma carteira de títulos para maturidades mais longas”, destaca.

Investidores com postura “muito moderada”

Como é previsível que ocorram flutuações cambiais, e dada a tendência inflacionista da economia nacional, “o risco está sempre presente”, razão pela qual muitos investidores optam por uma postura “muito moderada”.

Em contrapartida, diz, “esforços devem ser envidados para convencê-los a aderirem a títulos de maior maturidade”.

O consultor financeiro Nunes Cardoso concorda ser importante haver mudança no perfil dos investidores, procurando que percam, ou reduzam, a sua aversão ao risco, actuando com “maior dinamismo”, até para que o mercado de capitais se desenvolva e cumpra com os seus objectivos.

“A bolsa destina-se a promover a poupança e a canalizá-la para as empresas e políticas públicas, de modo eficiente, colocando no processo produtivo recursos que outros canais têm mais dificuldades em mobilizar”, diz, lembrando que os investimentos de médio prazo ajudam a cumprir com maior eficácia estes objectivos.

“Se o mercado de capitais funcionar com eficiência através dos veículos financeiros aí disponíveis, as famílias transportam as suas poupanças para o futuro, remunerando-as, e o Estado e as empresas financiam-se com custos e prazos mais adequados aos seus projectos”, sustenta o responsável ao Mercado.

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