Mercado

A economia startup(I)

27/11/2017 - 16:18, Opinião

A realização da Web Summit em Lisboa trouxe benefícios (reais) para Portugal? Julgamos que sim

Gamaliel Gaspar e João Lemos Esteves

Há poucos dias, a capital portuguesa voltou a ser o centro de todas as atenções do mundo empresarial e tecnológico: realizou-se em solo lusitano mais uma edição da tão afamada Web Summit. Trata-se do certame mais relevante da nova economia digital, assente na tecnologia e em estruturas empresariais diferenciadas. A Web Summit é, pois, a expressão organizada de um novo paradigma económico que já se impôs: hoje, é impensável equacionar-se a constituição de uma empresa estruturada ou o desenvolvimento de um negócio viável abdicando de uma presença, mais ou menos significativa, no espaço digital. Empresa que não exista no mundo digital não existe de todo – o seu mercado potencial reduzir-se-á substancialmente (ou mesmo desvanescer-se-á).

2. Fala-se muito da relevância para a economia portuguesa da realização, no seu território, da Web Summit. Recorde-se que, até à edição do ano de 2017, este certame da tecnologia se realizou na Irlanda, sendo mesmo apresentado como uma referência cimeira da cidade de Dublin. Um ‘verdadeiro cartão-de-visita’ do país, que pretendia (como hoje pretende, apesar de acossado em várias frentes, incluindo pelas instâncias decisórias  da  União  Europeia)  atrair  empresas  tecnológicas, uma elite empresarial mais jovem, mais cosmopolita, empresas que operam no mercado global, com uma facturação comercial avassaladora.

3. Em termos claros e directos, a estratégia da República da Irlanda consistiu na adaptação da economia nacional à globalização – ao contrário da adaptação da globalização às economias nacionais, fórmula apregoada por várias correntes político-doutrinárias ainda em voga e com sucesso em várias latitudes. Explicitemos: ao invés de o governo irlandês ter optado por censurar,  em  termos  mais  ou  menos  virulentos,  os  mecanismos próprios da globalização (e suas premissas essenciais) partindo das especificidades da sua realidade nacional, optou por preparar as estruturas da sua economia interna aos desafios da globalização.

4. Prevaleceu, destarte, entre os decisores políticos, uma abordagem realista, pragmática, tentando potenciar ao máximo os ganhos potenciais da economia aberta, global e competitiva. Pense-se, a título de exemplo, na aprovação de medidas fiscais inspiradas pelo desiderato político (porque a política é, essencialmente, uma sucessão de escolhas de alocação de recursos públicos) de atracção de investimento, o que significa mais empresas, mais emprego, mais riqueza para os cidadãos nacionais.

5. Apesar do sucesso e dos méritos irrefutáveis da política fiscal irlandesa – que muito contribuiu, aliás, para a redução do défice das contas públicas do país –, a União Europeia (por via do seu órgão competente nesta matéria, a Comissão Europeia, nos termos do Tratado de Lisboa, ora em vigor) repreendeu publicamente tais opções (invocando concorrência desleal entre os Estados): neste sentido, foi instaurado, inclusive, um procedimento contra o Estado irlandês por violação do direito comunitário. Exigência da União Europeia: que a Irlanda ‘devolva’ a Bruxelas o montante equivalente à redução fiscal que os órgãos políticos irlandeses decidiram… É (também) devido a decisões deste teor que a União Europeia se confronta, nos dias que correm, com uma crise de legitimidade profunda.

6. Ora, a Web Summit era, precisamente, um evento-âncora para esta estratégia económica irlandesa: a sua saída de Dublin foi, neste sentido, um revés para as autoridades irlandesas (as quais tentaram, por via de várias diligências, evitar a deslocalização do evento para Lisboa). Ainda hoje, o êxodo da gala anual do mundo tecnológico (uma espécie de ‘Óscares’ das empresas digitais) permanece como questão política controversa em terras irlandesas. Até porque as razões invocadas então para justificar tal transferência de Dublin para Lisboa prendiam-se com as insuficiências de Dublin ao nível das infra-estruturas e o seu atraso relativo em termos de redes de telecomunicações. E Lisboa – ou, melhor, Portugal –, neste particular, evoluiu significativamente nas últimas décadas, colocando-se na linha da frente europeia. Até entre os ícones do mundo tecnológico, Portugal está na moda.

7. A realização da Web Summit traduziu-se em benefícios (reais) para o país? Julgamos que sim. Desde logo, mostra a capacidade de atracção do país e, especificamente, de Lisboa, que, rivalizando com outras grandes cidades europeias, foi a eleita pela organização daquele evento. Em segundo lugar, torna Lisboa numa capital da inovação e do desenvolvimento económico, o que poderá traduzir-se num impulso importante para o empreendedorismo dos agentes económicos nacionais. Hoje, constituir-se uma startup em Portugal é apenas normal. Acresce que, como consequência dos efeitos positivos anteriores, se poderá traduzir na diminuição do emprego, no aumento da percentagem de portugueses que criam o seu próprio emprego, no exponenciar da inovação e da competitividade da economia portuguesa.

8. As startups assumem-se, pois, cada vez mais como a estrutura empresarial típica da economia digital. O que se compreende: as startups, na sua fase inicial, lançam-se com financiamento apenas proveniente de um círculo restrito. Este poderá abranger somente os próprios empreendedores, a sua família e os amigos mais directos. Nesta fase, o financiamento visa essencialmente a cobertura dos custos relacionados com o desenvolvimento final do produto e o seu lançamento ao mercado.

9. Este acaba por ser um elemento diferenciador destas estruturas empresariais (que alguns apelidam de ‘pré-empresariais’) face à estrutura empresarial tradicional ou de referência: neste modelo ‘clássico’, o financiamento era obtido numa primeira fase – e só depois é que o produto era lançado e testado no mercado. O risco associado à criação de uma empresa era, assim, bastante superior: em caso de insucesso do produto, as obrigações (muitas complexas e de grande esforço patrimonial para os visados) já haviam sido contraídas. Por outro lado, os custos de transacção associados à prospecção de novos mercados, de contratação de empresas especializadas em estudos de mercado e de transporte entre mercados faziam com que o lançamento de uma empresa se revelasse um acto de gestão mais delicado.

10. E, em caso de insucesso ou frustração de expectativas face aos resultados obtidos pelo produto no mercado, a capacidade de mudança ou de inflexão de estratégia (o designado ‘jogo de cintura’ empresarial) era praticamente nula. Isto explica a décalage, a ruptura social a que hoje assistimos com as empresas mais antigas, cujos sócios, accionistas ou gerentes integram já uma faixa etária superior, a não conseguirem resistir às oscilações e ciclos negativos da economia. É que tais empresas (e tais pessoas) baseavam-se na ideia de continuidade, de rigidez tendencial de mercado, de estabilidade – tudo características que são o oxímoro da economia do nosso tempo.
11.  De  facto,  a  economia  digital  é  pautada  pela  imediatividade, pela rapidez, pela mudança constante e abrupta. Porventura, dizer-se que esta economia vive da ‘destruição criativa’ será um exagero – contudo, não estaremos longe da realidade se asseverarmos que ela vive da ‘criação destrutiva’. Quem não se adaptar rapidamente à velocidade da economia digital acabará por ser excluído, mais tarde ou mais cedo. Este é, simultaneamente, um problema económico e político em sentido amplo. No próximo artigo, analisaremos as formas de financiamento das startups.

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