Mercado

BRICS estarão a perder protagonismo?

15/05/2017 - 09:42, Opinião

“Apesar de ainda não constituírem um bloco económico ou uma associação de comércio formal, em termos de desenvolvimento económico, os integrantes têm em comum o estágio de mercado emergente…”

Por Fausto de Carvalho Simões

Professor titular da UAN e coordenador da Comissão Instaladora da Ordem dos Economistas de Angola

Em economia, BRICS é um acrónimo que diz respeito aos países-membros do grupo político de cooperação que inclui o Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul.

O acrónimo foi criado por Jim O´Neill – chefe de pesquisa em Economia Global do grupo financeiro Goldman Sachs, cujo chairman é o português e ex-presidente da Comissão Europeia Durão Barroso – num estudo de 2001, intitulado Building Better Global Economic BRIC. Desde então, o acrónimo passou a ser amplamente usado como símbolo de mudança e distanciamento das economias desenvolvidas do G7. Inicialmente, era apenas BRIC. No conclave do grupo, realizado a 24 de Dezembro de 2010, a África do Sul juntou-se-lhe, adicionando-se, por isso, o S (do inglês South Africa). Também são conhecidos como os ‘Cinco Grandes’. A entrada da África do Sul aconteceu devido à pressão da China, em virtude de o colosso asiático ser o maior parceiro comercial daquele país africano, ocupando posição idêntica no mercado indiano.

Obviamente que, a partir desta penetração no mercado sul-africano, as portas do continente africano passaram a estar escancaradas para o gigante asiático, pois, juntamente com Angola, se traduz num maior apoio africano à China em fóruns globais.

Apesar de ainda não constituírem um bloco económico ou uma associação de comércio formal, em termos de desenvolvimento económico, os integrantes têm em comum o estágio de mercado emergente. Desde 2009, realizam cúpulas anuais e, em bloco, têm procurado formar um ‘clube político’, procurando converter o seu crescente poder económico em influência geopolítica.

Entre o BRIC e o BRICS, houve, pelo meio, outras tentativas de alteração do primeiro acrónimo, com a adição aos quatro fundadores do grupo de outros países: tentou-se o BRIK (com o K de Coreia do Sul), BRIMC (com o M de México), BRICA (com os países árabes – Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Barém, Omã e Emirados Árabes Unidos) e BRICET (incluindo a Europa Oriental e a Turquia).

A preferência de adição da África do Sul em detrimento dos demais concorrentes é uma hábil jogada política que dá ao bloco a possibilidade de se instalar e comercializar em quatro continentes. Quanto à Oceânia, que fica como o único continente fora dos BRICS, tem permanentemente a vigilância das vizinhas Índia e China.

Em 12 de Julho de 2014, durante a sua 6.ª reunião em Fortaleza, Ceará, os presidentes dos cinco assinaram um acordo para a criação de um banco, o Novo Banco de Desenvolvimento, NBD (em inglês New Development Bank, NDB), também conhecido como o ‘Banco dos BRICS’, cujo principal objectivo é o financiamento de projectos de infra-estruturas e desenvolvimento em países pobres e emergentes. A decisão de criação do NBD desagradou profundamente os responsáveis dos EUA e Inglaterra, países responsáveis pelo FMI e Banco Mundial, respectivamente.

Assinaram aquele acordo, em representação dos países, respectivamente, Dilma Rousseff, Vladimir Putin, Narendra Modi, XI Jinping e Jacob Zuma.

O banco tem a sede em Xangai, China, e operará com empréstimos em moeda chinesa. Para primeiro PCA, foi nomeado um indiano. A Rússia indicou o presidente do Conselho de Governadores, e a África do Sul detém a sede do Centro Regional Africano da Instituição. O NDB, com um capital social inicial de 50 mil milhões USD, impulsionará ainda o comércio entre os cinco países-membros da organização. A médio prazo, o capital social poderá ascender a 100 mil milhões USD, com um fundo de reserva já criado, mesmo montante para cobrir eventuais desequilíbrios das balanças de pagamentos dos países signatários, medida que, igualmente, não agradou aos EUA nem ao Reino Unido.

Há a realçar que, em algumas ocasiões, os cinco já disponibilizaram verbas ao FMI para socorrer projectos de países em desenvolvimento, particularmente nos sectores de energia, tecnologias de informação, infra-estruturas, agro-negócio, rodovias, aeroportos, ferrovias, hidrovias, estruturas urbanas e segurança alimentar.

Todas estas medidas de carácter financeiro, que começaram por funcionar em 2016, têm, obviamente, um alcance que retira protagonismo aos EUA, à União Europeia e ao Reino Unido.
Apesar destas medidas levadas a cabo pelos cinco BRICS, na actual nova ordem económica internacional, a intervenção de novos actores económicos começa a ser uma realidade, os TICKS (Taiwan, Índia, China e Coreia do Sul) constituem o novo quarteto preferido dos investidores nos mercados emergentes.

Neste novo acrónimo, é fácil percebermos que entram Taiwan e Coreia do Sul, e saem o Brasil e a Rússia. Dessa forma, parece que o BRICS dá origem ao TICKS.
O novo acrónimo reflecte não só a entrada de novos países, mas também a preferência de um novo sector. A tecnologia irá substituir os produtores de matérias–primas. Esse é o destaque das grandes revistas e jornais de especialidade, como o Financial Times, que refere que o foco, agora, se volta para um novo quarteto menos dependente de commodities e mais voltado para a tecnologia. Uma década depois, chegou a ressaca.
A queda das commodities afecta o Brasil e a Rússia, também afectados pelo isolamento político, devido às suas crises políticas.

A palavra inglesa que significa ‘carrapatos’ (ou carraças) em português agrupa países com pouca exposição às commodities e boas perspectivas no campo da inovação e tecnologia.

De acordo com dados da Copley Research, citados pela publicação britânica, o peso relativo da exposição dos fundos de capital de países emergentes aos TICKS passou de 40% em Abril de 2013, para 54%, em 2016.
Em Dezembro de 2015, 63% desses fundos tinham pelo menos metade dos mesmos investidos nos TICKS, enquanto só 10% tinham esse nível de exposição nos BRICS.

As duas acções mais comuns entre 120 fundos monitorados pela Copley, que somam 230 mil milhões USD em activos, são a fabricante de chips taiwanesa TSMC e a gigante coreana Samsung.

A Índia é a segunda economia que mais cresce no mundo e oferece um mercado potencial de 1 bilião de pessoas. O gigante asiático registou, em 2015, o seu pior crescimento desde 1990 e viu as suas vendas online aumentarem 33% em relação ao ano anterior.

A África do Sul continuará a ser o país africano mais desenvolvido e com níveis de crescimento tecnológico muito acima dos restantes do nosso continente.

Apesar de todas estas evidências, recentemente surge, mais uma vez, o economista da Goldman Sachs Jim O´Neill com outro acrónimo, daqueles ‘pegajosos’ de que muito ele gosta: MINTS (México, Indonésia, Nigéria e Turquia).
Está lançada a confusão, mas uma coisa é certa: o protagonismo dos BRICS está a transferir-se para os TICKS.

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