Mercado

Consultoria a mais, resultados a menos

05/05/2017 - 09:26, Opinião

“Os empresários e gestores angolanos, recorrendo a consultoras, saberão avaliar em que estádio de participação se encontram essas entidades externas…”

Por Campos Vieira

É inegável a criação de valor por empresas de consultoria, algumas das quais de renome internacional, na prestação de serviço de natureza estratégica, operacional e da formação de quadros. Angola tem investido avultadas verbas em consultoria.

E os resultados? A consultoria pode limitar-se à elaboração de um plano estratégico ou, então, ir mais além, e incluir o business plan, ou, mais longe ainda, incidir no plano operacional e na sua implementação. Ficando no primeiro ou no segundo estádio, essa consultoria corre o risco de não ser consequente no objectivo final pretendido, antes não passando de “bonitos” quadros em PowerPoint e incorporando cenários teóricos que são no essencial “copy-paste” de outros processos. Valem, muitas vezes, pelo simples logótipo da empresa consultora, que, só por si, gera no destinatário um efeito positivo imediato, mas cujo conteúdo traz pouco benefício substantivo no plano da gestão interna da empresa.

Porém, se a prestação do serviço se materializar essencialmente no plano operacional e na sua implementação, com toda a envolvente organizacional de meios materiais, humanos, formação, etc., então estamos num estádio implicando um verdadeiro compromisso por parte da consultora no êxito do projecto e, por isso, exigindo um alto sentido prático e de resultado efectivo.

Os empresários e gestores angolanos, recorrendo a consultoras, saberão avaliar em que estádio de participação se encontram essas entidades externas e, em concreto, se os gastos dessa natureza se traduzem em benefícios palpáveis no plano operacional e de negócio. Esta análise a nível empresarial é válida, por maioria de razão, na esfera “ministerial” em que estão em causa gastos públicos e o risco de se ficar pelas estratégias gerais é bem maior.

Damos um exemplo: certamente que existirão dossiês enormes a definir estratégias de política sectorial, com recursos a consultoras, mas continuamos com as nossas avenidas, ruas e travessas sem número de polícia identificando as casas, o que afecta sobremaneira, entre outras áreas vitais do funcionamento básico da economia e da sociedade, os correios, a banca, a justiça e a administração pública em geral.

Numa conjuntura em que o processo de diversificação da economia se reclama como prioritário e decisivo, sucedendo-se anos de avaliação e reavaliação de estratégias, o que interessa agora são programas urgentes de implementação e, se tal implicar o concurso de consultores, então que se faça para estarem no terreno a montarem e organizarem as operações, e não nos gabinetes a produzirem dossiês que poucos lêem ou aplicam.

Por outro lado, essas entidades de consultoria, a maior parte das quais afirmando-se como grandes escolas de gestão, devem integrar em maior escala quadros angolanos e desse modo proporcionando, ainda que a prazo, a transmissão know-how em várias áreas e a diminuição de custos que em última instância são repercutidos no País.

Essa será a forma de compatibilizar o interesse nacional com os objectivos das empresas de consultoria. No final, tudo se ajuíza em função dos resultados percebidos na óptica quer financeira quer social, no caso sobre os investimentos em consultoria das empresas e entidades públicas angolanas, o que pressupõe a avaliação nesse domínio do que foi feito no passado e, acima de tudo, do que se perspectiva fazer no futuro.

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