Mercado

As economias empresariais africanas – sua caracterização

17/07/2017 - 10:08, Opinião

Nas empresas africanas há ainda um forte peso de relações familiares.

Por Fausto Simões

Professor titular da UAN e coordenador da Comissão Instaladora da Ordem dos Economistas

De modo geral, as economias africanas são subdesenvolvidas. Contribuindo para esta situação, inúmeras causas são apontadas pelos críticos e estudiosos das ciências económicas. Será que o actual status quo não pode ser alterado? Quais as principais dificuldades do empresariado africano? Essas questões motivam-nos a ‘tentar’ avaliar que modelo(s) de desenvolvimento será (ão) o(s) adequado(s) para as economias empresariais africanas.

Com alguma frequência, citando-se o Banco Mundial e outras instituições não-governamentais, diz-se que a maioria dos países africanos é assolada por fraquezas institucionais e por patrimonialismos estatais que dificultam o sucesso de acções para o desenvolvimento.

Na governação desses países, a autoridade e o poder, nas suas diferentes áreas, são usados como uma forma de moeda, sendo a lealdade e a subserviência, independentemente de haver ou não competência, recompensadas por parcelas de poder e privilégios nos gabinetes.

Em muitos desses gabinetes, a autoridade e as responsabilidades estão baseadas em laços étnicos e de consanguinidade, em que as bases étnicas e o clientelismo substituem a moral e a legitimidade política.

Não raras vezes, o Estado, que se confunde com os partidos políticos dirigentes, é visto como a única instituição de desenvolvimento. Por isso, há a tendência para se fragilizar ou mesmo punir o sector privado formal, os partidos na oposição, as organizações não-governamentais, as instituições religiosas e os sindicatos, quando não são dirigidos por correligionários políticos.

Apesar das conexões lógicas das Constituições e de outros diplomas legais, os processos políticos raramente se subordinam a garantias de liberdade e justiça. Mesmo nos regimes multipartidários que se foram generalizando com a mundialização da economia, há corredores políticos geralmente estreitos, e o acesso dos cidadãos depende com frequência de critérios subjectivos.

A empresa africana

Quando se estudam e analisam empresas africanas, há um tipo de realidades e problemas que não deve ser ocultado. Primeiro, o forte peso das relações familiares e de parentesco, que alteram as regras junto do assalariado.

Depois, esses países estão sujeitos a grandes, repentinas e consecutivas transformações, com inevitáveis consequências e transformações sociais, urbanas e demográficas. É ainda de sublinhar o facto de coexistirem formas muito heterogéneas de produção, em que a grande empresa não dissolve a pequena, nem onde o modo de produção capitalista se torna exclusivo. Considerando estas questões, Philippe Hugon, académico e um dos maiores estudiosos franceses de empresas africanas, propõe uma tipologia de empresas. A natureza das actividades pressupõe uma distinção entre a lógica subjacente à actividade empresarial em África, nomeadamente, com as estratégias dos empresários com base na actividade a curto e a médio/longo prazo. Hugon diferenciou-as por ordem de importância:

– Empresas ligadas ao sector terciário (comércio, serviços e transportes);

– Empresas agro-exportadoras movidas pelo capital produtivo;

– Empresas industriais (essencialmente as de substituição de importações);

– Empresas bancárias e financeiras (Este sector não é muito desenvolvido);

– Empresas mineiras e energéticas, onde encontramos as multinacionais;

– Empresas transnacionais, constituídas por capitais de diferentes nacionalidades (joint-ventures);

– Empresas estrangeiras, cujo capital pertence a estrangeiros residentes em África;

– Empresas públicas ou mistas, cuja propriedade do capital pertence na totalidade ou em parte ao Estado;

– Empresas africanas privadas que são as PME, apoiadas ou não, directa ou indirectamente, pelo Estado;

– Empresas artesanais ligadas ao sector informal;

– Grande empresa estrangeira multinacional, que não é mais do que o prolongamento no espaço africano de um sistema onde os centros de decisão são exteriores, podendo diversificar-se e adaptar-se em função do meio sociocultural de implantação.

Entre os extremos podemos encontrar:

– A empresa nacional privada, mista ou pública de grande dimensão do tipo capitalista;

– A PME privada estrangeira, ou nacional, que tem, em regra, de cinco a 50 assalariados, sendo geralmente criada por iniciativa de políticos que recebem apoio e têm fortes ligações ao aparelho estatal;

– As pequenas empresas do tipo artesanal ou a pequena produção mercantil, onde o patrão é um trabalhador directo que controla o processo de trabalho.
Em África, fala-se muito em economia dos investimentos sociais. Tais unidades reinventam novas formas de organização social, satisfazendo as necessidades essenciais no meio urbano para a maioria da população, sem acesso aos serviços colectivos públicos e aos mercados industriais. Contudo, e conforme admite Hugon, a tipologia apresentada parece não permitir conhecer as articulações entre as diversas formas de produção, nem as dinâmicas próprias de cada uma. Uma empresa pode definir-se relativamente a uma lógica, o que não implica que não haja pontos de contacto com outras lógicas. Numa pequena unidade produtiva, podemos encontrar uma lógica doméstica que coexiste com uma mercantil.

Dando outro exemplo: uma multinacional pode ter uma lógica capitalista, industrial e de acumulação e, ao mesmo tempo, ter relações privilegiadas com o poder político. A lógica mercantil, que parece ser a mais presente nas empresas africanas, está associada à economia de tráfego (ligada aos serviços, em que a actividade produtiva aparece, sobretudo, inscrita num horizonte temporal de curto prazo).

A crise económica que muitos países africanos enfrentam faz suscitar uma série de interrogações sobre a capacidade de as culturas africanas porem em marcha modelos de gestão importados, bem como sobre as consequências das lógicas solidárias ou redistributivas em relação ao equilíbrio económico das empresas.

Quando olhamos para as empresas africanas, o que nos salta à vista é, desde logo, a sua sujeição à solidariedade familiar e às relações sociais (factor de credibilidade) e aos poucos e escassos recursos financeiros com que se debatem. Podemos dizer que poucas são as empresas que escapam aos laços familiares, à chamada economia das relações sociais. Muitos empresários se inserem na lógica dos direitos e obrigações comunitárias como uma estratégia explicitamente orientada para a redução dos encargos salariais e dos riscos de sindicalização. A família ou a comunidade de origem funciona como que um reservatório de mão-de-obra, onde a solidariedade se submete plenamente às lógicas económicas de rentabilidade. Esta viciada forma de contratação de pessoal limita muito a possibilidade de escolha, dando origem a que surjam interrogações quanto à eficácia deste método de selecção, que, à partida, é no mínimo duvidoso e tendencioso, não obstante existirem excepções. O facto de a contratação ser feita segundo lógicas familiares pode pôr a questão da efectiva eficácia, competência e estímulo dos empregados. Urge, ainda que gradualmente, inculcarmos nas novas classes empresariais formas mais modernas de gestão, para que as empresas de tornem mais produtivas e rentáveis.

Gosta deste artigo? Partilhe!

Deixe o seu comentário

You must be logged in to post a comment.