Mercado

Ética e responsabilidade social empresarial

05/02/2018 - 14:50, Opinião

A sua actividade empresarial, nos tempos que correm, os empreendedores sentem cada vez mais a necessidade de transparência no seu relacionamento com os stakeholders.

Por Fausto Simões 

Professor titular da UAN e coordenador da Comissão Instaladora da Ordem dos Economistas

Na sua actividade empresarial, nos tempos que correm, os empreendedores sentem cada vez mais a necessidade de transparência no seu relacionamento com os stakeholders.

Outro motivo que contribui para essa exigência crescente é o acesso à informação cada vez maior por parte dos consumidores.
Deveremos ainda levar em consideração que o público presta cada vez mais atenção às questões sociais, observando atentamente o envolvimento das empresas na resolução de questões intrínsecas ao seu meio envolvente.

Procuraremos demonstrar na presente crónica a necessidade de empresas e empreendedores adoptarem comportamentos éticos e responsáveis que possam contribuir para promoção dos mesmos.

A ética e a responsabilidade social empresarial reflectem a mudança cultural que os gestores precisam de adoptar nos negócios quer nacionais quer internacionais. A prioridade da empresa deverá ser sempre a satisfação dos consumidores, e não o lucro, pois, se aquela premissa for satisfeita, a última surgirá com a maior naturalidade.

QUAL A ESSÊNCIA DA ÉTICA E DA RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL?

Ética consiste na adopção de um conjunto de padrões de conduta e comportamentos correctos, que guiam as decisões e acções das pessoas ou organizações. Algumas dicas para se ser ético no trabalho são, a título de exemplo:

• Nunca perder de vista a missão, visão e valores da empresa;
• Conhecer o seu papel e posição na hierarquia, os seus direitos, responsabilidades e obrigações e respeitar a cadeia hierárquica;
• Ser assíduo, pontual e comprometido com a missão da empresa;
• Tratar todos com respeito e dignidade;
• Ser honesto e justo em todas as situações;
• Se errar, assumir, mas sem se humilhar, certificando-se de que o que aconteceu não se repetirá;
• Ter uma atitude confiante mas nunca deixar de ser humilde e flexível;
• Respeitar a privacidade dos colegas, não mexendo no seu material, equipamentos ou documentos;
• Se pedir algo emprestado a um colega, devolver logo que possível e nunca esquecer de o fazer;
• Oferecer ajuda aos colegas em dificuldades;
• Cumprir as promessas que faz;
• Ter cuidado com brindes e prendas, não devendo as mesmas servir para obter vantagens ilegítimas (ou ser entendidas como tal);
• Ser cordial com toda a gente, minimizando eventuais antipatias; ser ético pode significar abdicar de status, benefícios ou mesmo dinheiro.

Os gestores de topo, numa demonstração de comportamento ético, por exemplo, devem divulgar não só as renumerações dos quadros intermédios e de outros colaboradores mas também as renumerações dos gestores executivos, facto que certamente contribuirá para maior transparência e menor desconfiança. Nessa matéria, países como Reino Unido, Irlanda, Países Baixos e França apresentam um nível alto de transparência, enquanto Suécia, Alemanha, Suíça, Itália e Noruega são considerados países com um nível médio de divulgação de política de salários detalhada. A título de exemplo, e ainda nesse domínio, na Europa, no que toca a países com um nível de transparência e divulgação da política salarial considerada limitada, encontramos a Finlândia, Espanha, Dinamarca e Portugal.

Em jeito de sugestão de medidas que a empresa pode adoptar para trabalhar a sua própria cultura empresarial, propomos que possa ser definido um código de ética ou conduta, que haja um envolvimento da empresa em projectos sociais da comunidade, que os seus balanços sociais sejam regularmente publicados, que sejam feitas auditorias internas periódicas e que não sejam descuradas quer a promoção do bem-estar dos trabalhadores, quer o cumprimento das obrigações legais.

Responsabilidade social empresarial é a afirmação do respeito por pessoas (clientes inclusive) e pelo planeta, que deve resultar na eliminação de práticas danosas, independentemente da sua legalidade.

Motivações para responsabilidade social empresarial

Os principais aspectos positivos que resultam das boas práticas empresariais em termos de responsabilidade social empresarial são o impacto positivo sobre as vendas da empresa, a atracção dos melhores talentos e investidores, o alívio das pressões de grupos ambientalistas, associações de consumidores e órgãos reguladores. Essas boas práticas podem ainda permitir a obtenção de apoios governamentais através de subsídios e contratos mutuamente vantajosos.

Percepção do papel dos offshores e paraísos fiscais

Como sabemos, hoje fala-se muito de offshores e paraísos fiscais e das suas implicações na fuga ao fisco. Nós entendemos que por si só os paraísos fiscais não constituem um destino ilícito de poupanças monetárias. Na realidade, o que estará sempre em causa é a eventual incompatibilidade entre a legislação fiscal dos países de origem e a forma de transferência de somas monetárias e financeiras avultadas para esses destinos paradisíacos. Isto significa dizer que qualquer empresa ou empreendedor não deve colocar dinheiro nesses paraísos fiscais se a legislação fiscal vigente do seu país não o permitir; caso esta permita, os ditames da legislação deverão ser obviamente cumpridos à risca.

Existem dezenas de paraísos fiscais no mundo e em todos os continentes. A título de exemplo, passamos a citar os principais: Andorra, Anguila, Antígua, Barbados, Antilhas Holandesas, Aruba, Baamas, Barém, Belize, Ilhas Bermudas, Campione d’Italia, Ilhas Caimão, Chipre, Singapura, Ilhas Cook, Costa Rica, Jibuti, República Dominicana, Emirados Árabes Unidos, Gibraltar, Granada, Hong Kong, Labuan, Líbano, Libéria, Listenstaine, Luxemburgo,Macau, Arquipélago da Madeira, Ilhas Maldivas, Malta, Ilha de Man, Ilhas Marshall, Ilhas Maurícias, Mónaco, Ilhas Montserrate, Nauru, Ilhas Niuê, Sultanato de Omã, Panamá, Federação de São Cristóvão e Neves, Samoa Americana, Samoa Ocidental, São Marinho, São Vicente e Granadinas, Santa Lúcia, Seicheles, Tonga, Ilhas Turks e Caicos, Vanuatu, Ilhas Virgens Americanas e Ilhas Virgens Britânicas.

Nos tempos que correm, uma responsabilidade acrescida dos paraísos fiscais será obviamente que os seus territórios não sirvam para poupanças monetárias e financeiras que sirvam para actividades criminosas.

Naturalmente que, quando falamos de ética, associado à mesma surge o combate à corrupção. Relatórios recentes da Transparency Internacional – Corruption Perceptions Index 2016 dividem os países entre limpos e corruptos, sendo aos países limpos atribuídos um índice de corrupção tendendo para 100, e aos corruptos tendendo para 0.

Países considerados mais limpos são a Dinamarca e Nova Zelândia, com 90, Finlândia, com 89, Suécia, com 88, Suíça, com 86, Noruega, com 85, Singapura, com 84, Holanda, com 83, Canadá, com 82, e Alemanha, Luxemburgo e Reino Unido, com 81.

Entre outros, estão os Estados Unidos da América em 18.º lugar, com 74, Portugal em 29.º, com 62, Cabo Verde em 38.º, com 59, São Tomé e Príncipe em 62.º, com 46, Brasil em 79.º, com 40, Timor-Leste em 101.º, com 35, Moçambique em 142.º, com 27, Angola em 164.º, com 18, e Guiné-Bissau em 168.º, com 16. Na lista dos 13 países mais corruptos do mundo podemos encontrar Angola em 164.º,

com 18 (13.º mais corrupto), Eritreia em 164.º, com 18, Iraque e Venezuela em 166.º, com 17, Guiné-Bissau em 168.º, com 16 (9.º país mais corrupto),Afeganistão em 169.º, com 15, Líbia, Sudão e Iémen em 170.º, com 14, Síria em 173.º, com 13, Coreia do Norte em 174.º, com 12, Sudão do Sul em 175.º, com 11, e Somália em 176.º e último lugar, com 10 de índice.

À guisa da conclusão, perante qualquer ocorrência que possa perigar a confiança dos consumidores, a empresa deve tomar as seguintes medidas:
1. Agir rapidamente com total transparência sobre a ocorrência e procurar remover a causa da desconfiança não esperando por evidências ou extensão do problema;

2. Garantir medidas para evitar situações similares no futuro;

3. Assumir as responsabilidades, incluindo os custos em prol da defesa e segurança dos consumidores. Actuando dessa forma, aumentará a confiança da empresa junto de clientes e consumidores.

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