Mercado

Heranças dolorosas do Atlântico Sul

21/02/2018 - 16:08, Opinião

Em Novembro de 2015, o povo argentino celebrava mais do que o final de 12 anos de domínio político dos Kirchners, o início de uma nova era.

Por Aylton Melo

Em Novembro de 2015, o povo argentino celebrava mais do que o final de 12 anos de domínio político dos Kirchners, o início de uma nova era. O actual presidente, Mauricio Macri, tinha herdado uma situação económica calamitosa que requer mudanças drásticas e dolorosas. Por isso, a sua eleição ficou envolvida numa nuvem de expectativas que em dois anos de governação ficam acinzentadas, pelo tardar da recuperação económica deste emergente.

O quadro de crise que João Loureço encara desde que assumiu a presidência do País há 140 dias enfrenta os mesmos imperativos cambiais e fiscais: inflação acumulada, desvalorização da moeda, desemprego, degradação social, aumento da dívida, crescimento económico fraco, défice e evasão fiscal e por aí adiante.

Nos primeiros meses de governação, Macri tentou inverter o quadro tomando medidas com o intuito de recuperar a economia, via incentivos à produção e exportação de produtos agro-pecuários, tanto pela redução da carga tributária quanto pela abolição do controlo de preços e cambial face ao USD, adoptando o câmbio flutuante. Isto levou de volta os USD para o país e alívio às debilitadas reservas internacionais do banco central argentino, que estavam em contínuo declínio desde 2011 e que voltaram a subir, pela primeira vez desde então, em 2016. Apesar destas medidas, a economia tarda a descolar.

O peso desvalorizou em cerca de 40%, e a inflação ascendeu em 26%, segundo o FMI. A dívida do Estado cresce, bem como a pobreza e o desemprego.

Pelas bandas geográficas de cá do Atlântico Sul, está em marcha, como se sabe, “a receita do governo” de João Lourenço, com algumas similitudes do seu parceiro oceâneo.
O Estado prevê aplicar até ao final do ano 109 medidas de políticas de consolidação fiscal e de estabilização cambial, para dar solidez ao sector financeiro, segundo o Programa de Estabilidade Macroeconómica, apresentado em Janeiro. Apesar disso, a previsão de despesas do Estado, constantes do OGE 2018, recentemente aprovado, demonstra a manutenção de “velhas gorduras.”

Enquanto tenta tomar acções austeras, como, por exemplo, cortar subsídios e impor reformas, a “receita Macri” tem pouco impacto na melhoria da vida do povo, em termos sociais, nos dois primeiros anos de governação. Porquê? Porque houve mudança de governo, mas falta mudança de mentalidade, em relação às despesas do Estado. Qualquer semelhança, portanto, entre as realidades comparáveis dos dois Estados parceiros é mera coincidência. As mudanças e reformas esperadas alimentam as expectativas germinadas, pelo vislumbre de um novo ciclo político. Ambas ainda podem, contudo, ser cumpridas nos respectivos mandatos presidenciais.

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