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João Marques de Almeida – Obama, o realista

03/09/2015 - 17:20, Opinião

Com o Irão, Obama abandonou o paradigma da democratização, em nome do realismo político. E fez bem, até porque as sanções aumentavam a miséria entre os iranianos, sem acabarem com o programa nuclear. Tenho criticado Obama algumas vezes, mas, no caso do acordo com o Irão, devo elogiá-lo. Pensou num plano e numa estratégia, foi […]

Com o Irão, Obama abandonou o paradigma da democratização, em nome do realismo político. E fez bem, até porque as sanções aumentavam a miséria entre os iranianos, sem acabarem com o programa nuclear.
Tenho criticado Obama algumas vezes, mas, no caso do acordo com o Irão, devo elogiá-lo. Pensou num plano e numa estratégia, foi persistente, executou-os bem e conseguiu um grande sucesso diplomático. Deu uma grande lição de realismo político ao mundo. E o mundo precisa de mais realismo político. Nas últimas décadas tem havido um excesso de ideologia. As escolhas ideológicas são obviamente importantes, sobretudo na política interna (e também na política da União Europeia, cada vez mais uma continuação da política interna), mas na política externa e nas relações diplomáticas o mundo necessita de mais realismo político.
Os excessos ideológicos são em grande medida uma consequência da Guerra Fria. O confronto ideológico global deixou uma pesada e profunda herança. O fim da Guerra Fria, com o triunfo do capitalismo e da democracia liberal sobre o socialismo, manteve a supremacia da ideologia sobre a diplomacia. E de certo modo a ameaça do radicalismo islâmico tem ajudado a continuar a olhar para o mundo de um modo ideológico.
Mas foi igualmente no Médio Oriente, origem do radicalismo islâmico, que o Ocidente encontrou os limites de uma política externa assente em pressupostos ideológicos. Primeiro, com a tentativa de democratização do Iraque através da guerra. Na altura, defendi a guerra do Iraque, mas reconheço que os resultados foram desastrosos. A democracia terá de ser o resultado de vontades políticas internas; nunca de uma imposição externa. A segunda derrota da ideologia foi com a chamada “Primavera Árabe”, a qual apenas trouxe mais guerras civis, na Líbia e na Síria, e novas/velhas ditaduras, como no Egipto.
Com o Irão, Obama abandonou o paradigma da democratização, em nome do realismo político. E fez bem, por várias razões. Em primeiro lugar, as sanções aumentavam a miséria entre os iranianos, sem acabarem com o programa nuclear. Em segundo lugar, ninguém, nem mesmo nos Estados Unidos, deseja uma nova guerra no Médio Oriente – a qual poderia levar a uma divisão irreparável na relação transatlântica.
Por fim, a integração internacional do Irão será possivelmente o modo mais eficaz para ajudar a acabar com a ditadura teocrática no país. A verdade é que o isolamento diplomático nada conseguiu.
No entanto, realismo político não significa um regresso à velha realpolitik. O realismo do século XXI terá de ser forçosamente diferente da versão praticada nas chancelarias europeias do século XIX. Não pode ignorar compromissos institucionais nem alinhamentos que resultem de partilhas de certos valores políticos. Esta observação leva-me ao que ainda falta concluir no acordo com o Irão: o reforço da segurança de Israel. Teerão tem ameaçado repetidas vezes a sobrevivência do Estado judaico, não reconhecendo a sua legitimidade. Estas ameaças devem ser levadas a sério. A segurança de Israel também é uma questão ocidental, norte-americana e europeia. Os Estados Unidos deveriam estender a Israel um compromisso de defesa comum: um ataque militar do Irão a Israel significaria um ataque aos Estados Unidos, seguindo o modelo da Aliança Atlântica. Por seu lado, a União Europeia deveria reforçar as relações económicas com Israel, estendendo o mercado comum ao país criado por refugiados europeus.
* Cortesia Obervador

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