Mercado

Lições da História: será que as aprendemos?

23/01/2017 - 16:52, Opinião

Grosso modo, as crises económicas e financeiras não são uma novidade.

Por Gildo Matias José

As crises sempre foram parte integrante das sociedades, particularmente das sociedades capitalistas. No passado século XX, para além da famosa Grande Depressão de 1929-1930, diversas outras crises assolaram o mundo.

Entre as mais significativas contam-se a recessão dos anos 70, com especial incidência nos anos 1973 e 1974 – causada principalmente pelo choque petrolífero de Outubro de 73, mas também pela falência dos acordos de Bretton Woods – e a crise asiática do final de 90, com particular incidência na Tailândia, na Indonésia e na Coreia do Sul.

Por vezes, as crises são causadas pelo rebentar de bolhas especulativas. Um exemplo, ainda fresco nas nossas memórias e que precedeu a crise de 2008, foi o da bolha especulativa da Internet, vulgarmente também conhecida como “dot-com crisis”, no virar do milénio. À panóplia de novas empresas que exploravam o fenómeno “online” e à sua exponencial valorização em bolsa nos anos 1995-2000, seguiu-se em 2001 a falência em massa destas empresas, muitas das quais, sem sequer terem acumulado lucros.

Estas flutuações da actividade económica eram encaradas com alguma percepção de normalidade, sem que no entanto fossem desejadas. Sabia-se que as recessões existiam, e o bom senso económico recomendava que determinadas medidas fossem colocadas em marcha para garantir que as economias crescessem com a maior estabilidade possível. Daí a existência da regulação.

Entretanto, desde a década de 80, para quem se lembra, politicamente marcada no Ocidente pelas figuras de Ronald Reagan e Margareh Thatcher, as economias desenvolvidas sofreram um conjunto de alterações significativas cujo resultados da clarividência dos mestres de humanidade (para utilizar uma expressão de Adam Smith) ainda hoje são evidentes. Por um lado, a inovação financeira tornou-se extremamente mais complexa e criativa, com a criação de produtos inimagináveis décadas antes; por outro, nalgumas economias (e os EUA servem de exemplo paradigmático), a ideologia dominante destas décadas, cegamente favorável aos mercados e ao negócio, fez-se acompanhar de um conjunto efectivo de medidas de desregulação crescente.

A verdade é que, até à crise de 2008, se começará quase a acreditar na possibilidade de os ciclos económicos terem sido finalmente, e de uma vez por todas, domados. Isto é, não é só que se acreditasse que as recessões são más – o que também não é consensual entre os especialista da ciência lúgubre –, é que se acreditava também que, com um pouco mais de arte, elas poderiam ser, se não de todo em todo evitadas, pelo menos afastadas e tornadas menos graves. Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal (Fed) dos EUA entre Agosto de 1987 e Janeiro de 2006, representara a aura quase infalível dessa crença.

A (falta de) regulação é apenas uma das peças do puzzle das várias histórias das crises que se repetem, propiciando muitos comportamentosduvidosos, por vezes ilegais, e outros no mínimo imorais. Mas serão as crises um pecado original do capitalismo, ou trata-se de repensar as alternativas ou variantes do capitalismo?

Argumentar que, com todas as suas virtudes e defeitos, o capitalismo continua a ser o melhor sistema que conhecemos – um pouco como a definição de democracia de Winston Churchill – pode gerar, no plano analítico, duas posições: uma que advoga não haver qualquer erro com o capitalismo, uma posição radical; e uma segunda, mais moderada, que olha para o capitalismo não como um sistema imaculado de imperfeições, todavia o mais viável para o nosso tempo e passível de melhoria.

Quer numa, quer noutra, o comportamento individual assume-se central. Na posição mais radical – em que não há nada de estruturalmente errado no funcionamento do capitalismo – em si, os “mercados” não são bons nem maus. Quando funcionam correctamente, são responsáveis pelo desenvolvimento económico e consequente melhoria da qualidade de vida da maior parte dos cidadãos; quando funcionam mal, (quase) todos perdem, por norma, facto atribuído à “natureza humana”, isto é, aos ciclos de euforia e desconfiança, bem como à ganância de alguns agentes económicos.

Nem uma, nem outra. Uma “terceira via”: a via do “capitalismo ético”. Stricto sensu,o capitalismo ético – que penso ser uma alternativa humanista necessária – ressalta igualmente o comportamento individual. A história já nos demonstrou que não basta um capitalismo regulado – até porque o adjectivo “regulado” pode parecer um truísmo, na medida em que mesmo o capitalismo “desregulado” implica um quadro normativo e institucional, isto é dizer, um conjunto de regras que assegurem a desregulação.

Trata-se de perceber que o cerne da crise do capitalismo é: uma crise de valores.

Não de valores económicos, mas de valores morais. É necessário refundar o sistema de valores, resgatar a consciência moral e promover valores positivos.
Precisamos reconfigurar os princípios da salvação laica.

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