Mercado

Medidas expansionistas, ou restritivas? As crises económicas e financeiras, e a sua abordagem em termos de compreensão e equacionamento

02/02/2018 - 09:04, Opinião

Queda drástica do preço do petróleo arrastou o México para uma profunda crise nos anos 80.

Por Pedro da Cunha Neto 

Economista

Voltamos, desta feita, para, na continuação do nosso tema sobre As Crises Económicas e Financeiras, abordarmos os casos do México e da Argentina. À guisa de introdução, e para uma melhor percepção, vamos começar por dar uma vista de olhos às economias dos países da América Latina, nas décadas de 70, de 80 e de 90.

A América Latina, nessa altura dominada por governos populistas, militares ou civis, sofria, em termos económicos e financeiros, de uma síndrome generalizada:
1 . Pesada dívida externa
2 . Acessos hiperinflacionários
3 . Crises cambiais
4 . Falências bancárias

Em poucas palavras, as políticas de gestão da respublica baseadas em gastos acima das receitas disponíveis com recurso a empréstimos no exterior, com reflexos negativos na balança de pagamentos ou com a utilização de impressoras de dinheiro, facto que desembocava na hiperinflação.

Nos finais da década de 80, com o sucesso económico do Chile, na sequência das reformas de Pinochet, os países da América Latina aderiram às mudanças das políticas económicas com medidas drásticas para a eliminação dos défices públicos, combate à inflação, liberalização do comércio exterior e restauração da confiança na moeda nacional, entre outros.

Os resultados, ainda que medíocres, começaram a surgir, e os mercados financeiros, até então abalados pelos calotes de não serem ressarcidos dos empréstimos cedidos, foram mudando de opinião, e não se falava de outra coisa senão do milagre das economiaslatino-americanas capitaneadas pelo México.
O que se passou com o México?

Nos últimos anos da década de 70, ventos favoráveis, internos e externos, com a descoberta de novos poços de petróleo e com a alta dos preços desta matéria-prima no mercado internacional, sopraram forte, incentivando a economia mexicana, impulsionando os patamares de crescimento e de pleno emprego acima da média dos países da região. À medida que os dinheiros entravam aos borbotões, os gastos públicos também cresciam aos milhões. Começou a formar-se a ‘bolha’ que, de forma lenta mas continua, levou a economia à crise de 1994, a chamada Crise Tequila, depois da ‘tempestade’ de 1982.

Em 1982, ocorre uma baixa drástica do preço do petróleo, que representava 80% das receitas do país, passando estas de 20 mil milhões USD, em 1981, para 6 mil milhões, em 1982.

A economia é afectada visceralmente, as contas públicas colapsam, e a pré-crise bate à porta, entra e instala-se no México.

O défice das contas públicas é enorme, e o México entra em inadimplência de pagamento aos credores.

O governo americano, na pessoa de Nicholas Brady, então secretário do Tesouro, declarou o perdão de uma parte da dívida dos países da América Latina, facto que foi bem aproveitado pelos mexicanos, que substituíram boa parte da dívida por bónus Brady, de valor mais baixo (quer dizer que, se o valor da dívida era de 100 mil USD, o bónus podia valer, por exemplo, 70 mil USD.

Quem comprasse esse título, podia trocá-lo pelo seu valor real, isto é, 100 mil USD. Este artifício foi benéfico para os países da América Latina em relação aos quais o México era credor. Mas o facto mais importante foi o sinal positivo transmitido aos investidores externos que se dispuseram a entrar com dinheiro novo.

Atenuado o problema da dívida externa, a equipa mexicana reformista continuou a dar passos importantes com a liberalização da economia e o controlo rígido das políticas fiscais. Simplesmente, estas medidas estavam aquém das necessárias, pelo que a crisefoi debelada, mas não resolvida.

As autoridades financeiras tentam adoptar medidas para minimizar os efeitos da crise, desvalorizando a moeda, recorrendo às reservas de moeda estrangeira e manipulando a taxa de cambio. Os efeitos da crise eram demasiado profundos para serem debelados com as medidas adoptadas. Os resultados foram exíguos: as reservas em moeda estrangeira caíram de 25 mil milhões para 6 mil milhões, e a desvalorização da moeda originou profunda depressão da economia, com a generalização de falências das empresas e o desemprego de milhares de mexicanos, para além da fugados investidores.

A crise de 1994 foi o corolário do círculo vicioso no modelo económico do México. Como já frisámos neste documento, as medidas estruturais adoptadas para debelar o acumular da dívida, o crónico défice público e a ‘sangria’ das reservas em moeda estrangeira, com a manipulação da taxa de câmbio, a desvalorização do peso, não surtiram os efeitos programados.

Para complicar o que já não estava fácil, instalou-se uma crise política, com a revolta dos camponeses no estado de Chiapas e a morte de Donaldo Colosio, candidato à presidência.

O fecho da ‘torneira’ dos investidores asiáticos, também eles envolvidos na chamada crise dos ‘tigres asiáticos’ (Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan), constitui a ‘machadada’ final.

À guisa de síntese, não estaremos longe da verdade se afirmarmos que, para além dos problemas decorrentes da gestão pública, apanágio dos países da América

Latina, já apontados neste nosso exercício, a descoberta e exploração do petróleo, tal como na maioria dos países do chamado ‘Terceiro Mundo’, não foi de forma alguma auspiciosa. O México entrou num ritual de gastos públicos acima dos seus recursos, deixando-se envolver na armadilha da dívida externa.

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