Mercado

O actual panorama macroeconómico internacional

10/04/2017 - 09:41, Opinião

No final da década passada instalou-se a nível mundial a crise financeira que debilitou todo o sistema financeiro global; por esse motivo alguém a apelidou de crise sistémica.

Por Fausto Carvalho Simões*

*Prof. titular da UAN e coordenador da Comissão Instaladora da Ordem dos Economistas de Angola

Ainda hoje a instabilidade económico-financeira é uma realidade ao nível de todos os países e muito mais acentuadamente nos países em desenvolvimento.

Regista-se, nas exportações, uma tendência à deflação (descida brusca dos preços) particularmente ao nível das principais commodities e dos produtos industrializados em virtude do excesso de oferta e diminuição da sua procura. O que se verifica com os principais produtos de exportação de Angola (crude e diamantes) é prova disso.

Em outras economias também orientadas para factores de produção ou recursos naturais, acontece precisamente o mesmo.

Em 2016, a economia mundial cresceu em média 3,5%, sendo 2% nos países desenvolvidos e 4% nos países em desenvolvimento.

Os próprios países desenvolvidos começam a ter dificuldades em manter as suas economias sustentáveis; tentam-no com base em políticas monetárias e financeiras muito agressivas assentes no afrouxamento monetário e com taxas de juro tendentes a zero, que por sua vez reduzem o investimento e consequentemente arrefecem o crescimento. As causas que concorrem para esse panorama macroeconómico internacional são as seguintes:

1.Queda dos preços das principais commodities, facto que reduz a capacidade de liquidez dos países de origem das mesmas e consequentemente abranda as trocas comerciais na generalidade;

2. Desaceleração da China, Japão e Índia, grandes consumidores a nível mundial;

3. Desvalorização das principais moedas de troca (euro face ao USD; Libra esterlina face ao USD e euro) e USD em longos períodos face a muitas moedas internacionais

(yuan da China, iene do Japão, rupia da Índia, naira da Nigéria, rand da África do Sul, real do Brasil, xelim do Quénia, libra do Egipto, etc.). Nesse contexto os EUA têm vindo a pressionar a China para apreciar a sua moeda para facilitar as suas exportações para aquele grande consumidor asiático.

4. Grande volatilidade dos mercados financeiros influenciados por acontecimentos inesperados, cuja informação se difunde à “velocidade da luz”;

5. A fuga de capitais para paraísos fiscais, reduzindo a massa monetária em circulação nos países de origem, facto que reduz o investimento, com as consequências já atrás citadas. Dados estatísticos internacionais referem a fuga anual de capitais de 30 economias emergentes entre as quais só a China atinge a cifra de mais de 1700 biliões USD.

Nestes termos, a grande instabilidade nos países emergentes origina desaceleração na Europa, Japão e EUA.

Nesse último país, as suas altas taxas de juro e a valorização da sua moeda face às moedas europeias (o euro e a libra esterlina) também contribuem para a desaceleração da sua economia, pois arrefece a apetência das suas exportações para o Velho Continente.

Nesse cenário macroeconómico, estão criadas as condições para a permanência de uma recessão global, durante mais alguns anos, talvez dois, talvez três; aliás, essas crises são cíclicas.

O Fórum Económico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, em 2016, debateu a deterioração das economias dos países em desenvolvimento, a quarta revolução industrial e suas consequências. Concluiu que essa nova revolução industrial promove a fusão das tecnologias e fomenta a inteligência artificial com base nos drones, impressão a 3 dimensões, desenvolvimento acelerado da robótica, nanotecnologia (estudo da matéria numa escala atómica e molecular), biotecnologia, veículos autodirigidos, Internet, WhatsApp, Facebook, Twitter, Instagram, etc.

Por exemplo, a criação do sistema de transportes Uber só foi possível graças ao desenvolvimento de algumas dessas plataformas. Foi essa mesma quarta revolução industrial que desenvolveu softwares capazes de fazer traduções simultâneas, responder a perguntas, substituir (por enquanto parcialmente) economistas, médicos, contabilistas, advogados e outros profissionais liberais.

Mais uma vez teremos a “chatice” de as máquinas substituírem os humanos provocando a perda de postos de trabalho e o aumento de desempregados a nível mundial. Deverão ser as PME a “dar uma mãozinha” para mitigarmos essa anomalia tecnológico-económico-social.

Com efeito, e como nas revoluções industriais anteriores, os países desenvolvidos obterão vantagens competitivas, e alargar-se-á o fosso entre nações ricas (de verdade, e não potencialmente) e nações pobres.
Analistas económicos prognosticam que esse novo cenário tornará mais forte a moeda norte-americana quer como moeda de pagamento quer como moeda de reserva internacional, em função da tal quarta revolução industrial suportada pela sua alta capacidade tecnológica e a sua elevada e organizada propriedade intelectual.

Estão assim lançadas as bases e os paradigmas previsionais dos tempos vindouros.

Caberá aos governos/executivos dos países em desenvolvimento precaverem-se desses efeitos acima enumerados, tornando as suas economias mais competitivas. De outra forma, continuarão a ter economias de periferia, e as suas crises acentuar-se-ão, e cada vez mais a sua dependência em relação ao mundo desenvolvido será um facto. Oxalá isso não aconteça! Certamente, são os votos de todos nós, naturais e habitantes dos países que os ocidentais um dia resolveram pejorativamente apelidar de Terceiro Mundo.

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