Mercado

O empreededorismo em tempo de crise

21/02/2018 - 15:03, featured, Opinião

Para vencer-se num ambiente de crise é necessário mobilizar todos os recursos das empresas.

Por Fausto Simões/Professor titular da UAN e coordenador da Comissão Instaladora da Ordem dos Economistas

Os tempos de crise, por norma, são difíceis e  complexos  para  a  maior  parte  das famílias  e  das  empresas.  Contudo,  constituem oportunidades para muitos empreendedores que se engajam e através do seu espírito criativo e habilidades conseguem obter sucesso.

Dessa forma, num ambiente de crise e às vezes mesmo de turbulência, o empreendedor deve identificar as suas oportunidades e, potenciando as suas valências e os seus pontos fortes, pode investir num determinado público-alvo conseguindo espaço no mercado.

De entre os inúmeros conceitos sobre empreendedor, numa análise económica, o empreendedor é aquele que combina recursos, trabalho, materiais e outros activos para tornar o seu valor maior do que antes. Para tal, introduz mudanças, inovações e assume algum risco. Numa ambiente de crise, ele terá de ter capacidade de iniciativa, flexibilidade e imaginação muito mais fértil, para conceber ideias e adaptá-las à nova realidade, pois é num ambiente de crise e turbulência que se testa a capacidade de gestão e resiliência de um empreendedor. Segundo teóricos e estudiosos do empreendedorismo, a actividade do empreendedor, para além do alisamento dos mercados por força de uma maior concorrência em períodos de crise, tem contribuído essencialmente para a criação de empregos e redução da pobreza por opções de auto-emprego.

Na nossa economia, exemplos de factores extrínsecos às empresas que estão na origem da nossa crise são, entre outros, actos de má governação que vão desde a ausência de criação de condições para a diversificação da nossa economia, a desigualdade de oportunidades de participação na economia, mau ambiente de negócios, fragilidades da democracia, impunidade e ausência de combate à corrupção até há bem pouco tempo, burocracia, fraquezas do poder judiciário, dualidade de critérios e má repartição de divisas aos empresários, não protecção e desenvolvimento da indústria transformadora, debilidades do ensino e a falta de autoridade em geral.

Como o empreendedor deve enfrentar os desafios da crise?

O empreendedor deve ir à busca de recursos necessários à formulação de um novo negócio no mercado.Com a globalização, as empresas só se mantêm competitivas de forma duradoura quando utilizam bem o factor de produção conhecimento, devido às rápidas mudanças nos mercados, à alta velocidade da inovação provocando quedas de preços nos produtos e serviços e ciclos de vida cada vez mais curtos adequados às necessidades dos clientes, pois a imitação e contrafacção é permanente mesmo com a introdução de várias barreiras de entrada. Para vencer-se num ambiente de crise e/ou turbulência é necessário mobilizar dinamicamente todos os recursos de conhecimento da empresa em busca de maior eficiência e eficácia.

Quais as principais características do empreendedor em tempos de crise?

Todos sabemos que, num ambiente de crise, cresce o número de desempregados. Nessas circunstâncias, regista-se um baixo consumo de bens e serviços, redução na circulação de massa monetária, decrescendo o poder de compra. Nessa hora, quem procura uma fonte alternativa de rendimentos encontra isso na actividade empreendedora, que deve apresentar as seguintes características:

1. Bom planeamento e controlo das actividades Pelo tamanho do desafio será necessário um bom planeamento, ou seja, quais os passos determinantes que devem ser dados, com segurança. O controlo se tudo está a ser feito como delineado na etapa do planeamento será imperioso;

2. Escolher bem a área de negócio

De preferência, deve-se procurar uma simbiose naquilo que se gosta e sabe fazer com as necessidades dopúblico-alvo;

3. Formalização do negócio

Deve conhecer-se bem a legislação, particularmente a  Lei  das  Micro,  Pequenas  e  Médias  empresas  (Lei n.º 30/11, de 13 de Setembro), a fim de tirar o máximo de benefícios que ela oferece;

4. Controlo das finanças

É muito importante para quem começa a empreender. Deve, para o efeito, separar as finanças empresariais das pessoais;

5. Actualização das suas capacidades de gestor

Deve capacitar-se periodicamente, assim como os seus colaboradores-chave, para que a capacidade organizativa e de gestão melhore dia após dia.

Quais as principais características de um bom negócio em tempos de crise?

O empreendedor deve ser um pouco mais contido nessa fase e “abrir os cordões à bolsa” de forma gradual. Nesses termos deverá:– Iniciar com pouco capital devido às dúvidas e incertezas da economia; – Ter um capital de giro baixo. Para tal deve trabalhar com fornecedores que ofereçam bons prazos de pagamento, justamente para não afectar o seu fluxo de caixa e expor o negócio a crises de liquidez; – Possuir um baixo volume de stock para não ter que arcar com os custos financeiros desses produtos armazenados quer na etapa de produção quer na de distribuição; – Subir gradualmente o nível de investimentos para crescer de forma sustentada; – Ter um baixo custo agregado ao produto porque para manter um bom fluxo de caixa é preciso ter dinheiro em mão e para isso é preciso vender muito rápido. Nessas circunstâncias deve dar prioridade a negócios com um tempo de recuperação de capital muito rápido; – Ter um marketingde baixo custo mas com o máximo de retorno possível. Nesse ponto poderá optar, por exemplo, por redes sociais (Facebook, WhatsApp, etc.) ao invés das formas tradicionais (rádio, jornais, televisão, outdoors); – Possuir a característica de escalabilidade, ou seja, a capacidade de aumentar ou reduzir a produção facilmente, adequando-se à procura do mercado.

Dessa forma o empreendedor procura manter o ponto de equilíbrio do negócio;– Possuir capacidade de liquidez quase imediata de máquinas e equipamentos, por forma a não acumular dívidas excessivas. Deve optar por negócios que, em caso de encerramento de actividades, lhe possibilitem uma boa liquidez para máquinas e equipamentos, porque com a venda desses activos poderá pagar com mais facilidade credores e ainda salvar algum dinheiro no final das contas.

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