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O macaco de Shakespeare

14/11/2016 - 09:46, Opinião

O primeiro episódio da série Westworld (em exibição em Portugal no canal TVSéries) há uma propositada confusão: demoramos a perceber quais personagens são de carne e osso e quais são meros robôs.

Por Edson Athayde

Com o passar dos capítulos, racionalmente já conseguimos fazer a classificação. Porém, a trama é construída de maneira a que sempre possamos duvidar daquilo que reiteradamente.Uma canção romântica, uma novela policial jamais poderiam ser criadas por uma máquina. Será? Cuidado.

Como em tudo na vida, nunca diga nunca nos é dito: robôs não sentem, por isso, não são humanos.

“Sentir” é um verbo complicado. Sentimos aquilo que o nosso sistema nervoso permite. A dor, por exemplo. Um paraplégico não é capaz de sentir dor nas pernas (mesmo que nelas enfiemos uma faca). Neste caso a dor física será inexistente mesmo que emocionalmente ele fique abalado com o ato de violência sobre o seu corpo.

“Os poetas sentem mais do que os outros”, um lugar comum, uma opinião que, lá está, sentimos como óbvia. Reflexo de uma verdade: os artistas em geral gostariam de ter o monopólio dos sentimentos, digamos, produtivos.  Nos últimos meses pululam notícias que apontam para um futuro próximo onde os robôs vão substituir os artistas.

Na Wired leio sobre o trabalho de uma ex-editora da Penguin Book que juntou-se a um pesquisador para encontrar a fórmula do bestseller perfeito.

Diz a revista: “O resultado do seu trabalho, detalhado no livro The Bestseller Code, é um algoritmo construído para prever, com 80% de acerto, quais romances se tornarão megabestsellers. Do que o leitor masculino gosta? Jovens, fortes heroínas que também são desajustadas (o tipo encontrado em A Rapariga no Comboio, Gone Girl e A Rapariga com a Tatuagem do Dragão. Sem sexo, apenas proximidade humana. Uso frequente da palavra “necessidade”.
Cães, sim; Gatos, nem por isso. Ao todo, foram identificadas 2799 características fortemente associadas com bestsellers”.

A evolução natural desse processo de mapeamento dos gostos dos leitores (com a precisão de até sabermos as palavras preferidas por cada target) vão ser os livros escritos por inteligência artificial.

Numa primeira fase ainda com o acompanhamento humano (mas com uma economia de escala fantástica: um autor poderá controlar a execução de dezenas de livros em simultâneo, escritos em tempo recorde e já “testados” antes dos lançamentos). Numa segunda fase, os robôs poderão fazer tudo sozinhos. As máquinas aprendem e não erram por sentirem-se deprimidas ou sem inspiração.

Quando muito, um engenheiro poderá ser necessário para garantir o bom funcionamento da coisa toda. Mas, claro, poderá não saber nada de literatura. O ramo musical encontra-se em fase semelhante.

Há algumas semanas estava a ouvir uma canção escrita e tocada por um robô. A batida era boa. A letra não fazia muito sentido. Mas, vamos ser sinceros, as canções pop sempre abusaram do direito de privilegiar as rimas sobre o bom senso.
O mais irónico disso tudo é a tese defendida pela Wired: os robôs escritores poderão ser a salvação da indústria dos livros na mesma proporção que significam o desemprego dos escritores.

Bem-vindo ao verdadeiro admirável mundo novo. Ou como diria o meu Tio Olavo: “Se der o teclado de um computador a um macaco, pelas leis da probabilidade, ele poderá digitar um livro de Shakespeare. O problema vai ser convencer o macaco a portar-se bem na noite de autógrafos.

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