Mercado

Proactividade das companhias de seguros para dinamizar o mercado

14/08/2017 - 09:50, Opinião

Cabe às seguradoras e às entidades mediadoras um maior esforço no uso de estratégias de marketing.

Por Edson Augusto

Especialista do Conselho Nacional de Estabilidade Financeira (CNEF)

O novo contexto do País demanda um maior esforço do sector financeiro no sentido de promover a dinamização da economia, sendo o mercado de seguros um sector fundamental na captação do aforro necessário para o investimento. No entanto, pese embora o seu potencial, entre nós, esta dimensão do sistema financeiro não tem ainda demonstrado a melhor performance no acompanhamento da nova dinâmica do País, que insta à diversificação económica.

A título de exemplo, refira-se que a contribuição do mercado de seguros para o PIB nacional é inferior a 1%, apresentando uma taxa de penetração inferior a 3%.

Não obstante, ainda assim, trata-se de um mercado potencialmente forte – o quarto maior em África, atrás apenas do Quénia, da Nigéria e da África do Sul –, podendo, eventualmente, gerar muitos mais dividendos e vantagens para a economia em geral.

Ora, como premissa operacional, importa dizer que, entre nós, existem 24 companhias de seguros e 98 me diadores, sendo que 51 são pessoas colectivas e outros 47 são mediadores individuais.

As companhias de seguros e demais empresas do ramo devem, pois, alavancar o seu sector, com vista a um crescimento que reforce o seu relevo no sistema financeiro. Tal objectivo deve ser alcançado, não obstante o difícil cenário macroeconómico, multiplicando os serviços, por meio da inovação e outros estímulos sobre o mercado, que quebrem a monotonia advinda dos seguros de coberturas obrigatórias, que são uniformes nas diferentes seguradoras (garantindo a cobertura dos mesmos riscos, apenas variando ligeiramente no preço e na qualidade do serviço prestado).

Ainda nesta linha de raciocínio, a verdade é que pode não ser sustentável para uma companhia de seguros, no nosso actual mercado, a sua actuação com uma carteira exclusiva de produtos de seguro obrigatório!

No presente quadro, considerando-se a pouca dinâmica no fomento do mercado (que permanece pequeno), contrastando com um sobrepovoamento de seguradoras e de intermediários do sector, podem, claramente, prever-se índices baixos de rentabilidade e os inerentes constrangimentos na solvabilidade de tais operadores, vislumbrando-se, assim, um ‘não desprezível’ risco potencial para este subsistema financeiro.

Seria, assim, de esperar, no que se refere aos seguros de cobertura facultativa, que as companhias tivessem um leque mais diversificado de produtos e que estes fossem mais atractivos para o consumidor (que, no nosso caso, padece de uma acentuada iliteracia no que tange à compreensão do fenómeno segurador, exigindo um notável esforço adicional de educação e de promoção!).

De igual modo, o papel de outras figuras do sector, como mediadores colectivos (agentes, correctores de seguro directo e de resseguro) e mediadores individuais (angariadores e agentes), também carece, sem dúvida, de muito maior divulgação. O desconhecimento geral da importância destes players do sector, e mesmo da sua real intervenção na nossa realidade, não ajuda na dinâmica do mercado, mas a verdade é que tal status pode decorrer de um défice ou inércia na própria actuação de tais entidades.

Sendo francamente verdade que a parca afluência dos tomadores de seguros às companhias está muito relacionada com a iliteracia financeira (não sendo um hábito, em Angola, a adesão voluntária a produtos de seguro), assim como também com a falta de divulgação da pluralidade dos serviços disponíveis nas empresas do sector, cabe às seguradoras e às entidades mediadoras um maior esforço no uso de estratégias de marketing direccionado, que conduzam o cliente à compreensão da existência de seguros, à percepção das suas reais necessidades de ‘consumo’ de tais produtos e, consequentemente, da mecânica das soluções oferecidas pelas seguradoras.

Esta postura pode contrariar a retracção dos consumidores – particulares e empresas – face aos produtos das companhias de seguros e estimular a dinâmica do mercado. Porém, não podemos deixar de frisar que a questão da confiança dos clientes em relação aos ganhos relacionados com os produtos oferecidos é crucial! Não basta haver um número cada vez maior de apólices subscritas, é preciso gerir estrategicamente o nível de conflitualidade no sector, estimulando a confiança no sistema.

As seguradoras precisam, pois, de honrar o pagamento atempado dos bens segurados, já que uma maior confiança pública no pagamento em caso de sinistralidade servirá, obviamente, como incentivo à multiplicação das adesões, bem como para as tomadas de seguros inovadores.

Daqui pode concluir-se que o mercado de seguros angolano deve reinventar-se, essencialmente, a partir da própria atitude dos seus operadores! Um trabalho aturado e consequente deve ser feito neste sentido: reforçando-se as acções de literacia, bem como as qualidades didácticas e de comunicação dos quadros que trabalham no sector; lançando-se novos produtos de seguros no mercado (o mais próximo possível das reais necessidades dos particulares e agentes económicos); estimulando-se a dinâmica da sã concorrência entre os operadores; reduzindo-se os índices de conflitualidade e fomentando a confiança do público; enfim,apoiando-se a rentabilidade e a solvabilidade das companhias, que permita garantir o equilíbrio financeiro de um ecossistema segurador robusto.

Afinal, de um sistema segurador transparente, célere e financeiramente saudável resulta a confiança do público no mesmo, o consequente surgimento de uma cultura de seguro, o aumento do rendimento dos operadores e, como é óbvio, resultam, igualmente, ganhos inestimáveis para as receitas do Estado e para o crescimento da nossa economia.

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