Mercado

Que modelo de desenvolvimento para o empresariado africano?

21/08/2017 - 09:52, Opinião

Em África, a classe empresarial é emergente, muito limitada e, sobretudo, de natureza comercial, senão mesmo especulativa.

Por Fausto Simões

Professor titular da UAN e coordenador da Comissão Instaladora da Ordem dos Economistas

Numa visão que se convencionou designar ortodoxa (neoclássica, neoliberal) da economia empresarial, e cujos expoentes máximos têm sido o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, tem-se defendido para a África subsariana uma estratégia de estabilização e de transformações que privilegie a orientação para o exterior nessa zona do continente.

Thorbecke (1994) chamou a atenção para o facto de haver uma grande propensão de corrupção, em geral, por parte dos governos da chamada ‘África Negra’.
Na sequência dessa constatação, Thorbecke concluiu que os Estados africanos deverão adoptar uma estratégia de desenvolvimento que assente, sobretudo, no sector privado, e não no Estado.

Em outras zonas do globo (América do Norte, Europa e até mesmo na maior parte da América Latina e em alguns países da Ásia Oriental e do Sudeste Asiático), esse princípio de desenvolvimento foi válido por existirem agentes económicos privados.

Em África, a classe empresarial é emergente, muito limitada e, principalmente, de natureza comercial, senão mesmo especulativa. É essa realmente a tradição maioritária em África desde tempos remotos, onde a actividade comercial sempre assumiu preponderância em relação à industrial.
Outro registo ainda ligado ao comércio em África prende-se com a liderança nessa actividade de ‘minorias étnicas’ extra-africanas que se foram espalhando por África: os libaneses na costa ocidental e os indianos e seus descendentes na costa oriental.

Como é evidente, houve ligeiras excepções a essa regra. O colonialismo português, particularmente em Angola e Moçambique, ergueu parques industriais.
Os alemães e os britânicos também o fizeram na África do Sul e na Tanzânia, respectivamente, mas, mesmo nesses casos, tratou-se de uma indústria de periferia, dependente de inputs da metrópole.

Mas voltemos ao postulado de Thorbecke. É um facto indesmentível que muitos governantes africanos são, infelizmente, corruptos. Contudo, temos de reconhecer que a grande maioria desses países não possui uma classe empresarial privada com cultura industrial.

Sem a devida classe empresarial, como optar por um modelo de desenvolvimento a partir da iniciativa privada?

Esse constitui o grande desafio do nosso continente. Na prática, deveremos criar classes empresariais fortes. Esta realidade a curto e médio prazo não nos parece real. Não obstante, somos de opinião que, em sectores–chave da economia empresarial, deverá ser o Estado a coordenar os diferentes programas de desenvolvimento. Contudo, embora reconheçamos que as classes empresariais africanas se devam assumir como tal, não podemos pretender que um antigo político, um ex-funcionário público ou mesmo um académico recém-graduado se transformem, em pouco tempo, em empresários proeminentes.
A história de países recém-independentes tem demonstrado que esse não será o modelo ideal de uma reforma empresarial.
Pensamos que a solução passa pela conjugação concomitante de duas vertentes, a saber:

– Incentivar, a curto/médio prazo, o desenvolvimento a partir de capital estrangeiro possuidor de know-how, via investimento privado. – Defesa de uma intervenção do Estado do tipo da verificada nos países da Ásia Oriental, como a Coreia e Taiwan, onde os governos assumem fundamentalmente o papel de árbitro e regulador da economia empresarial para, gradualmente, darem a possibilidade de irem surgindo empresas e empresários fortes, por oposição à constituição de um número significativo de empresas públicas. Mas que fique bem vincado: o Estado deverá criar as condições de apoio para tornar possível essa realidade.

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