Mercado

Recapitalização de bancos privados

15/02/2017 - 11:09, Opinião

Faz algumas semanas que analistas elevaram comentários sobre a necessidade de o Governo acudir bancos comerciais privados através de um processo de recapitalização, uma vez que concederam muito crédito de difícil recuperação.

Por António Pedro 

antonio.pedro@mediarumo.co.ao 

E se não for caso disso, salvar os respectivos bancos, haverá risco sistémico em todo o circuito financeiro angolano.

Embora o debate e a reflexão tenham começado a ganhar corpo desde início do ano corrente, depois das primeiras abordagens nos media financeiros angolanos em final do ano passado, a verdade é que o FMI alertou sobre este facto em Novembro de 2015 no seu relatório dedicado a Angola. Segundo o FMI, a alavancagem dos bancos angolanos tem sido semelhante à de países comparáveis, embora não os especifique, apesar de ter piorado nos últimos anos. O relatório expõe o problema quando afirma que o rácio de fundos próprios/total de activos dos bancos em Angola declinou de 18% em 2010 para 13% em 2014, ligeiramente abaixo do de países comparáveis (estudo da Deloitte aponta 15% para 2015).

Apesar de Angola não ter atingido um nível de risco, exige uma grande atenção, sobretudo porque a qualidade dos activos está a deteriorar-se de forma rápida. A rentabilidade e eficiência dos bancos angolanos declinou de forma considerável e atingiu o nível de certos países em situação similar. Houve factores que contribuíram, uma vez que a entrada de novos operadores no sector bancário intensificou a concorrência e reduziu margens de lucro.
O custo operacional dos bancos aumentou à medida que apostaram na expansão agressiva das suas redes de agências. O resultado foi uma queda do ROE de 43% em 2009 para 15% em 2014 e do ROA de 4% em 2011 para 2% em 2014.

O rácio custos/rendimento apresentou a mesma tendência e aumentou de 37% em 2009 para 55% em 2013, diz o FMI.

Contudo, não surpreende muito os indicadores apresentados pelo FMI para uma banca que durante décadas mais de 70% do produto bancário provinha de operações cambiais para tornar-se rentável.

No ano passado escrevi nesse espaço que o País necessita de uma política bancária consistente que alinhe interesses privados com sociais, e a contribuição do sector bancário tem sido questionada nos últimos anos, apesar de alguns bancos terem experimentado até ao momento menos conforto em rentabilidade, atingindo cenários de quase falência, o que periga o sistema financeiro angolano no seu todo.

No nosso País, o total de crédito concedido anualmente sobre o PIB chega a 20%, um indicador inferior ao de certos países, desde África do Sul (166%), Namíbia (52%), Brasil (82%) ao Japão (228%), etc. Se o Estado concordar em recapitalizar bancos privados, deve impor a todos playersdo sector a competir no crédito ao retalho, ao consumo, ao investimento, deixando o negócio das divisas para as casas de câmbio.

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