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Reduzir a discrepância energética de África

21/11/2016 - 09:38, Opinião

Apesar de uma década de crescimento económico elevado registado na África subsariana, devido essencialmente as exportações e aos bilhões de dólares de investimento estrangeiro, o nosso continente ainda enfrenta enormes desafios tais como a acentuação da pobreza e sistemas de electricidade deficientes.

Por Teodoro Poulson 

Todavia, presenciamos estradas, escolas, hospitais e aeroportos a serem construídos mas as infraestruturas do sector energético e alguns serviços públicos ainda estão subdesenvolvidos. Os défices do sector energético dificultam a nossa capacidade de reduzir a pobreza, ameaçam o aperfeiçoamento do sistema de educação e prejudicam o crescimento económico. No entanto, a questão que se levanta é: será que a África pode lidar com esses desafios ao mesmo tempo que procura alcançar a sustentabilidade por adoptar fontes de energia renováveis?

Em geral, a resposta é sim mas antes mesmo de chegar até este ponto precisamos de enfrentar algumas verdades e realidades duras. Tal como o Presidente Holland da França disse, e com razão, durante a COP21 em 2015, “O mundo tem uma dívida ecológica para com o continente Africano”. O mesmo continuou e fez uma declaração altamente precisa: “Embora África não seja responsável pela emissão de gases de efeito estufa, o continente sofre as consequências das mudanças climáticas”. Não é necessário ser um especialista em mudanças climáticas para determinar que a África já sofre um impacto desproporcional das mudanças climáticas, com inundações, secas e fome. Embora Holland esteja certo neste aspecto, ao mesmo erra num outro aspecto.

África não causou as alterações climáticas. Mas nós como cidadãos do continente, não fomos autónomos o suficiente ao permitir que os nossos recursos naturais fossem vendidos, durante décadas, sem exigirmos uma retribuição justa por parte da comunidade internacional. Mas vamos ser claros, isto não é um grito de caridade, é uma análise retrospectiva, na qual deveríamos ter exigido negócios mais responsáveis por parte dos nossos clientes internacionais.

Quando uma empresa chinesa ou americana quiser investir em África em 2016, espera-se que a mesma o faça de forma ética, criando empregos para os trabalhadores locais, ajudando a aperfeiçoar as habilidades da mão-de-obra local e operando de forma ambientalmente responsável. A análise restrospectiva é deslumbrante. É uma lição que aprendemos da forma mais difícil. Assim sendo, de alguma maneira ou de outra, temos sido cúmplices desta discrepância.

Quando se trata de caridade, também devemos aprender com o passado, sendo que a ajuda internacional nem sempre tem sido canalizada da forma mais correcta. Entretanto, as práticas de boa governação e transparência podem mudar esse cenário. A França, por exemplo, comprometeu 6 bilhões de euros entre 2016 e 2020 especificamente para o desenvolvimento de soluções de energias renováveis em África. O Presidente Francês, Holland, afirmou que as energias renováveis são uma forma de África garantir a sua segurança e o mesmo está certo neste aspecto. Soluções de energia renovável vão liberar milhões, reduzir o custo da energia e dar um impulso as economias nacionais.

Devemos, no entanto, ficar orgulhosos ao receber estes fundos, lembrando que África é afectada pela mudança climática que a mesma não causou. A comunidade internacional tem uma dívida ecológica para com a África e os fundos internacionais que estão a ser recolhidos para as energias renováveis no continente é um desenvolvimento justo e adequado.

O nosso próximo desafio é saber usar o investimento estrangeiro (seja em forma de ajuda financeira ou investimento privado de empresas estrangeiras) para garantir que cada dólar gasto seja direccionado a investigação, ao desenvolvimento e a inovação. Os jovens africanos estão ansiosos para realizar os seus sonhos. Os mesmos são os primeiros adaptadores da tecnologia e o continente em si tem uma enorme população com idade inferior aos 25 anos, que almeja torna-se empreendedor. Estes indivíduos necessitam de ser aproveitados. Há uma miríade de organizações em África que já estão a pressionar a agenda da inovação na agricultura e energia renovável, soluções inteligentes que ajudam a mitigar o impacto das mudanças climáticas. Os mesmos incluem a Gorta-Self Help Africa, que tem ajudado jovens empreendedores a criarem soluções como é o caso das sementes resistentes a seca e tecnologias que mantêm altos níveis de umidade do solo.

Os governos da região têm também um papel importante a desempenhar a nível nacional e regional. O “santo graal” pode-se dizer que seja o desenvolvimento de uma rede regional de electricidade, que chega até às comunidades de todo o continente. Embora o mesmo parece ser um grande desafio em termos de infraestrutura (a própria rede física seria um grande desafio) a realidade é que a África já tem a capacidade de transformar as estações de energia a diesel para gás natural dentro de um curto espaço de tempo. África queima o gás natural, desperdiçando assim recursos naturais mas é uma fonte de combustível barata e muito mais ecológica. Neste aspecto, África pode ajudar a si mesmo. Se os governos e as empresas de mineração colaborarem, centrais eléctricas movidas a gás poderiam começar a funcionar dentro de dois anos. Além disso, as empresas de mineração podem servir como clientes bases, pagando as centrais eléctricas a gás (ou PPP adquiridas) detidas pelo Estado pela electricidade ao invés de queimar o seu próprio diesel. Isso contribuiria para a economia nacional e também forneceria um financiamento adicional para a expansão de uma rede regional. Naturalmente, este tipo de ideias requerem liderança e colaboração regional.

Os governos também têm o poder de apoiar empresários locais com ideias inovadoras para o desenvolvimento de soluções de eficiência energética para os desafios locais. Em 2014, o governo de Angola lançou um novo fundo de capital de risco denominado Fundo Activo de Capital de Risco Angolano, o primeiro fundo de investimento do país apoiado pelo governo. O mesmo foi criado especificamente para ajudar empresas emergentes em Angola a se expandirem. O Fundo está disponível para ajudar empresas viáveis a crescerem, particularmente as que inovam no sector da energia e agricultura. O FACRA também actua como canal, criando parcerias entre investidores estrangeiros e empresas angolanas, tornando fácil para as empresas estrangeiras investir em energias renováveis em Angola, e muito mais fácil para as empresas emergentes expandirem os seus negócios.

Estamos claramente em um ponto na história em que o mundo decidiu que é certo e justo retribuir à África, para tentar corrigir os erros infligidos sobre a mesma durante a industrialização. Este é um momento bem-vindo. Cabe agora a nós, como africanos, usar esses fundos de forma racional para apoiar empreendedores e inovadores locais que estão focados em encontrar soluções africanas para os desafios africanos. Em alguns aspectos, estamos apenas no início desta jornada mas é um caminho que precisamos seguir. Temos agora o mundo do nosso lado e não o devemos decepcionar.

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