Mercado

A revolução tecnológica de África não deve excluir as regiões mais pobres

19/12/2016 - 10:11, featured, Opinião

Bill Gates disse, certa vez, que “nunca na história a inovação fez tantas promessas a tanta gente em tão pouco tempo”, uma afirmação que se tornou famosa, mas não menos do que o que disse em Junho de 2014, na 123.ª Abertura da Universidade de Standford.

Por Teodoro Poulson 

Fez um discurso em que mencionou a pobreza a que assistira numa viagem a Soweto, tamanha pobreza como nunca sequer imaginara, pessoas a viverem em barracas sem electricidade, sem água, sem casas de banho. Abordou o enorme desafio que é a forma de tuberculose resistente aos medicamentos, uma doença com uma taxa de cura inferior a 50 por cento, e comentou, de modo irónico, que a sua própria Fundação “não estava focada no facto de meio milhão de pessoas estarem a morrer anualmente neste continente por causa da malária. Mas é claro que haveremos de vos trazer computadores”.

O facto é que muitos economistas e investidores pensam tantas vezes sobre a tecnologia numa perspectiva socioeconómica, citando o comércio electrónico, as aplicações para telemóveis e o vasto acesso ao crédito online como África é a última grande fronteira, que acolhe o maior número de população jovem no mundo e níveis históricos de investimento em infra-estruturas impulsionadores da mobilidade social. No entanto, na África contemporânea, a tecnologia tem um papel adicional e de igual importância.

Enquanto a África subsariana expande a sua classe média, o governo, as ONG e o sector privado precisam de ter em mente que há um segmento da sociedade continuamente em risco de ser ignorado. Sem que seja providenciada ajuda e oportunidades para todos os africanos, corremos o risco de repetir os mesmos erros do Ocidente ao criarmos um fosso entre os ricos e os pobres.

África é a última grande fronteira, que acolhe o maior número de população jovem no mundo e níveis históricos de investimento em infra-estruturas. Os governos e os organismos internacionais investiram centenas de milhares de milhões de dólares no desenvolvimento de novas estradas, aeroportos, zonas francas e outras formas essenciais de infra-estruturas.

Mas todo este investimento estará em risco se as necessidades dos mais pobres não forem consideradas. É por este motivo que precisamos de ter em mente o quão importante é prestar apoio aos inovadores e empreendedores africanos que estão a desenvolver soluções tecnológicas que nos poderão ajudar a reduzir a pobreza e a resolver os contínuos desafios na área da saúde, que são epidémicos em muitas partes da região.

Um dos desafios mais comuns no sector da saúde em África é a geografia – alcançar as comunidades mais afastadas e providenciar serviços de saúde rápidos e viáveis a todos os indivíduos incapacitados de se dirigir a um hospital ou a uma clínica. Há inúmeros exemplos de inovações tecnológicas que abordam estes problemas. Nos Camarões, um jovem empreendedor inventou o CardioPad, um tabletque permite a realização de exames ao coração, como o electrocardiograma, em zonas rurais distantes que nunca antes tiveram acesso a testes de diagnóstico cruciais.

Os seus eléctrodos comunicam via Bluetooth com o tablet, que, por sua vez, envia um sinal para os departamentos de cardiologia da cidade mais próxima, usando tecnologia de satélite. Esta tecnologia apenas está disponível nos Camarões, actualmente, mas, graças ao financiamento e apoio de um centro médico privado, está agora a ser estudada a sua aplicação noutros países. Outra de muitas soluções de diagnóstico é o MedAfrica, uma biblioteca virtual simples que contém informação médica disponível no smartphone, enumerando sintomas e possíveis diagnósticos.

A Medisoft East Africa desenvolveu igualmente uma tecnologia que permite que as radiografias e outras imagens possam ser carregadas e enviadas a radiologistas localizados a quilómetros de distância. Este produto, designado de telerradiologia, dá a todos os centros médicos de imagiologia e hospitais em todo o continente a liberdade de subcontratar serviços de interpretação a radiologistas externos 24 horas por dia.

Inovações deste tipo apenas podem ser desenvolvidas e trazidas para o mercado se forem apoiadas por múltiplos stakeholders. O governo é obviamente um elemento motivador, mas outros organismos, como a UNICEF ou a OMS, também o são. Até mesmo os investidores privados e as empresas estrangeiras têm um papel na ampliação destas inovações.

Estabelecemos em Angola um único modelo de capital de risco que funciona para os investidores estrangeiros como um canal de ligação com os inovadores locais. No FACRA, encorajamos activamente os empreendedores angolanos na área das tecnologias a virem até nós, de modo que os possamos ajudar a adquirir capital, num mercado que apresenta constantemente lacunas relativamente ao atendimento das necessidades dos que não trazem nenhum historial de crédito.

Acreditamos que a saúde e os desafios sociais, tais como a falta de acesso a electricidade fora da rede e a água potável, representam para os investidores estrangeiros inúmeras oportunidades. Saúde, saneamento e energia trazem esperança de vida às pessoas mais pobres nas nossas comunidades; oportunidades para os inovadores africanos se tornarem empreendedores de sucesso e para as multinacionais contribuírem para o melhoramento da qualidade de vida de todos os africanos, ao mesmo tempo que se geram retornos substanciais aos seus investimentos. É uma oportunidade para os investidores estrangeiros explorarem ideias de negócio promissoras, assim como uma garantia de entrada fácil e rápida no mercado doméstico e regional.

Cada um de nós tem um interesse particular em ajudar os nossos jovens inovadores e empreendedores e é tempo de investir nas tecnologias que ajudam a construir um futuro mais promissor para eles e para África.

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